Soares de Passos

Soares de Passos

Soares de Passos foi um poeta português do século XIX, figura proeminente do Ultra-Romantismo em Portugal. A sua obra é marcada por um profundo pessimismo, um descontentamento existencial e uma atração pela morte e pelo melancólico, características que o tornaram um dos representantes mais distintivos da sua geração. As suas poesias, embora por vezes consideradas excessivamente sombrias, revelam uma sensibilidade intensa e uma habilidade lírica que o colocam como um poeta de relevo na literatura portuguesa.

1826-11-27 Porto
1860-02-08 Porto
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Desejo

Oh! quem nos teus braços pudera ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no lânguido gozo
D'infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Falando d'além,
D'além! duma vida que sonha minha alma,
Que a terra não tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra
Por tal galardão:
Tesouros, e glórias, os tronos da terra,
Que valem, que são?

A sede que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Pudesse eu ganhá-los, e iria seu nada
Depor a teus pés.

E só desejando mais doce vitória,
Dizer-te: eis aqui
Meu ceptro e ciência, tesouros e glória:
Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dor,
Se um dia embalasses, um dia somente,
Meu sonho d'amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que vale?
A vida é só vida se o amor nela acende
Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho pudesse eu contigo,
Voando, subir;
Depois que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cair.
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