De onde a palavra
Pelas friestas
do Ser
espiam as palavras
e nelas, inexplicáveis,
a força das marés,
a macieza da pétala,
o bruto rasgar do cutelo
o alívio do unguento
Vêm e colhem no ar
ou na fundura da terra,
a dimensão do que for
e dizem sem desvendar
no seu afã, as palavras…
Emerge e regressa à penumbra
pressagiando, a palavra
como sibila que habita
o seio da obscuridade….
lugar de todos os nomes
onde repousa o sentido
daquilo que nos afronta
entre o silencio e o grito.
Alto Mar
Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...
Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir
Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....
Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz
e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos
além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.
Urgencia
Hoje é
decretado o estado de urgencia!
Ordens, decretos, leis
só aqueles emanadas da suprema
e soberana instancia
que é a Vida
Viver! A urgência é máxima!
Ao som de fanfaras e gritos
pelas cidades se anuncia:
clepsidras e ampulhetas esgotaram
a espera desmedida
e a eminente derrocada
dos romanos coliseus de nossa era
está prevista
A vida de saltimbanco
É decretada lei,
A terra inteira é nossa
e a profissão o perigo
de quem arrisca e ousa
desafiar o que venha
sem rede entre ele
e o chão
Anarquicamente viver
pelas ordens que emanam
do órgão que nos comanda
que nos anima e exalta
cuja voz é uma cadencia
que trespassa a mão pousada
no lado esquerdo do peito
Amar anarquicamente
pelas leis que o amor ditar
com seu curso e seus desvios,
amar os cambiantes do amor
que derruba o dever ser
e os moldes que nos tolhem
em busca da forma única
que é contida e contém
quando o amor é maior
e iguala a própria vida.
Passar o cabo da esperança
urge a hora da utopia.
além- eu, além- nós
além-leis, além limites,
romper diques, abrir comportas
a golpes reinventar
neste chão outros caminhos.
Cansamos,
este presente absurdo,
de pactuar e anuir,
de engolir nosso vómito
de estancar nossa raiva
de sufocar nosso grito
Cansamos!!!!!!!
Dia
Internacional da Mulher)
Lançaram-nos
ao mundo
Despidas e desarmadas
E aceitamos caladas
Regras, tratados, pré-conceitos
E todos cuidavam saber
De que éramos feitas
E éramos menos
Em seus assentimentos
Fraco sexo, mãe devota
Rosto escondido por detrás dos véus,
Sofrimento e aceitação
Trancados soluços
Almas vexadas dentro de portas
E fomos o que quiseram que fossemos
Anos, dezenas, centenas, milhares deles
E fomos tudo isso, e tudo isso o somos ainda
Não sabendo , quantas de nós, que outra coisa
Somos já
O nosso despertar acordará todos os mágicos
Saberes, sabores, dizeres e sentidos
E ficaremos mais puras, mais perto de ser
Se nos olharmos à luz do que sempre
Havíamos sido sem saber
Viajamos pela História como sombras
Porque a noite era a dimensão que nos refletia
Mas descobrimos o prazer das bacantes
E erguemos nossa taça orgiástica ao sol
nos embriagamos de vida
e na vida mergulhamos
pois da vida criadoras
Os ventos da História
Sopraram mais fortes
E a descoberto, a olho nú
Surgiu a caixa Pandora
À luz do dia que nos furtaram
Clamamos paridade
Que iguais não somos
Antes este modo diverso de ser
E a tempestade atravessou a memória
E arrastou a poeira
Nas regras, tratados e pré-conceitos alojada
Estilhaçando a mentira que nos atava
Escavados os restos mortais,
Do que nunca fomos,
Na minúscula fração de um século
Ainda perguntamos:
- O que haveremos de ser??
Tudo!
Na caminhada infinita da Humanidade
Acabamos de nascer.
Dança de
Heras
Imagino-me
acordada
por um raio de sol que espreita
pela nesga da janela, que esquecemos de fechar..
Imagino-me acordando em lençóis brancos de linho
exalando , ainda fresco
esse cheiro de mulher
Imagino-me no teu corpo, tu no meu corpo também
e numa dança de heras,
trocamos corpos e seres
nessa fluidez serena, feminina,
intemporal...
Imagino-te corpo, alma , cheiro, toque
paz e lume
a simbiose que busco,
pelos caminhos da vida
Tremo e não sei a razão…
Será a voz que do fundo vem
dum fundo que não sabemos
a dizer que tu e eu
há muito nos pertencemos?
Intacto
Ao largo estendem-se caminhos
e os sonhos que por lá andam
vêm, uma e outra vez, lembrar o tempo
preso nas fotografias, igual sempre
mas não o tempo que desfaz e ergue
esse mesmos sonhos
Adentro as memórias, intacto o coração
agita-se no lugar que digo passado
escuto o seu sopro, percorro o caminho do antes
e acordo, meus olhos são do tamanho do mundo
mas não o podem conter
Abro dentro de mim todas as janelas
a luz irrompe pelo avesso
e o coração desprende-se alheio a rumos
não posso senão buscar
o que não está aqui
o que não é ainda
o que germina no escuro
isso que brota do caos
intacto
como a primeira claridade
alguma vez.
Ancoragem
É à noite,
a noite de latidos e silêncios,
que me chega a paz possível...
A noite de estrelas que vigiam
os olhos semi-cerrados
onde repousam os sonhos
de agora e os que hei sonhado
É á noite
que me aconchego ao tempo
flutuante da memória
e ensaio o futuro
num lanço ousado
de acrobata...
É à noite,
que o navio ancorado
aos meus dias
rompe as amarras e ao largo,
pelo vento que vem do Sul,
enfuna as velas e ruma
ao lugar de onde partiu
À noite
emerge a voz que me traz
o nome de um porto antigo
onde há-de fundear a alma
e finalmente cumprir
a rota que em si traçou.
Puros Sangue
Desgarra-se
do meu peito
sem freio o potro selvagem
e galopa ao compasso
do que em mim te quer e pensa...
Que de sentir e saber
é seu galope, seu trote
e à vista do puro sangue,
que em teu peito saltita
se desgarra mais ainda.
Esses dois potros selvagens,
se reconhecem no cheiro,
no galope que os parelha,
no fogo, na crina ao vento...
Selvagens potros de fogo
exaltam na liberdade
centelhas de uma outra vida....
Pégasos da nossa memória
centauros foram um dia
Livres e soltos
no teu e no meu peito desgarram,
potros de fogo, selvagens
do nosso ser a medida.
Sintonia
Na superfície do meu corpo
palmilhada pelos teus dedos
reluzem cristalinos ainda
os sinais de tuas mãos
que são de sal e suor
Das paredes e dos móveis
e até dos espaços vazios,
nos lugares por onde andamos,
na retina, e na memória
ressurge a tua presença.
E esse estares em mim
tempo de colheita
o tempo de tudo ter,
é o banquete da vida
que nos devolve ao principio
de sentir que tudo volta
a ser na sua inteireza.
E nesse estado de graça
não busco fundo nem longe
o nirvana dos ascetas,
me basta a luz que emanas
e sentir que a batida
no meu peito é igual
à pulsão que te anima.
Exercícios de Luz
Na vespertina luz tacteio o corpo branco
riscando a cada lance o sentido prefigurado
para o que emerge e não nomino,
antes sinto-o como um ardor ou uma ânsia
que não aflora às palavras.
Percorro-me, como a vibração na corda
Instrumento às mãos do que sustém todos os sons
onde ensaio, quiçá em vão, dizer.
Sei-me nas ausências e vontades
nos medos e nos sinais
que emergem à tona destes dias
mas não sei se recomeço ou continuo
o traço curvilíneo onde me faz o tempo
conjugando o futuro do que em mim haja sido.
Serpenteando as sombras, a fugaz a aparição da luz
é prenhe de promessas.
Exorcizo a penumbra nos interstícios do meu não ser
e volto a acreditar.