Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

1898–1963 · viveu 65 anos BR BR

Ribeiro Couto foi um poeta e diplomata brasileiro, cuja obra se insere no movimento modernista, com particular destaque para a sua poesia que explora temas como o Brasil, as suas gentes e a identidade nacional. A sua escrita é caracterizada pela experimentação formal, pela linguagem coloquial e pela valorização da cultura brasileira, marcada por uma forte ligação ao regionalismo e à oralidade.

n. 1898-03-12, Santos · m. 1963-05-30, Paris

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II - Café

Sabor de antigamente, sabor de família,
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão de casa, com lenha do mato de casa,
Café para as visitas de cerimônia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada,
para toda a gente.

Café para de manhã, para de tardinha, para de noite,
Café para todas as horas do riso ou da pena,
Café para as mãos leais e os corações abertos,
Café da franqueza inefável,
Riqueza de todos os lares pobres,
Na luz hospitaleira do Brasil.


Publicado no livro Província (1933). Poema integrante da série Produtos Nacionais.

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.22
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Biografia

Identificação e contexto básico

Manuel de Albuquerque Couto, mais conhecido como Ribeiro Couto, foi um proeminente poeta, contista e diplomata brasileiro. Nasceu em Minas Gerais e a sua obra está intrinsecamente ligada à cultura e paisagens do Brasil, especialmente do interior. A sua nacionalidade era brasileira e escreveu em português.

Infância e formação

Ribeiro Couto teve uma infância marcada pela vida no interior de Minas Gerais, experiência que moldou profundamente a sua sensibilidade e a sua obra literária. A sua formação, para além da educação formal, foi enriquecida pela imersão nas tradições, na linguagem e nas paisagens do seu estado natal. Absorveu influências da cultura popular e do folclore brasileiro.

Percurso literário

O percurso literário de Ribeiro Couto iniciou-se com uma forte inclinação para a poesia e para a prosa, onde buscou retratar a alma brasileira. Foi um dos nomes importantes da segunda geração do Modernismo Brasileiro, também conhecida como Geração de 30. A sua obra evoluiu para uma consolidação de um estilo próprio, que valorizava a linguagem coloquial, o regionalismo e a identidade nacional. Trabalhou como diplomata, o que lhe permitiu contactar com outras culturas, mas sempre manteve um forte vínculo com o Brasil, refletido na sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ribeiro Couto é vasta e abrange poesia e prosa. Entre os seus trabalhos poéticos destacam-se "Poesias" (1926), "No Brasil" (1931) e "O Ombro da Arara" (1937). Na prosa, escreveu "Terra de Sol e Sombra" (1941). Os temas dominantes na sua obra incluem a exaltação do Brasil, a vida no campo, as paisagens mineiras, a identidade nacional, a religiosidade popular e a crítica social subtil. O seu estilo é marcado pela experimentação com a linguagem, o uso do verso livre, a musicalidade inspirada na fala popular e na música brasileira, e uma forte imagética visual. A sua voz poética é autenticamente brasileira, confessional e por vezes nostálgica. Ribeiro Couto é considerado um dos precursores de uma poesia que se afasta dos centros urbanos e literários para mergulhar nas raízes culturais do país, dialogando com a tradição oral e o folclore.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ribeiro Couto viveu um período de grande efervescência cultural e política no Brasil, marcado pelo Modernismo e pelas transformações sociais do século XX. Foi um expoente da Geração de 30, que procurou consolidar as conquistas modernistas e dar um enfoque mais nacionalista e regionalista à produção literária. A sua carreira diplomática permitiu-lhe um intercâmbio cultural valioso, mas a sua obra permaneceu firmemente ancorada na realidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Ribeiro Couto foi marcada pela sua dupla carreira como diplomata e escritor. As suas experiências no exterior enriqueceram a sua perspetiva, mas o seu coração permaneceu em Minas Gerais. As suas relações familiares e a sua vivência no interior foram fontes de inspiração constantes para a sua obra literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ribeiro Couto foi um poeta reconhecido em vida, integrando a importante Geração de 30 do Modernismo Brasileiro. A sua obra foi bem recebida pela crítica pela sua originalidade e pela forma como soube captar a essência do Brasil. O seu nome ocupa um lugar de destaque na literatura brasileira, sendo valorizado pelo seu regionalismo e pela sua poética autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pelas correntes do Modernismo, Ribeiro Couto, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas que buscaram uma expressão literária mais conectada com as raízes e a identidade brasileira. O seu legado reside na sua capacidade de fundir a experimentação formal com a celebração do Brasil profundo, consolidando a importância do regionalismo na poesia.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ribeiro Couto é frequentemente analisada sob a ótica do nacionalismo literário e da valorização do regionalismo. As suas poesias oferecem uma visão íntima e lírica do Brasil, convidando à reflexão sobre a identidade nacional e as paisagens que a moldam.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é a forma como a sua carreira diplomática se entrelaçou com a sua produção literária, oferecendo-lhe perspetivas únicas sobre o Brasil e o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ribeiro Couto faleceu no Rio de Janeiro, deixando um legado poético e literário significativo para a cultura brasileira. As suas obras continuam a ser estudadas e apreciadas pela sua autenticidade e relevância.

Poemas

23

Viola Caipira no Sítio Vista Alegre

A casa de palha
À beira do rio.

A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.

Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.

Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.

Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.

Noite longa, longa,
A noite do mato.


Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
1 112

Cantiga do Avô Português

O meu avô foi à caça
Na serra do Cubatão.
Mas, ano vem, ano passa,
Nunca volta do sertão.

Dizem que os índios são bravos.
Nem sempre as índias também!
Meu avô levou escravos
Com redes que embalam bem.

O bafo das noites quentes
Faz pensar noutros Brasis
Em que andam nossos parentes
Com outras índias gentis.

"A caça, que tempo dura?",
A minha mãe perguntei.
"Vai até a sepultura,
Porque é serviço de El-Rei."


Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Neto de Emigrante.

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.38
1 151

Modinha do Exílio

Os moinhos têm palmeiras
Onde canta o sabiá.
Não são arte feiticeiras!
Por toda parte onde eu vá,
Mar e terras estrangeiras,
Posso ouvir o sabiá,
Posso ver mesmo as palmeiras
Em que ele cantando está.

Meu sabiá das palmeiras
Canta aqui melhor que lá.
Mas, em terras estrangeiras,
E por tristezas de cá,
Só à noite e às sextas-feiras.
Nada mais simples não há!
Canta modas brasileiras.
Canta — e que pena me dá!


Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.278

NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
3 324

Ilha Distante

Ilha de melancolia,
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;

Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;

Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;

Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;

Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —

Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.


Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 349

Fado de Maria Serrana

Se a memória não me engana,
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?

Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.

Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.

Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.

Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.

Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.


Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.42
1 131

Festa na Bahia

Andorinha cantou é dia.
(Motivo popular.)
Cristo nasceu na Bahia.
(Motivo popular.)

Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.

Aqueles sábios das Escrituras
Já não gostavam de nós, eu sei.
Era o preconceito contra as misturas.
Índios e negros, raças impuras,
Que era aquilo, com portugueses de lei?

Andorinha passou contando
Que o Filho de Deus estava chegando.

Teve sempre de tudo na Bahia.
A gente querendo acha: acha porque ainda tem.
Mulheres, então, nem posso dizer as que havia!
Umas de pé descalço, outras com colar de pedraria,
Iaiá, cafuné, berenguendém.
No céu de coqueiros cantou a andorinha.
A cidade ficou sabendo: Nosso Senhor do Bonfim já vinha.

Houve de tudo na Bahia e de todas as cores,
Houve tudo que é bom e ainda há.
Risos de todos os dentes, braços de todos os odores,
Mulatas enfeitiçando padres e governadores,
Azeite-de-dendê, moqueca de peixe, vatapá.

Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Domingo eu vou lá.


Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.27
1 211

Monólogo da Noite

Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...

A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.

Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.


Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
1 535

Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...

1 282

Serenata em Coimbra

Por vós e de um só nome eu te chamaria,
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.

Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)

Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.

Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...

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Soneto da Fiel Infância

Tudo que em mim foi natural — pobreza,
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
Dói na saudade mais que então doía.

Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.

Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.

Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.

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