

Nuno Júdice
Nuno Júdice foi um proeminente poeta, ensaísta, romancista e crítico literário português. Sua obra poética é caracterizada pela inteligência, ironia e um constante questionamento sobre a linguagem, a identidade e a própria realidade. Com um estilo que transita entre o lírico e o reflexivo, Júdice abordou temas universais como o tempo, a memória, o amor e a condição humana, sempre com um olhar aguçado sobre os paradoxos da existência. Sua vasta produção, reconhecida nacional e internacionalmente, o consagra como um dos mais importantes autores da literatura contemporânea em língua portuguesa.
1949-04-29 Mexilhoeira Grande
2024-03-17 Lisboa
566311
16
312
Visão
Nas correntes frias onde morre a luz dos astros,
e entre os gritos rápidos dos condenados, encontrei o reflexo
de um amor antigo. Deixou-me um gosto de sangue nos dentes,
os lábios gretados num roxo de ânsia. Rasgou-me a alma
num seco crepitar de papel. Estava imóvel, encostado aos ventos
e às marés, e o seu corpo exalava o cheiro húmido dos litorais. Falava
baixo, num segredo de sombra, num horizonte de bocas sem alegria,
arrastando a voz num sussurro de litania. Fiquei de longe,
a olhar, enquanto o sol nascia.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 23 | Na Regra do Jogo, 1982
e entre os gritos rápidos dos condenados, encontrei o reflexo
de um amor antigo. Deixou-me um gosto de sangue nos dentes,
os lábios gretados num roxo de ânsia. Rasgou-me a alma
num seco crepitar de papel. Estava imóvel, encostado aos ventos
e às marés, e o seu corpo exalava o cheiro húmido dos litorais. Falava
baixo, num segredo de sombra, num horizonte de bocas sem alegria,
arrastando a voz num sussurro de litania. Fiquei de longe,
a olhar, enquanto o sol nascia.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 23 | Na Regra do Jogo, 1982
1514
0
Escritas.org