José João Murtinheira Branco

1954-01-27 Vila Franca de Xira
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REMORSO

Remorso filho da culpa que no tempo perdura

Vives lado a lado no silêncio soberbo da minha dor

Gerado no passado tão presente que me tortura

Nesta vida tão sentida, descontente e sem sabor.

 

Em horas passadas profundas caladas e lentas

De rezas e preces erguidas em relicários de cipreste

De quem precisa do perdão e vive na tormenta

De quem clama e já não ouve o que me disseste.

 

De ombros caídos vergado por este peso que já não posso

Escrevo este poema arcaico, de inquietude na noite amena

De versos que brilham molhado nas lágrimas do remorso

De alma triste sem inspiração segregados por avara pena.

 

Escritos cantados em dor por entre o rouco soluçar da harmónica

Nesta culpa que me angustia a alma e me fustiga a cada passo

Remorsos perfilados persistentes num som de voz afónica

Sem espaço penetram e envolvem a mente num abraço.

 

De braços erguidos na minha cruz grito a Deus e ao universo

Até que a garganta fique fria e ceda a este mal que não espanto

Correndo nesta humilde e triste voz a estrofe deste verso

Nesta balada de remorso a quem aos meus mortos canto .

João Murty

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