O morredouro
Na minha rua há um morredouro, quase como
aquele da Irmã Angélica de Bombaim.
Lá, tudo é miserável e não há enfermeiras,
só moribundos, decadentes, agonizantes,
cujas vidas não podem ser saciadas com
comidas ou remédios terrenos.
As paredes são descarnadas e pequenas valas
serpenteiam entre as enxergas,
um acúmulo de sangue, pus, escarros e lágrimas.
Tudo forma um quadro de pintura abstrata,
involuntária, de chãos e paredes multicores,
vermentos, com predominância do vermelho.
Cães comem pelos cantos e lambem as valas;
não é justo chamá-los de nojentos: não há
nojo em saciar a fome, há satisfação.
Vê-se uma sutil beleza naquela podridão,
naquele concerto de gemidos e lamentos.
Oh! Deus! Quando minhas pernas bambearem
estarei lá, adepto da loucura por algumas
horas, alguns meses ou até a hora extrema,
a critério dos vermes que, quase imperceptivelmente,
já me corroem as entranhas...
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