Sem Tempo ou Lugar
Entrar
nos teus sonhos despertar-te do sono
e povoar teus dias....
E de mansinho deixar que entres
como a luz ao alvorecer
e ficar quieta,
deixando essa luz por dentro de mim
Correr no teu peito como dócil potro
ao som e ao compasso do teu coração,
e deixar que sejas riacho que corre
para amainar a sede do meu corpo chama
E assim teu corpo
sobre o meu se estende
derramando sombra sobre o chão que sou
sombra abençoada
sobre o chão em brasa
agua em minha boca
vem matar a sede que o tempo deixou.
Rendida e absorta,
no tempo perdida eu quero ficar
no instante exacto, no momento mágico
de inteira me dar.
Templo
Terá
que ser e acontecer
o amor que assim é
o amor que assim quer...
Terá que ser e acontecer
esse amor que do fundo vem
que nos consome e alimenta
que nos abriga, e é ninho
água de fonte que brota.
Terá que ser e acontecer
esse amor de pedras raras
de noites sem sono
enluaradas,
onde o amor que fazemos é quase oração...
E no altar o que vemos?
a alma e o corpo deitados,
unidos sem culpas, sem medos,
porque o que for amor
será sagrado!
Desprendimento
Voa
o pensamento para lá dos dias
e trazem consigo momentos eternos
vividos a rodos de sofreguidão
receosos do tempo, e sua verdade,
lento a escoar-se na imensidão
E o pensamento voa
e regressa ao lugar onde te vejo
ao chão onde te amo
ao sofá onde deitas o teu corpo e o teu cansaço
ao cigarro que fumamos
ao toque de nossas mãos
a vibração de nossos corpos trémulos
rasgados de desejo
Voa o pensamento
e bebe na memória e nos sinais
no cheiro que trago em mim
na melodia que ecoa na minha alma
e até das margens do meu silêncio
onde nebulosas se erguem as palavras
que eu calo por amor.
Pedras Raras
Se
cuidarmos desse amor
com o cuidado que colocamos
nas flores delicadas e frágeis
ele vai florir
Se cuidarmos desse amor
e nele pomos o brilho de pedras raras
ele vai devolver aos olhos e ao coração
a luz que em nós se acendeu
Se esse amor foi plantado
por mão que não conhecemos
se tem brilho de safiras, opalas e ametistas
ele vai crescer e vai brilhar,
Deus sabe
se pelo resto das nossas vidas.
Alvorecer
Será
nos olhos desse ser amado
que renascerei,
certa como a alvorada
que regressa após a escuridão
Será no corpo do ser amado
que despertarei de um sono antigo
onde esquecida me achei
Será no toque desse ser que eu amo
que minha pele saberá
porque desfiei esperas
e entorpeci a tristeza
inscrita nessa longa ausência
de a não ter só que fosse
ao alcance do olhar
No incêndio dos nossos corpos
o meu ser despertará,
Fénix que de novo voa a caminho da alvorada
indicando esse lugar onde seremos inteiras
corpo.. alma … coração
sem tempo que nos separe ou espaço de permeio
ao alcance do olhar ainda mais perto da mão,
tão simplesmente ficar
deitadas no mesmo chão.
Chão de
Mim
Há
um rito solar
pendente em minha alma
rito secular
de bacantes abraçadas em adoração
à luz diuturna ou à prenhe lua
nas noites de incêndio
que ao corpo afloram
Há nos meus sentidos
orgias de cores
o vermelho vivo, o sangue e a vida
o azul infinito
onde rasga voo este meu olhar,
o verde ondeante
onde voga a vontade de ser caravela
e em ti mulher,
meu porto de abrigo
ancorar
E há virgens descalças
de todas as cores
de todas as raças
carregando aos ombros
meninos sagrados,
almas de crianças
emergindo firmes
da luxuriante verde
exuberância…
O cheiro da terra e a singeleza
do que vejo e sinto
levam-me ao fundo
da estranha certeza
de que há um lugar
onde eu já respiro
Lá nesse lugar
onde o coração pressente a batida
e a vibração do que eu sinto ser
essa outra forma de sentir a vida,
vida inteira ter.
Viva Voz
Da
tua voz vivo agora
e se chega eu esqueço
o vazio que me farta…
mordo e deixo em tua boca
a marca de um beijo
e parto...
a cabeça repleta e o coração faminto
e pergunto – me sem fim
até quando…
até quando…
até quando..?
Imagem
Não
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
Oferenda
Infinitamente,
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
A Sós
Vai!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!