Lista de Poemas
Poema-Granadino XI
o beiço que herdamos
sem cachimbo de um pilão
e de uma erva do mato.
Pajé deu de comer
na mão aos passarinhos,
e a Anchieta.
Uma cruz ruminou
a alma implumada.
Psiu! Entortaram
o coração deste país.
Quem amolecerá o bronze
da pele que era nossa?
Entortaram até a língua.
A cor deu de aleitar-se,
o mameluco chupou
o polegar por descuido.
Qualquer coisa é preciso
para encher de aroma,
de som,
o padre-nosso esquecido.
Fiquem onde ficarem
os galões de Rondon.
Igaçabas e cascavéis
são nossos.
É preciso desentortar
a pancada que mugiu
no cérebro desta terra.
E fazer da ciência
como cauim o delírio
de provetas e guindastes,
iluminação e portos.
Não se desentorte errado
o sangue! Sangue é vento
que vem de todo lado.
Respire-o quem puder,
e fique mais corado.
Desentorte-se o vesgo
de um fuzil amargo,
o dinheiro pago
pelo dizer
sim ao passado.
E outra vez
desentorte-se o não,
que é tino de mundo
logo depois da criação.
E se alguém souber
de um destino mais terreal,
fale grosso que a língua
que temos é de algodão.
Se falarmos como pudermos,
seremos o que quisermos.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
Se Fosse Dia Amor
da terra dos claros olhos da terra
e fosse espinho em silêncio no meio
das palavras e as palavras doessem
no lugar dos dedos onde a lisura da pele
estoura em rocio sob o casco dos cavalos
ah se fosse silêncio entre a carne
e o espírito e a flama cobrisse os lábios
e os nervos atrelassem ao sol as coisas
e elas ardessem na língua do mundo
eu te apertaria Amor contra uma nebulosa
e te extrairia da boca de Deus
quando Ele te soprou para a morte
em meus braços em meus braços cobertos
do musgo de mil outros braços.
Nudez Septenária
é a nudez apressada,
a nudez que cobre
a Amada.
A segunda nudez
é a nudez demorada,
a nudez que enfeita
a pausa.
A terceira nudez
é a nudez quase fixa,
a nudez que se insere
entre os amantes.
A quarta nudez
é a nudez extática,
a nudez que ingora
o Amor.
A quinta nudez
é a nudez sem espaço,
a nudez que divide
o enlace.
A sexta nudez
é a nudez sem tempo,
a nudez que sustenta
a memória
A sétima nudez
é a nudez eterna,
a nudez que acaba
em Deus.
Repreensão a Uma Lâmpada
da boca traria pitangas
O vermelho do bico fora do azul
A gravaria na terra e seríamos dois
Num corpo quieto que avançasse
Para um pôr-de-sol. Ela ocultaria
O pescoço do que a pudesse violar
E domaria entre as mãos
O ar não ferido pelas palavras.
Inclinaria o peito sobre
O que jamais lavrara em si
E pediria um movimento
De vegetal austero. Eu
A abraçaria e cairíamos
no bojo de um fogão tão lento
Que da carne ao seu ofício
não descobriríamos um vão
e sim um rio a cruzar duas vezes
o mesmo leito.
A Nuca
atrás assim tua nuca
A simultaneidade de duas bocas para a frente
Outra vez tua nuca
Salgueiro e amêndoa
A respiração apertada contra o muro
O repouso rompido aos pedaços
Tu a experimentá-la nos
Cabelos na água a subir-lhe
Aos olhos
Pálpebras torcidas contra o sol
O trigo a descer-lhe pelas pernas
Tua nuca
A reprimir o espaço fortes asas da necessidade
Provas o sabor de seus ângulos o cipó
De seu pêlo
Tua nuca( no seio dela a refeição)
O corpo que ninguém governa é a primeira
Inclina a cabeça para a relva oh
Se as coisas
Se respondessem umas às outras
E tímida a gengiva
Escorresse mel no galho com o pássaro
Os ninhos o ventre em que a alma
(fêmea) te aguarda para a comunhão
O Círculo
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
Gratidão
Mas tão à parte
De mim que nunca
O saberá
O alegre mundo
No qual subsisto
Em comunhão omnipresente.
eu morrerei
me desculpando diante dele
de ser diverso
(como me dói
só de pensar-me
ausente dele
em outro mundo!)
mas se puder morrer
tão rápido
que o mundo apenas
vendo o meu corpo
diante de si
quieto e ancorado
julgue que eu mesmo
esteja ali
então, espirito
ou o que for
me achegarei
dele sorrindo
e o beijarei
com tanto ardor
que, eternamente
lhe ficará
na face imensa,
o meu sinal
de criatura
agradecida.
Uma Mulher
olhos escondidos
no meio das pedras.
Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.
Suas mãos apanham o ar.
Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.
Ninguém lhe adivinha a nudez.
Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.
Amor é Teu
Amor é
teu olhar que sobe
E desce torna a subir ao ramo
Desce ao poço detém-se
Na água porque a sede avança
E torna a subir em carícia
Pelo braço compraz-se
Em resvalar pelo declive
Do corpo em balanço
Como o movimento de um
Pêndulo e assim nunca
Sabes se o caminho
para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras
mais do que uma ideia
sentimento porque
o subir e o descer crescem
na viagem indiferentes
ao amor até que a ames
como se nunca a tivesses
conhecido somente
fora do teu alcance.
Homo Viator
bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão sómente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada( não é possível)
ser tudo ( mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.
Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.
Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.
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