

António Ramos Rosa
António Ramos Rosa foi um dos mais influentes poetas portugueses do século XX, conhecido pela sua poesia densa, reflexiva e profundamente ligada à condição humana e à linguagem. A sua obra é marcada por uma busca constante pela expressão autêntica, explorando temas como a existência, a morte, o tempo e a própria poesia. A sua escrita evoluiu ao longo de décadas, mantendo uma coerência temática e estilística, mas sempre aberta a novas explorações formais e lexicais. É considerado um pilar da poesia contemporânea em língua portuguesa.
1924-10-17 Faro
2013-09-23 Lisboa
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Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
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