Lista de Poemas

gaia ciência

sábio círculo em torno do nada
do além do aquém
de que é que de quem é quem
lição de cor do ardor do amor
signo perseguido em guia de dor
manifesta confusa desvairada
desvario ou alegria de trâmite curtido
palavra de real gozo de conceituai
léxico anverso controverso
capturado mel da defensiva abelha em sua colmeia
dispersivo pescar na convulsão da ideia
rio de acima de abaixo confluência de águas
e quem mais o quis menos o teve
breve perene sempiterno
nascente de prazer ou de frágua
o que ficou desse riso siso
retórico ressaibo

1 012

Advertência da gerontóloga

rosto composto mosto decomposto em cara-
quadro vegetal de arcimboldo
retro old man maquiado de fimbrias desfibradas
do diabo guisado requentado em rescaldo ou
rescoldo
(sabe-se aqui o que de culinária quando muito de
azia e suas carquejadas)
de rabanete nabo quiabo em babas mal
temperadas
mas vá lá vadio pé-de-valsa goliardo goliold(o)
young old man without gold or god oficial de
ofício das madrugadas
o dia foi duro irmão durão as favas a fatiota de
dom Bertoldo


1 018

em cada conto te conto

& em cada conto te cont
o& em cada enquanto me enca
nto& em cada arco te a
barco& em cada porta m
e perco& em cada lanço t
e alcanço& em cada escad
a me escapo&em cada pe
dra te prendo& em cada g
rade me escravo& em ca
da sótão te sonho& em cada
esconso me affonso& em
cada cláudio te canto & e
m cada fosso me enforco&
deCantaria Barroca, 1975
1 084

insólito

contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido


994

Cantiga de Nossa Senhora da Modéstia

do nicho elipse ontem fresta
sem coroa ou aura à sobretesta
sem louvor barroco à testa
cheia de graça em enfesta
lindeira de urbe e floresta
névoa ao olho imanifesta
oculta por imolesta
flor ou bem que se requesta
coração que se empresta
a nenhum juro infunesta
em seu sol tarde seresta
de som noite que se apresta
ao ardor deste à ânsia desta
dada mão furtiva ou presta
príncipes de brim voile em véstía
rímel pó rouge à arte honesta
na esquina de amor ou festa
ao cadente beijo da hora é esta
sua luz vertia em réstia
nossa senhora da modéstia
deCantigas do Falso Alfonso El Sábio, 2002.
915

Apartação

Com suas rações
de clareira e frondes
rompe o latifúndio
com seus horizontes

— Com suas savanas
de relva e flagelo
demanda os retiros
com seus céus de inverno

— Com sua aventura
de surpresa e faina
deslumbra as nascentes
com seus sais de lama

— Com suas ciladas
de febre e malogro
caminha as vazantes
com seus bebedouros

— Com sua forragem
de perda e silêncio
remorde a distância
com seus nós de tempo.

994

Castração

Com suas iníquas
máquinas de tédio
aprende o degredo
com seus chãos reversos

— com suas escumas
de vinagre e pasmo
celebra os opróbrios
com seu desamparo

— com suas sezões
de pejo e salsugem
arqueja os verões
com seus gozos rudes

— com suas ilhargas
de fuligem e asco
deslembra as novilhas
com seus curvos favos

— com suas obesas
barbelas de adorno
ostenta a vergonha
com seu grão roncolho

de Carta do solo, 1961

1 070

Soneto

Não vos traga tristeza a chuva fria
a se esgueirar nas tardes sem corola.
Sobe o chumbo (o sem cor) das coisas vivas
sufocando o clamor das vossas horas.
Sobre o ontem deitastes. Neve amiga
da pegada os sinais na terra afoga
(vede o exemplo da nuvem que destila
o fel de si na gota que se evola).
Sede o espelho, não mais. O próprio nervo
se desfaça no plano de cristal
onde a imagem enfim se compreende.
Plenitude da origem e do termo
o nimbo vos ensine o largo mar.
Sereis então o grande indiferente.
de O Açude e os Sonetos da Descoberta, 1953
1 065

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Identificação e contexto básico

Affonso Ávila é um poeta, ensaísta, professor universitário e crítico literário brasileiro. Nasceu em Descalvado, São Paulo. É considerado um dos nomes importantes da terceira geração do Modernismo brasileiro, também conhecida como Geração de 45.

Infância e formação

Teve uma formação acadêmica sólida, que se refletiu em sua posterior carreira como professor e crítico literário. Sua educação formal o expôs a um vasto conhecimento da literatura e da filosofia, elementos que transparecem em sua obra.

Percurso literário

Começou a publicar poemas e ensaios literários a partir da década de 1950. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de reflexão existencial e formal, com crescente rigor estético. Participou ativamente da cena literária brasileira, colaborando em revistas e jornais e consolidando sua posição como intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras poéticas de Affonso Ávila incluem "Poemas" (1958), "Tempo e eternidade" (1959), "O espelho e o tempo" (1960), entre outros. Seus temas recorrentes são a passagem do tempo, a efemeridade da vida, a morte, a solidão, a busca por sentido e a reflexão sobre a própria poesia. Seu estilo é caracterizado pela clareza formal, pelo uso de uma linguagem precisa e por uma musicalidade contida. Geralmente escrevia em verso livre, mas com um controle rítmico notável. Sua voz poética é frequentemente meditativa, filosófica e, por vezes, melancólica. Ele dialoga com a tradição, mas dentro de um contexto modernista, buscando um equilíbrio entre a forma e o conteúdo. Sua obra está associada à poesia reflexiva e existencial da Geração de 45.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Affonso Ávila viveu e produziu em um período de efervescência cultural e política no Brasil, marcado pela consolidação do Modernismo e pelas transformações sociais do país. Ele participou de debates literários e intelectuais, contribuindo para a formação de uma crítica literária mais aprofundada no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Como professor universitário, Affonso Ávila dedicou parte significativa de sua vida ao ensino e à pesquisa literária, paralelamente à sua produção poética e ensaística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É reconhecido como um importante poeta e crítico da literatura brasileira, com sua obra estudada em meios acadêmicos. Sua contribuição para a crítica literária é fundamental para a compreensão da poesia moderna brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas da tradição ocidental e por autores brasileiros que o precederam. Seu legado reside na sua poesia reflexiva e em sua obra crítica, que ajudou a consolidar o estudo da literatura no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Affonso Ávila é frequentemente analisada sob a ótica de sua preocupação com o tempo e a finitude humana, bem como pela sua maestria formal e pela profundidade de suas reflexões existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora seja mais conhecido por sua poesia e crítica, sua atuação como professor e intelectual público moldou significativamente o panorama literário brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória (Informações sobre morte e publicações póstumas não disponíveis no momento).