Desperto
Mas quem é esse que desperta?
Num espaço que nega nome, cor ou tempo.
A consciência me atravessa incerta,
como se pensar já fosse contratempo.
Não respiro; não porque faltem ventos,
mas porque o ar já não reconhece pulmões.
Sou presença sem centro, sem fundamentos.
Um vestígio de ideias, sem razões.
As mãos? Vagas formas do que fui.
Translúcidas; não de luz, mas de ausência.
Percebo, com um susto que não flui,
que a existência é puro véu de aparência.
Saio ou sonho sair? E o mundo cala.
Não há causa, nem ordem, nem direção.
Tudo é neutro, e a própria dor se embala
numa inércia que finge ser compaixão.
Morto? Talvez. Mas o que é morrer
se eu nunca soube o que é ser?
Um reflexo etéreo vem me perceber:
talvez eu seja o enigma que me mato.
Promete revelar-me o fim e a essência,
mas sua voz soa como o próprio abismo.
Pois qual verdade há, se não há presença?
E o eterno, senão um cíclico ceticismo?
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