Poema Azul
No seio da tempestade,
cambaleando, eu, entre escombros, foi
que os teus olhos azul safira, surgindo do nada,
se ofereceram aos meus
E agora o teu nome enche a minha boca
com o sabor de maduras pitangas
colhidas na invernia destes dias
quando nada a colheita anunciava
falo o teu nome e lembro os teus olhos
quando o deserto se me afigura,
nada pergunto, saber para quê..
se o sentido obscuro do acontecer,
ágil se esgueira e dilui de razões...
vivo a descompasso e de adiamentos
não sei do lugar
tão pouco de um tempo para o vivermos,
e dos fios que a vida tecem, eu não sei...
sei do brilho diamantino de um olhar
sei do lume que o nosso peito acalenta
sei dos passos pouco a pouco
no chão riscando um caminho...
tão pouco é o que sei e por ora é bastante
saber que por esse tão pouco existimos.
Amar é
o Certo
(….amar
com sotaque)
Amar
dá sempre certo
mesmo que o objecto amado
se distancie na luz do nosso olhar…
amar dará certo,
porque certo é o amor
mais certo o amar…
amar dará certo,
sempre ganha o sujeito
mesmo quando o objecto
da sua vista se perde …
amar dá sempre certo...
pela beleza que empresta aos dias,
pela chama que acende nas noites,
pelo tremor de vulcão
que traz às nossas vidas…
Amar…amar é o mais certo
por nos fazer sentir vivas!
Alvorecer
Será
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão
Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei
Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar
No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.
Poema Atravessado
Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
A Caminho
Calam-se
à passagem do desejo todas as vozes
que ontem insinuavam ficar aqui, e eram
sonhos inacabados ou nado-mortos, os que me detinham,
a vida, essa, acenava do lado de cá de si mesma
enquanto eu me perdia ao largo ....
insuspeitas, ressurgem as sementes
aos primeiros sinais de um outono anunciado
e em clarões se espalham rente ao âmago
onde se acoita secreta a vida.
Risco em todos os muros "não - proibir! ",
rasgo todos os códigos
onde a palavra vida seja ausente,
a cada instante do acontecer me encontro
dobrando a esquina a caminho do que vier...
olho-me, em viagem me descubro,
não sei esperar,
mais tarde é só metáfora...
reescrevo a palavra futuro
com a tinta fresca do presente!
Clara Luz
Na
grandeza das coisas simples
te
vejo e sinto...
na brisa marinha,
no marulhar das folhas
no ondear da seara em pleno verão
no canto dos pássaros,
no cheiro da terra molhada,
nas gotas de chuva nos beirais
no gosto da fruta madura.....
Na simplicidade do que é grande
te vejo....
nessa mão que se estende
a outra mão aflita,
no pulsar do coração
pelo amigo que se vai,
na firmeza dos teus gestos
na verdade das palavras
com que vens até mim....
Em tudo isso te vejo
e adivinho-te no que sinto.....
e és grande porque simples
matriz...húmus…terra..raiz.
É assim, amor, que meus olhos te vêem
banhados por uma clara e límpida luz....
que espelha o teu dentro
onde a mim me vejo
como se um espelho reflectindo a alma
segredasse o que ela a ti mesma diz.
Por outro lado
O fundo e mais além
é que eu quero alcançar
como se pudesse assim
buscar aquilo que é
o outro lado daqui....
O outro lado das coisas
esse outro lado que busco
será que lado no fim?
Revelação
E
tudo me revela essa que eu amo…
o chão da minha casa,
a cama em que me deito
e não conheço
o que vai além do corpo
e sobrevive ao tempo
as dúvidas e até a raiva
esse compasso de espera
que nos liga e que nos prende
e mais do que tudo isto
é o sentido profundo
de que este amor é urgente.
Dança da
Lua
No
meio da noite de uma lua prenhe,
me embalarás, cobrirás com teu corpo
e nele deixarás o sabor do teu abraço
que eu quis e esperei.
Numa noite de luar, ainda que não seja cheia
sob a clara luz das estrelas
eu dançarei para ti e beijarei tua boca
com toque de pedra rara,
incendiando o teu ser
e a noite de lua e prata.
Vi-te, não sei como e quando
e gravei em mim os contornos
que um dia me foram dados
ao jeito de revelação
Guardei-te para sempre em mim
na forma de cheiro e sabores,
tesouro que procurei nas alamedas da vida,
na escuridão dos meus dias
noutras almas que cruzei
só quero saber agora
porque ficamos à espera
de nos olharmos e ter e desvendar o mistério
do que seja o espaço e o tempo
nessa outra dimensão
em que por inteiro estejas
tu… e eu.
Essa Luz
No fundo
dos olhos,
desses olhos que me espelham
na voz que sussurra
e incandesce meu peito
no riso diamantino puro
que me devolve à inteireza
no indecifrável sentir
que vem de a saber em mim
vive a Luz
onde me aninho e renasço
a Luz que meus dias atravessa
e arde na minha vida
com o brilho que incendeia
o coração de uma estrela....
Meu ser inteiro
agora vive
para amanhecer com ela.