Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

1952–1983 · viveu 31 anos BR BR

Ana Cristina Cesar foi uma poeta, ensaísta e tradutora brasileira cuja obra se destaca pela intensidade lírica, pela exploração da subjetividade e pela intersecção entre a vida e a escrita. A sua poesia, marcada por uma voz única e uma linguagem que mescla o coloquial e o erudito, aborda temas como o amor, a identidade, a memória, a cidade e a condição feminina. A sua curta, mas prolífica carreira, deixou um legado significativo na literatura brasileira contemporânea.

n. 1952-06-02, Rio de Janeiro · m. 1983-10-29, Rio de Janeiro

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Fagulha

Abri curiosa

o céu.

Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,

coração ante coração,

inteiriça

ou pelo menos mover-me um pouco,

com aquela parcimônia que caracterizava

as agitações me chamando

Eu queria até mesmo

saber ver,

e num movimento redondo

como as ondas

que me circundavam, invisíveis,

abraçar com as retinas

cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria

(só)

perceber o invislumbrável

no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria

apanhar uma braçada

do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria

captar o impercebido

nos momentos mínimos do espaço

nu e cheio

Eu queria

ao menos manter descerradas as cortinas

na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia

que virar pelo avesso

era uma experiência mortal.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Ana Cristina Cesar, conhecida como Ana C., foi uma poeta, tradutora e ensaísta brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro e viveu grande parte da sua vida na mesma cidade, embora tenha tido períodos de residência em outros países, como Inglaterra e Estados Unidos. É uma figura proeminente da poesia brasileira da segunda metade do século XX.

Infância e formação

Ana Cristina Cesar nasceu numa família de classe média do Rio de Janeiro. Demonstrou desde cedo um grande interesse pela leitura e pela escrita. Formou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e posteriormente fez mestrado em Literatura Comparada na mesma instituição, com uma tese sobre "O Romance de Cavalaria no Brasil". A sua formação académica e a sua vasta leitura de autores brasileiros e estrangeiros foram fundamentais para a sua produção literária.

Percurso literário

O percurso literário de Ana Cristina Cesar começou com a publicação de poemas em jornais e revistas literárias. Publicou o seu primeiro livro de poemas, "A Teia de Renda", em 1964, ainda adolescente. Seguiram-se "Poética" (1972), "O Homem Ferido" (1976) e "Coração Exilado" (1977). Para além da poesia, destacou-se como tradutora de obras importantes da literatura inglesa e americana, bem como ensaísta, com textos que exploravam a relação entre vida e obra de escritores. A sua escrita é marcada por uma forte interligação entre a sua própria experiência e a criação literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Os temas centrais na obra de Ana Cristina Cesar incluem o amor, o desejo, a identidade, a solidão, a memória, a cidade (particularmente o Rio de Janeiro) e a condição feminina. A sua poesia é caracterizada por uma voz lírica intensa, por vezes confessional, que transita entre o pessoal e o universal. O seu estilo é marcado pela concisão, pela musicalidade, pelo uso de uma linguagem que combina o coloquial com o erudito, e pela exploração de imagens fortes e originais. Utilizou frequentemente o verso livre, com uma estrutura que reflete a fluidez do pensamento e da emoção. O tom da sua poesia pode ser melancólico, irónico, erótico ou reflexivo. A relação entre a vida e a obra é uma característica fundamental, com os seus poemas muitas vezes atuando como um diário íntimo e uma forma de elaboração de suas experiências.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ana Cristina Cesar produziu a sua obra num período de efervescência cultural no Brasil, ainda sob o regime militar, e posteriormente na redemocratização. Fez parte de uma geração de poetas que buscavam renovar a linguagem poética e explorar novas temáticas. Manteve contato com outros escritores e artistas da época, participando ativamente do cenário cultural brasileiro. A sua obra dialoga com a tradição literária brasileira, mas também com tendências internacionais, refletindo uma abertura e um interesse pela literatura mundial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ana Cristina Cesar foi intensa e, em parte, marcada por relações amorosas significativas e por crises existenciais que se refletiram na sua obra. A sua experiência como mulher, intelectual e artista moldou profundamente a sua escrita. A sua dedicação à literatura, como poeta e tradutora, foi uma constante.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido reconhecida pela crítica e por um círculo de leitores atentos durante a sua vida, o reconhecimento mais amplo de Ana Cristina Cesar veio após a sua morte. Hoje, é considerada uma das vozes mais importantes e originais da poesia brasileira contemporânea, com um lugar consolidado no cânone literário. As suas traduções também são valorizadas pela qualidade e pela escolha dos autores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ana Cristina Cesar foi influenciada por poetas como Elizabeth Bishop, Emily Dickinson e Murilo Mendes, entre outros. O seu legado reside na forma autêntica e corajosa como explorou a subjetividade, a fragilidade e a força feminina na poesia, abrindo caminho para novas abordagens temáticas e estilísticas. A sua obra continua a inspirar novas gerações de poetas e leitores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Ana Cristina Cesar é frequentemente analisada sob a ótica da sua relação com a vida, da exploração da identidade e da condição feminina. As suas reflexões sobre o amor, a perda e a busca por um sentido em meio à fragmentação da existência são temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Ana Cristina Cesar é a sua paixão pela escrita em cartas e a correspondência que manteve com outros escritores, que revelam facetas da sua personalidade e do seu processo criativo. A sua obra é frequentemente vista como um prolongamento da sua própria vida, uma forma de autoconhecimento e de expressão das suas mais íntimas vivências.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ana Cristina Cesar faleceu tragicamente no Rio de Janeiro. Após a sua morte, a sua obra ganhou ainda maior visibilidade e apreço. Publicações póstumas e reedições dos seus livros consolidaram a sua importância e a sua memória na literatura brasileira.

Poemas

20

Sonho Rápido de Abril

As ambulâncias
se calaram
as crianças suspenderam a voracidade batuta
dois versos deliraram por detrás dos túneis
moleza nos joelhos
mão de ferro nos peitinhos
tristeza suarenta, locomotiva, fútil
patinho feio
soldadinho de chumbo
manto de jacó, escada de jacó
sete anos de pastor
estrela demente desfilando na janela
de repente as ambulâncias estancaram o choro
voraz dos bebês.
1 481

Flores Do Mais

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
3 686

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
1 811

Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.



2 050

Deus na Antecâmera

Mereço(merecemos,
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)

Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária

(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)

Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir

Filho
Pai

E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando

HOMEM: ACORDA!

1 669

Psicografia

Também eu
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.

3 625

Dias Não

Menos Dias

Chora-se
com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde

e a tarde
pendurada ro raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima.

1 754

Um Beijo

que tivesse um blue.

isto é

imitasse feliz

a delicadeza, a sua,

assim como um tropeço

que mergulha surdamente

no reino expresso

do prazer

Espio sem um ai

as evoluções do teu confronto

à minha sombra

desde a escolha

debruçada no menu;

um peixe grelhado

um namorado

uma água

sem gás

de decolagem:

leitor ensurdecido

talvez embevecido

"ao sucesso"

diria meu censor

"à escuta"

diria meu amor

sempre em blue

mas era um blue

feliz

indagando só

"whats new"

uma questão

matriz

desenhada a giz

entre um beijo

e a renúncia intuída

de outro beijo.

2 954

Psicografia

Psicografia

Tambem eu saio à revelia

e procuro uma síntese nas demoras

cato obsessões com fria têmpera e digo

do coração: não soube e digo

da palavra: não digo (não posso ainda acreditar

na vida) e demito o verso como quem acena

e vivo como quem despede a raiva de ter visto

1 590

19 de abril

Era noite e uma luva de angústia me afagava o
pescoço. Composições escolares rodopiavam,
todas as que eu lera e escrevera e ainda uma
multidão herdada de mamãe. Era noite e uma
luva de angústia... Era inverno e a mulher
sozinha... Escureciam as esquinas e o vento
uivando... Saí com júbilo escolar nas pernas,
frases bem compostas de pornografia pura,
meninas de saiote que zumbiam nas escadas
íngremes. Galguei a ladeira com caretas,
antecipando o frio e os sons eróticos povoando
a sala esfumaçada.

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CORASSIS

me apaixonei pelos seus versos