Airas Nunes

Airas Nunes

1230–1293 · viveu 63 anos ES ES

Airas Nunes foi um poeta galego da Idade Média, conhecido por compor cantigas de amigo em galego-português. A sua obra, inserida no contexto da lírica trovadoresca, destaca-se pela expressividade e pela representação de temas como o amor, a saudade e a natureza, frequentemente filtrados através da voz feminina. As suas cantigas são importantes testemunhos da língua e da cultura da época, revelando uma sensibilidade artística notável para o seu tempo.

n. 1230, Reino da Galiza · m. 1293, Chinchón

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Que Muito M'eu Pago Deste Verão

Que muito m'eu pago deste verão,
por estes ramos e por estas flores
e polas aves que cantam d'amores,
por que ando i led'e sem cuidado;
e assi faz tod'homem namorado:
sempre i anda led'e mui loução.

Cand'eu passo per algũas ribeiras,
sô bõas árvores, per bõos prados,
se cantam i pássaros namorados,
log'eu com amores i vou cantando,
e log'ali d'amores vou trobando
e faço cantares em mil maneiras.

Hei eu gram viç[o] e grand'alegria
quando mi as aves cantam no estio.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Airas Nunes (ou Aires Nunes) foi um trovador galego que viveu durante a Idade Média. É conhecido principalmente pela sua produção de cantigas de amigo, um género lírico característico da poesia trovadoresca na Península Ibérica. As suas obras foram compostas na língua galego-portuguesa, a língua comum da lírica peninsular nesse período.

Infância e formação

Os detalhes sobre a infância e a formação de Airas Nunes são escassos, como acontece com muitos trovadores medievais. Sabe-se que pertencia à nobreza, o que lhe permitiu o acesso à educação e a familiaridade com os costumes da corte e os códigos de cavalaria, elementos que frequentemente transparecem na sua poesia.

Percurso literário

Airas Nunes integrou o movimento da lírica galego-portuguesa, sendo um dos trovadores mais representativos do género da cantiga de amigo. A sua obra, preservada em cancioneiros como o da Biblioteca Nacional de Lisboa e o de Elvas, inclui um número considerável de composições que atestam a sua atividade poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Airas Nunes é composta predominantemente por cantigas de amigo. Estas cantigas caracterizam-se pela voz lírica feminina que expressa os seus sentimentos amorosos, muitas vezes marcados pela saudade, pela ausência do amado e pela comunicação com a natureza (o mar, as flores, os pássaros) ou com confidentes (a mãe, a irmã, as aias). O estilo de Airas Nunes é notado pela sua expressividade, pela delicadeza na descrição dos sentimentos e pela musicalidade dos seus versos. Utiliza recursos como o paralelismo, a refrão e a repetição para intensificar a emotividade e o ritmo das composições. Temas como o amor velado, a espera, o sofrimento pela separação e a manifestação do desejo são recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Airas Nunes viveu num período de intensa atividade cultural e política na Península Ibérica, com a coexistência de reinos cristãos e muçulmanos, e o florescimento da lírica galego-portuguesa como expressão artística das elites corteses. Ele pertenceu à segunda geração de trovadores, num momento em que a poesia lírica atingia um alto grau de sofisticação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de Airas Nunes são limitadas. Sabe-se que era um fidalgo e que a sua atividade poética estava ligada ao ambiente das cortes, onde os trovadores eram figuras apreciadas. A sua obra, embora centrada na voz feminina, é reflexo das convenções sociais e dos sentimentos de amor e devoção que caracterizavam a época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Airas Nunes é reconhecido como um dos mais importantes trovadores da lírica galego-portuguesa. A sua obra foi preservada nos principais cancioneiros medievais, o que demonstra a sua relevância e o seu impacto na tradição literária da época. A sua contribuição para o género da cantiga de amigo é fundamental para a compreensão da poesia medieval peninsular.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Airas Nunes foi influenciado pela tradição da cantiga de amigo e pelos modelos líricos que o precederam. O seu legado reside na qualidade e na expressividade das suas composições, que serviram de modelo para outros trovadores e que continuam a ser estudadas e apreciadas pela sua beleza e pela sua importância histórica e linguística. Ele contribuiu significativamente para a consolidação da métrica e do estilo da cantiga de amigo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Airas Nunes tem sido objeto de análise crítica que realça a sua capacidade de criar uma voz lírica feminina autêntica e expressiva, mesmo sendo escrita por um homem. A interpretação das suas cantigas foca-se na representação do amor cortês, nos códigos sociais subjacentes e na relação entre o eu lírico e o mundo exterior.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua obra é a habilidade com que Airas Nunes, um homem, se coloca na perspetiva feminina para expressar sentimentos tão íntimos, o que demonstra uma grande sensibilidade e capacidade de empatia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de Airas Nunes não são conhecidas, nem há registos de publicações póstumas, uma vez que a sua obra foi compilada em cancioneiros durante a sua vida ou pouco depois.

Poemas

15

Desfiar Enviarom Ora de Tudela

Desfiar enviarom ora de Tudela
filhos de Dom Fernando a el-rei de Castela.
E disse el-rei logo: - Ide alá, Dom Vela,
desfiad'e mostrade por mim esta razom:
       se quiserem, por câmbio do reino de Leon,
       filhem por en Navarra ou o reino d'Aragom.

Ainda lhes fazede outra preitesia:
dar-lhes-ei por câmbio quanto hei em Lombardia,
e aquesto lhes faço por partir perfia;
e faço gram dereito, ca meus sobrinhos som:
       se quiserem, por câmbio do reino de Leon,
       filhem por en Navarra ou o reino d'Aragom.

E veed'ora, amigos, se prend'eu engano!
E fazed'de guisa que seja sem meu dano:
se quiserem trégoa, dade-lha por um ano;
outorgo-a por mim e por eles Dom Gastom;
       se quiserem, por câmbio do reino de Leon
       filhem por en Navarra ou o reino d'Aragom.
549

Bailade Hoje, Ai Filha, Que Prazer Vejades

- Bailade hoje, ai filha, que prazer vejades,
ant'o voss'amigo, que vós moit'amades.
- Bailarei eu, madre, pois me vós mandades,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
de viver el pouco moito vos pagades,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.

- Rogo-vos, ai filha, por Deus, que bailedes
ant'o voss'amigo, que bem parecedes.
- Bailarei eu, madre, pois mi o vós dizedes,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
de viver el pouco gram sabor havedes,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.

- Por Deus, ai mia filha, fazed'a bailada
ant'o voss'amigo de sô a milgranada.
- Bailarei eu, madre, daquesta vegada,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
de viver el pouco sodes moi pagada,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.

- Bailade hoj', ai filha, por Santa Maria,
ant'o voss'amigo, que vos bem queria.
- Bailarei eu, madre, por vós todavia,
       mais pero entendo de vós ũa rem:
em viver el pouco tomades perfia,
       pois me vós mandades que baile ant'el bem.
850

Bailemos Nós Já Todas Três, Ai Amigas

Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida, como nós, velidas,
       se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidas
       verrá bailar.

Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana, como nós, louçanas,
       se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanas
       verrá bailar.

Por Deus, ai amigas, mentr'al nom fazemos
sô aqueste ramo frolido bailemos,
e quem bem parecer, como nós parecemos,
       se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
       verrá bailar.
2 862

Oí Hoj'eu Ua Pastor Cantar

Oí hoj'eu ũa pastor cantar
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".

E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".

E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".

Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
832

Bailia das avelaneiras

Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quen for velida, como nós, velidas,se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidasverrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas;
e quen for louçana, como nós, louçanasse amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanasverrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailemos;
e quen ben parecer, como nós parecemos,se amigo amar,
sô aqueste ramo sô-l’ que nós bailemosverrá bailar.
1 185

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