Lista de Poemas

Que é voar?

Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre,leve,independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não -vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório,momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
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Auto-retrato

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

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A matéria das palavras

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
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Wer abend sind sie, sag

Wer abend sind sie, sag
mir, die Fahrenden

Os errantesos fugazes
viajantesque nós somosbuscando sempre a vibração
perdidadiariamente caemda árvore da memóriaonde brilha o
nomeo melancólico ansiado barcoOh que percurso
essencialdescrevem os errantesna sua busca em queda
abismadossobre si mesmos voltadospercorrendoa arriscada
síntese do exílio!E tuvontade
insatisfeitaonde encontrarásos frutos da árvore do
quereras alegrias do estar e do serque nos rompem o
peitode tanto as ansiar?A rosa do olharque na
procura reverdecea todo o instante esqueceo som
da quedae escuta sóo tilintar da sorteno
inventado bolso da esperançaque nos
empurraimpelelisonjeianum breve sorriso captadonum furtivo
afagoilusão de ternuraMas logo logoalgo nos
arranca o curativonos retira o tapete mágico do
repousonso remetepara a nossa condição de feridos
atingidosE na busca heróicado instante
transfiguradoo activo martírio de prosseguirfaz de
nóseternos estrangeiros
mal-amadosdesamparadosperegrinos recém-chegados

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FEIGENBAUM, SEIT WIE LANGE SCHON ISTS MIR

BEDEUTEND

Figueiraó árvore que irrompes da
tua securasuportando o penoso desdobrar de teus
ramosamaldiçoadaofereces ainda a doçura de teus frutosa sombra de
tuas
folhasa firmeza do teu apego à terra Ó dura
bruta formaheroína da escassezó teimosaque
insistes e insistese nos ensinasque a vida é feita
de incessantes mortese que a nóssuas futuras
vítimasnos aguardaa todo o momentoa derrocada do
templosem nenhum outro frutoalém da amarguraÓ
doçuraporque amargas tantoa nossa tentação de florirao
mesmo tempo sendo tudo e nada ?

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Ela vem

Ela vem
quando eu cerro as pálpebras pesadas
e apoio a cabeça na escuridão do desejado sono.
Vem muito branca, muito lenta.
Fita-me calada
e muito direita
começa desatando seus cabelos negros.
Abre a boca num riso que eu não oiço
deixa cair o seu vestido todo.
E enquanto eu olho fascinada o seu ventre coroado de negro
seis homens pequeninos e muito encarquilhados
agarram suas seis tetas
e sugam-lhes os bicos
rosados e rijos de prazer.

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O círculo

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.

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Simplesmente fantástico o poema Voar... pois sua alma se desprende do corpo e tem que em algum lugar pousar. E não mias retornar. Parabéns Senhora Ana Hatherly , de neste momento nos céus tu estarás.

Identificação e contexto básico

Ana Hatherly é uma escritora, poeta, ensaísta, performer, artista visual e professora universitária portuguesa, nascida em Moçambique. É uma das figuras mais importantes da poesia experimental em língua portuguesa, conhecida pela sua obra multidisciplinar que transita entre a literatura, as artes plásticas e a performance. Escreve em português.

Infância e formação

Nascida em Moçambique, então colónia portuguesa, Ana Hatherly passou a sua infância e adolescência num contexto colonial que, mais tarde, viria a ser refletido em parte da sua obra. Regressou a Portugal para prosseguir os seus estudos, licenciando-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutorando-se em Estudos Portugueses.

Percurso literário

O percurso literário de Ana Hatherly iniciou-se com a publicação de poesia. No entanto, o seu trabalho rapidamente transcendeu os limites tradicionais do género, abraçando a poesia visual, a poesia concreta e a performance. Foi uma figura ativa nos movimentos de vanguarda em Portugal, colaborando em revistas e projetos artísticos que exploravam novas linguagens. A sua atividade académica como professora universitária também marcou o seu percurso, onde pôde partilhar e aprofundar o seu conhecimento sobre literatura e artes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ana Hatherly é caracterizada pela sua natureza multidisciplinar e conceptual. Na poesia, explora a materialidade da palavra, a relação entre o texto e a imagem, e a desconstrução da linguagem convencional. A poesia visual e a poesia concreta são vertentes importantes do seu trabalho, onde a disposição espacial das palavras e a exploração gráfica do texto ganham primazia. A performance também é um meio de expressão significativo, onde o corpo e a ação se unem à palavra. Temas como a identidade, a memória, a história, a colonização e a própria natureza da arte e da linguagem são recorrentes. O seu estilo é marcado pela experimentação, pela inteligência conceptual e pela capacidade de criar pontes entre diferentes áreas artísticas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ana Hatherly desenvolveu a sua obra num período de profundas mudanças em Portugal, incluindo o fim do Estado Novo e a transição para a democracia. Este contexto de abertura e efervescência cultural permitiu o florescimento de movimentos de vanguarda e a experimentação artística. Ela insere-se numa geração de artistas e escritores que procuraram romper com as tradições estabelecidas e explorar novas formas de expressão, dialogando com as correntes internacionais de arte e literatura.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ana Hatherly, embora discreta, é marcada pela sua intensa dedicação à arte e ao conhecimento. A sua formação e o seu percurso profissional demonstram uma forte vocação intelectual e criativa. As suas experiências, incluindo a sua origem em Moçambique, certamente influenciaram a sua visão de mundo e a sua produção artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ana Hatherly é amplamente reconhecida como uma das pioneiras e mais importantes expoentes da poesia experimental em Portugal. O seu trabalho tem sido objeto de exposições, estudos académicos e retrospetivas, que destacam a sua originalidade e o seu impacto na arte contemporânea. É uma figura respeitada no meio académico e artístico, tanto em Portugal como internacionalmente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ana Hatherly foi influenciada por movimentos como o concretismo, o surrealismo e pela arte conceptual. O seu legado reside na sua ousadia em cruzar fronteiras disciplinares, na sua exploração da materialidade da linguagem e na sua contribuição para a renovação da poesia portuguesa. Inspirou e continua a inspirar artistas e escritores a experimentarem novas formas de expressão e a questionarem os limites da arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ana Hatherly é frequentemente analisada sob a perspetiva da teoria literária e da crítica de arte, destacando-se a sua abordagem à desconstrução da palavra, à relação entre semântica e sintaxe, e à crítica pós-colonial. As suas obras convidam a múltiplas leituras, explorando a complexidade da comunicação e da representação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é a sua versatilidade como artista, atuando em campos tão diversos como a poesia, a pintura, a performance e a escrita crítica. A sua capacidade de integrar a imagem e a palavra de forma tão orgânica é uma marca distintiva do seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ana Hatherly continua ativa e a sua obra permanece relevante. A sua memória é mantida através da sua produção contínua, dos estudos sobre o seu trabalho e da sua influência na paisagem artística e literária contemporânea.