Indeléveis
Sinais
Olho
as minhas mãos,
como as mãos que em ti pousaram
nelas busco a textura,
e a vibração do corpo que tocaram...
Olho dentro dos meus olhos
e no fundo deles busco
um outro olhar que em mim vive
preso ao que vejo e ao que sinto...
Olho o meu corpo onde leio sinais
de um sol que o queimou
o mesmo sol que nos viu
de mãos dadas e olhos fitos
num belo horizonte azul
fundindo-se com o infinito
E tento chegar à alma com os olhos que ela tem
aí não vejo....só sinto
as marcas inconfundíveis
que lapidaste em mim.
Celebração
O
dia virá
ao dobrar duma esquina
onde a espera se fez longa
e os dias escritos correram
sem se cumprir
O dia virá
e longe as incertezas plenas nossas vidas
beberão da luz que as inundará
Esse dia virá
como um dia de festa para que o mundo saiba
do querer que emergiu e nos faz sentir
que a alma a par anda
e que a um só compasso
bate o coração que nos comanda
Árvore da
Vida
Que
seja da Vida, da Felicidade
a arvore de funda raiz,
presa ao solo do nosso querer
Que seja de luar,
quando a noite for de amor
de sol radiante
como o dia em que nos olharmos,
que seja para sempre em nós
com a força da terra-mãe,
ou do chão firme que nos prende.
Que seja a arvore do amor
da ternura, dos prazeres
que nas tuas mãos guardaste
inteirinhos para mim,
árvore, tu,
minha força, esteio, abrigo
nos teus braços acolher-me
neles fazer o meu ninho.
Estrela Guia
Vem
comigo
descobrir a estrela
que brilha num lugar
que não sabemos
Vem
a tua mão está quente
(é bom senti-la)
sinto-me nela…
Vem
a hora tarda, cedo cai a noite
e a lua não luz
na noite que atravessamos
Olho-te,
tu foges dos meus olhos
só a tua mão me diz que estás
aqui…
Eu,
eu estou lá longe
e aqui também,
já que firme a tua
minha mão presa tem.
Volúpia
Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
Compromisso
Esquecerei
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......
assim moldada, forjada, foi.
Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.
Brumas
Via-te
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas
Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam
Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes
E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.
Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.
Pêndulo
Se
o coração ensaia o movimento pendular
como o deter?
Se um coração se abre como se abre
Por que abre?
Como porta que se escancara
depois de fechada estar
ou flor desabrochando
à luz de um claro raiar..
assim é o amor
quando ao coração ordena
que viva seu compasso pendular
Coração pendular.. alma leve
olhos atentos às esquinas do tempo
onde imprevisível uma razão
vive a espreitar
E é de repente que desenhado surge
o sinuoso caminho,
o imprevisível gesto do desocultar,
trazendo à luz a razão maior
da pendular cadencia estancar.
Onda dos Sentidos
A
onda dos sentidos é que nos leva
para longe do mundo e da luta
que nos cansa,
ao encontro do instante
único,
onde se funde e refaz
o nosso ser irmão
Na calma do olhar com que me tocas
solto os meus medos
e dou-me,
o corpo em chama
e a alma vaga de cuidados
no corpo quente que se dá
estremeço
nos seus sinais te descubro
e a mim decifro
esquecida do mundo,
no êxtase de luz,
amando… vivo!
Vibração
Toda
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está
As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.