Flávio Gomes da Silva

Canto versos sem me perguntar, sem procurar, sendo o quanto há de ser sem algemas

1968-09-09 Rio de Janeiro
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NO TEMPO DOS MEUS DIAS DE MARÇO

No tempo dos meus dias de março
Eu ainda menino a sugar o mato
Ficava agachado à tardinha
Esperando a chuva, olhando se ela vinha. 

O equinócio me dava as boas-vindas
Tempo de igualdade e reflexão…
E eu sem entender, andava a refletir
Espiando o céu, sem saber do existir

O vento me soprava na cara
Baforando o solene ‘está vindo,
As nuvens negras cheias d’águas caindo’
E as janelas aplaudindo o outono
Retiravam o verão de seu trono
Mesmo não entendendo, eu sentia                                                          
O céu me envolvendo como uma fantasia
Sem o peso de agora, nada era antigo
(ainda que velho), e o tempo era amigo

No tempo dos meus dias de março
A alegria era natural e eu não percebia
A tristeza normalmente eu não via
Mas estavam lá, lado a lado
Traçando os dias do meu não saber

Hoje observo meus dias 
Com os olhos cientes da vida
Sem inocência, foi-se a despedida
De mais um ano de verão
Foi-se o agachar e a reflexão
Foi-se o menino que sugava o mato
Foi-se o viver em anonimato

Hoje, inquieto, olho meus dias                                                                                 
E me pergunto: onde estão as alegrias?
Em qual canto as larguei?
Por muitos cantos passei
Sem refletir e olhar as nuvens…

Hoje percebo tudo religiosamente
E por mais que seja novo, diferente
Não sinto mais o sabor de antes
Meu tempo de agora falta sal
Diferentemente, tudo é tão igual! 

Por que, meu Deus, meu hoje é insosso?                                                                   
Por que não me agacho mais na inocência
De uma etérea experiência?
Ah! Que eu me suporte até a morte
Pela realidade de meus dias…

Ao menos me deste a compreensão                                                               
Do meu refletir saciando minha alma
A consciência daquilo que eu vivia
E que, por completo, me preenchia
Ao menos o conforto dessa lembrança…
Que dias me deste quando criança!

As cores dançavam comigo no meio
Das dificuldades da vida, estava alheio
Aqueles encontros comigo em contentamento
Eram dias de meu alento, de enlevação
Imprimidos no meu coração
Contemplando o céu, uma festa eu vivia
No tempo dos meus dias de março!

 

 

 

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