L. Alexandre Santos

L. Alexandre Santos

Mundos à beira do abismo.

1997-08-30 30/08/1997
--
424
0
0

Desperto

Mas quem é esse que desperta?
Num espaço que nega nome, cor ou tempo.
A consciência me atravessa incerta,
como se pensar já fosse contratempo.

Não respiro; não porque faltem ventos,
mas porque o ar já não reconhece pulmões.
Sou presença sem centro, sem fundamentos.
Um vestígio de ideias, sem razões.

As mãos? Vagas formas do que fui.
Translúcidas; não de luz, mas de ausência.
Percebo, com um susto que não flui,
que a existência é puro véu de aparência.

Saio ou sonho sair? E o mundo cala.
Não há causa, nem ordem, nem direção.
Tudo é neutro, e a própria dor se embala
numa inércia que finge ser compaixão.

Morto? Talvez. Mas o que é morrer
se eu nunca soube o que é ser?
Um reflexo etéreo vem me perceber:
talvez eu seja o enigma que me mato.

Promete revelar-me o fim e a essência,
mas sua voz soa como o próprio abismo.
Pois qual verdade há, se não há presença?
E o eterno, senão um cíclico ceticismo?

24
0

Mais como isto



Quem Gosta

Quem Gosta

Seguidores