Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

1937–2025 · viveu 87 anos BR BR

Affonso Romano de Sant'Anna foi um poeta, crítico literário e ensaísta brasileiro, conhecido pela sua poesia que explora a linguagem, a metalinguagem e a condição humana, frequentemente com um tom filosófico e irónico. A sua obra aborda temas como o tempo, a memória, a cidade e a relação do indivíduo com o mundo moderno, utilizando uma linguagem densa e imagética. Distinguido pela sua contribuição para a literatura e cultura brasileiras, Sant'Anna também se destacou como professor universitário e comentarista em diversos meios de comunicação, disseminando o conhecimento literário e a reflexão crítica. A sua poesia é marcada pela experimentação formal e pela profundidade temática, consolidando-o como uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1937-03-27, Belo Horizonte · m. 2025-03-04, Rio de Janeiro

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Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Affonso Romano de Sant'Anna é um renomado poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário brasileiro. Nasceu em Caratinga, Minas Gerais, em 23 de abril de 1937. Sua obra poética é marcada pela profunda reflexão sobre a linguagem, a metalinguagem, a cidade, o tempo, a memória e a condição humana, muitas vezes com um tom irónico e filosófico. É conhecido por sua linguagem densa, imagética e experimental. Sua nacionalidade é brasileira e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Nascido em Minas Gerais, Sant'Anna teve uma infância marcada pelo ambiente familiar e cultural do interior. Sua formação acadêmica foi sólida, tendo se graduado em Direito e, posteriormente, obtido mestrado em Literatura Comparada e doutorado em Letras pela Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle), na França. Essa vivência internacional e o contato com diferentes correntes literárias e filosóficas foram cruciais para moldar seu pensamento e sua escrita. Absorveu influências da poesia moderna e contemporânea, bem como de correntes filosóficas que questionavam a linguagem e a realidade.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu com a publicação de seus primeiros poemas, que logo chamaram a atenção pela originalidade e pela profundidade. Ao longo do tempo, sua obra evoluiu, apresentando diferentes fases e experimentações formais e temáticas. Publicou diversos livros de poesia, que foram reunidos em coletâneas, e também se dedicou à crítica literária e ao ensaísmo. Atuou ativamente na vida acadêmica, sendo professor em importantes universidades, e também participou de revistas literárias e culturais, consolidando seu percurso como poeta e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais importantes estão "O Canibal" (1971), "Que País é Este?" (1978), "Parábola do Cantor" (1981), "Debaixo da Cicatriz" (1991) e "Agoray" (2001). Seus temas dominantes incluem a cidade como espaço existencial, a complexidade do tempo e da memória, a reflexão sobre a própria poesia e linguagem, e a crítica à sociedade contemporânea. Em termos de forma e estrutura, Sant'Anna explorou tanto o verso livre quanto formas mais experimentais, buscando sempre a adequação da forma ao conteúdo. Seus recursos poéticos são marcados pela densidade imagética, pelo ritmo e pela musicalidade, muitas vezes com um tom confessional, irónico e filosófico. A linguagem utilizada é erudita, mas acessível, com grande riqueza de vocabulário e exploração de jogos de palavras. Sua obra dialoga com a tradição literária, mas inova ao trazer para a poesia brasileira temas e abordagens da modernidade e pós-modernidade. É frequentemente associado ao que se pode chamar de poesia conceitual ou metapoesia.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Affonso Romano de Sant'Anna viveu e produziu sua obra em um período de intensas transformações sociais, políticas e culturais no Brasil e no mundo. Sua poesia reflete as tensões e os dilemas da sociedade moderna, a urbanização crescente e as crises existenciais que acompanham o avanço tecnológico e a globalização. Como intelectual, participou de debates importantes e manteve contato com outros escritores e artistas de sua geração, contribuindo para o cenário cultural brasileiro. Sua obra, embora não explicitamente engajada em movimentos políticos específicos, carrega uma forte carga de reflexão crítica sobre a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se divulga sobre a vida pessoal de Affonso Romano de Sant'Anna em comparação com sua obra. Sabe-se que sua formação acadêmica no exterior, especialmente na França, foi um período importante que influenciou sua visão de mundo. Sua carreira como professor universitário em instituições como a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e sua participação em debates culturais e literários ocuparam grande parte de sua vida. Sua dedicação à poesia e ao pensamento crítico parece ter sido o eixo central de sua existência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Affonso Romano de Sant'Anna é amplamente reconhecido como um dos poetas mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Sua obra recebeu diversos prêmios e distinções ao longo de sua carreira, e sua produção é objeto de estudo em universidades no Brasil e no exterior. A receção crítica de seus livros tem sido consistentemente positiva, destacando a originalidade, a profundidade e a qualidade estética de sua poesia e ensaios. Sua popularidade se estende tanto no meio acadêmico quanto entre leitores que apreciam uma poesia mais reflexiva e desafiadora.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sant'Anna foi influenciado por uma vasta gama de autores, da poesia clássica à contemporânea, com destaque para poetas que exploraram a linguagem e a metalinguagem. Seu legado reside na forma como renovou a poesia brasileira, introduzindo novas abordagens temáticas e estilísticas, e na sua capacidade de articular a reflexão poética com o pensamento crítico. Ele influenciou gerações posteriores de poetas e escritores a explorarem as potencialidades da linguagem e a refletirem sobre a própria condição de ser poeta em um mundo em constante mudança. Sua obra faz parte do cânone literário brasileiro e tem sido amplamente divulgada e estudada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sant'Anna é rica em possibilidades de interpretação. As análises críticas frequentemente se debruçam sobre a dimensão filosófica e existencial de seus poemas, explorando temas como a efemeridade do tempo, a busca por sentido em um mundo fragmentado e a relação entre o indivíduo e a coletividade urbana. Seus poemas convidam à reflexão sobre a própria natureza da linguagem e da arte, questionando os limites entre o real e o ficcional. Alguns debates críticos giram em torno da sua abordagem da identidade nacional e da representação da cidade na poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto interessante de sua obra é a forma como ele consegue transitar entre a poesia lírica e a poesia ensaística, muitas vezes fundindo os gêneros. Sua preocupação com a palavra e com a sonoridade dos versos é uma constante, e ele dedicou anos de estudo à poesia e à crítica literária. A metapoesia, ou seja, a poesia que fala sobre a própria poesia, é um traço marcante de sua produção, demonstrando uma consciência aguçada do ofício do poeta.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Affonso Romano de Sant'Anna faleceu em 7 de maio de 2024, no Rio de Janeiro, aos 87 anos. Sua morte foi lamentada pelo meio literário e cultural brasileiro. Sua obra continua a ser celebrada e estudada, garantindo sua memória e seu legado como um dos grandes poetas e pensadores da literatura brasileira.

Poemas

165

Antropologia Sexual

Pela Natureza o homem é um ser polígamo.
(Há exceções. Poucas).
Pela Natureza a mulher é ser monógamo.
(Há exceções. Muitas).
Há quem discorde.
De qualquer maneira
a biologia comportamental dá provas.
Pela Cultura o homem tenta ser monógamo.
(Tenta).
Pela Cultura a mulher tenta ser polígama.
(Tenta).
Nisto já se vão muitos mil anos.
Convenhamos,
a passagem da Natureza à Cultura
e a tentativa de se chegar a um acordo
tem sido
um notável esforço do casal.
1 181

Pier Della Vigna

Passo por San Miniato – onde viveu Pier della Vigna
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
1 131

Se Eu Dissesse

Se eu dissesse que o crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
1 220

Debruçado Sobre o Mistério

Não sou o primeiro a debruçar-me sobre o mistério.
Ovídio perscrutava as estações,
Leopardi tinha um pacto com estrelas.
Outros, deixando à parte os instrumentos
humildes e perplexos se renderam.
Não há como ao mistério decifrá-lo.
É próprio dos mistérios serem opacos.
Entrego o pasmo à sua sorte.
Passeio calmo em seus arcanos
aspiro aromas, vejo cores, toco formas
e me dissolvo extasiado nessa aura.
1 061

Coisas da Primavera

O que fazer contigo loira primavera
que me chegas entreabrindo o mel das coxas?
O equinócio de tuas ancas me ilumina
a corola de tua boca tem zumbidos
e a cabeleira luminosa aflora
enquanto tuas pupilas me devoram.
1 174

Isto & História,1968

Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
1 045

Fim/Começo Dos Tempos

Porque o século ia acabar
fizemos a última guerra
comemos o último banquete
colhemos a última orquídea
bebemos o último cálice
amamos pela última vez
e saudamos o último crepúsculo.
Porque o século ia começar
saudamos a primeira aurora
amamos pela primeira vez
bebemos o primeiro cálice
colhemos a primeira orquídea
comemos o primeiro banquete
e fizemos a primeira guerra.
1 080

Canibalismo Repensado

Às vezes tenho a impressão
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.
Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet dos sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.
Estou cansado disto.
Paro. Penso. E, então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado
começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama, na minha mesa.
1 151

Jardinagem

Amadureço na morte alheia a minha morte.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
1 040

Domingo Nos Campos da Toscana

Domingo nos campos da Toscana:
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
1 112

Livros

12

Videos

19

Comentários (6)

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Quem ta aqui pela onhb? K

Gabriel
Gabriel

Não tem oque falar dessa lenda

Virgínia Xavier
Virgínia Xavier

Nem sei o que dizer, Affonso Romano é admirável. Veja sua pessoa como alguém que já conheço a muito tempo. Há pouco dias esteve em minha cidade (São João del-Rei Mg) para uma plenária junto Marina Colasanti e nos deixou mais apaixonados pela poesia.Digo, é um delírio.

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Affonso Romano de Sant Anna, poeta que me faz suspirar nesse escrever sublime.

Naif Silver
Naif Silver

Belíssimo! O autor é um tremendo artista das letras!