Clara Luz
Na
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
A Esse Amor
A
esse ser magoado a essa mulher amada
meu refúgio e meu ninho
eu quero curar as feridas abrir meu peito e mostrar
minhas cicatrizes vivas
E ternamente poisar minha cabeça e meus sonhos
sobre um coração abrindo-se
inteirinho para mim
e amá-la
infinitamente amá-la…
Com tudo o que sou e sinto
com duvidas, medos até
com a minha humanidade, a minha fragilidade
meus limites e meus erros
e dentro de mim plantá-la
como semente do amor
e amá-la
infinitamente amá-la!
Alma-Gémea
Tu
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada
Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.
Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.
Poema Atravessado
Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
Inesperadamente
Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
Trans-Via
A noite caiu....
Ele desce a calçada
salto alto em equilíbrio
lábios de carmim....
e o desenho da boca
simulando o beijo
Num gesto estudado
aconchega os seios
requebra o andar
insinuando prazer
a quem passa....
A noite se alonga
na calçada fétida....
e num recanto escuro
acertado o preço
o seu corpo vende
aquele que passa..
Recompõe o vestido
retoca o carmim
espera quem passa
em busca do lado
que transgride a noite....
.. e sob um vestido
vermelho cintado
os prazeres proibidos
num recanto fétido
goza apressado.
Eterno Retorno
Os pés fincados
na terra
de terra os pés
os pés da terra são...
As mãos suspensas
dos braços
as mãos dos braços são
dos braços suspensos
do tronco
O tronco onde
o pescoço assenta
e nele a cabeça
onde se senta
o pensamento
Cabeça
Tronco
membros
pensamento
e terra também
o Homem......
Um dia,
terra da terra
inteiro no ventre
da mãe.
Em parte e no
todo
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
Ânima
Ânima
Podem estirar-me na pedra fria
deixar-me ao relento dos dias vácuos
podem esvair-me de sonhos,
pendurar minha alma ferida
para que a escarneçam
podem saquear-me a memória
fazer-me deambular contra o destino
na total amnésia
para que de mim me esqueça
podem saquear-me a alma
mas nunca a forma que tomou
podem estilhaçar-me a vida
mas os sinais da carne viva,
não!
Aconchegada pelo mistério
mais obscuro e profundo,
eu seguirei.
Astro Rei
Lá vem
do fundo do nada
que à vida me trouxe..
ígneo me devolve
a luz e à beira-ser.
Deito-me no seu ocaso
e deixo-o acontecer
como um quente
e doce afago
dentro de mim