Inominável
Escoam-se
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente
parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida
Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite
No hiato das palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo
é vago e é tanto....
E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber pressentido.
Por outro lado
O fundo e mais além
é que eu quero alcançar
como se pudesse assim
buscar aquilo que é
o outro lado daqui....
O outro lado das coisas
esse outro lado que busco
será que lado no fim?
O acordar dos sentidos
Emudecida,
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
Enquanto a tarde
cai...
Ao meu lado,
na placidez da tarde que finda
Num quarto qualquer , de uma qualquer cidade
Dormes, serenamente, esquecida de tudo
(quiça de mim também)....
Fico atenta aos resquícios de claridade
Que não me deixam cair nesse torpor
Que desce até ti, decifro os ruídos
Que invadem o quarto, onde me sinto estrangeira
Não durmo, mergulho nos sinais
Que chegam do lado de fora ...
Neles procuro as coisas pequenas
Que afastam de mim os fantasmas
Que invadem a vigília
Prefiro a vida, os minúsculos
Sinais da vida, a qualquer não
no teu silencio, nas minhas omissões...
salvar a vida nesse gesto inoportuno
de rir até da tristeza que escorre das ausências.
Clave de Sol
Naqueles dias, havia um mágico som de flauta no ar, e só nós os escutávamos,
e era de arpa o som da chuva que nos adormecia
Naqueles
dias, havia sempre sol dentro da gente e nada podia quebrar a beleza dos
momentos de simplesmente estar juntas
Aqueles
dias serão os dias de um amanhã ressurgido, os dias que guardamos no fundo
da memória, os dias tatuados em nossa pele, os dias de saciar nossa sede.
Os nossos dias serão sempre assim:
Plenos, famintos de vida, embebidos da inocente alegria das coisas grandes,
porque simples
O Apocalipse, é agora!
De Thanatos é a voz que ressoa
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas
De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga
O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
Cerrado
Toma- me....
pela mão ou inteira
e despe-me de tudo
o que não seja vida
Leva-me a um lugar
onde em mim te sinta
e adormeça a ira
de ser no presente
um ser adiado
Leva-me
ao lugar onde a vida se escuta
no mais fundo silêncio,
onde as pedras são corpos
que ao nosso se ajustam
e onde um sussurro
- vindo, quem sabe de onde-
vive preso ao ar...
Lá, onde à raiz, profundas
as águas nos devolvem
me deitarei, um dia
pronta para a terra
me engolir inteira
e parir de novo
E assim renascida
a dentes eu rasgo
o umbilical fio
que me traz suspensa
entre a noite presente
e as manhãs de oiro
onde a vida a esmo
não me furta os sonhos.
Estrada de Luz
Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
Epifania
Des-obliterando uma palavra
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela
Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança