

Renata Pallottini
Renata Pallottini foi uma poeta, dramaturga, contista e tradutora brasileira, uma das vozes mais significativas da poesia contemporânea. Sua obra é marcada pela intensidade lírica, pela reflexão sobre a condição humana, o amor, a morte e a passagem do tempo, com uma linguagem ora coloquial, ora erudita, mas sempre envolvente. Ela explorou diversas formas poéticas, do verso livre a estruturas mais rígidas, e sua escrita frequentemente transita entre o pessoal e o universal, o íntimo e o social. Pallottini também atuou como tradutora de importantes obras literárias, enriquecendo o panorama cultural brasileiro com seu talento e sensibilidade.
1931-01-20 São Paulo
2021-07-08 São Paulo
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Saudade da Feira de
Saudade da feira de Casa Amarela:
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,
saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,
saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,
saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,
pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.
Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
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