Poema Azul
No seio da tempestade,
cambaleando, eu, entre escombros, foi
que os teus olhos azul safira, surgindo do nada,
se ofereceram aos meus
E agora o teu nome enche a minha boca
com o sabor de maduras pitangas
colhidas na invernia destes dias
quando nada a colheita anunciava
falo o teu nome e lembro os teus olhos
quando o deserto se me afigura,
nada pergunto, saber para quê..
se o sentido obscuro do acontecer,
ágil se esgueira e dilui de razões...
vivo a descompasso e de adiamentos
não sei do lugar
tão pouco de um tempo para o vivermos,
e dos fios que a vida tecem, eu não sei...
sei do brilho diamantino de um olhar
sei do lume que o nosso peito acalenta
sei dos passos pouco a pouco
no chão riscando um caminho...
tão pouco é o que sei e por ora é bastante
saber que por esse tão pouco existimos.
Inesperadamente
Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
Senda
A mim retornam
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
Nega-Entropia
O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
Ajuda
Ajuda-me
, meu guardião a ler nas linhas do meu coração, a
escutar minha voz mais profunda e a ser capaz de ir além das dúvidas
e das feridas que se abrem enquanto caminho.
Dá-me a coragem, a lucidez e a capacidade de fazer entender, aqueles que amo
que o Amor que se dá sem espera de retorno, é amor eterno.
Eu sei que em todos os lugares e em todos os momentos a tua luz sobre mim
incidirá e tua asa protectora me guiará rumo ao que for
mais certo.
A Caminho
Calam-se
à passagem do desejo todas as vozes
que ontem insinuavam ficar aqui, e eram
sonhos inacabados ou nado-mortos, os que me detinham,
a vida, essa, acenava do lado de cá de si mesma
enquanto eu me perdia ao largo ....
insuspeitas, ressurgem as sementes
aos primeiros sinais de um outono anunciado
e em clarões se espalham rente ao âmago
onde se acoita secreta a vida.
Risco em todos os muros "não - proibir! ",
rasgo todos os códigos
onde a palavra vida seja ausente,
a cada instante do acontecer me encontro
dobrando a esquina a caminho do que vier...
olho-me, em viagem me descubro,
não sei esperar,
mais tarde é só metáfora...
reescrevo a palavra futuro
com a tinta fresca do presente!
Chama
Atento no remurejar da alma
onde correm todas as marcas
como sargaços rumo à foz
dos dias brancos.
Tantos invernos entremeados
pela luz que ascende desse jardim,
onde ardem todas as promessas
de ouro, a viagem onde me circum-navego...
Quantos sonhos
quantos sóis arderam no caminho?
De luz sempre a busca,
ainda hoje se espelha
nas gotas de chuva onde me abrigo
neste canto do mundo...
De luz, de explosões
matinais é a fome
do que em mim
chamo de alma.
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
De onde a palavra
Pelas friestas
do Ser
espiam as palavras
e nelas, inexplicáveis,
a força das marés,
a macieza da pétala,
o bruto rasgar do cutelo
o alívio do unguento
Vêm e colhem no ar
ou na fundura da terra,
a dimensão do que for
e dizem sem desvendar
no seu afã, as palavras…
Emerge e regressa à penumbra
pressagiando, a palavra
como sibila que habita
o seio da obscuridade….
lugar de todos os nomes
onde repousa o sentido
daquilo que nos afronta
entre o silencio e o grito.
Clave de Sol
Naqueles dias, havia um mágico som de flauta no ar, e só nós os escutávamos,
e era de arpa o som da chuva que nos adormecia
Naqueles
dias, havia sempre sol dentro da gente e nada podia quebrar a beleza dos
momentos de simplesmente estar juntas
Aqueles
dias serão os dias de um amanhã ressurgido, os dias que guardamos no fundo
da memória, os dias tatuados em nossa pele, os dias de saciar nossa sede.
Os nossos dias serão sempre assim:
Plenos, famintos de vida, embebidos da inocente alegria das coisas grandes,
porque simples