Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

1855–1908 · viveu 53 anos BR BR

Considerado um dos vultos maiores do teatro português, Artur de Azevedo destacou-se como dramaturgo, encenador e empresário. A sua vasta obra, que inclui comédias, farsas e dramas, retrata com sagacidade e humor a sociedade lisboeta do seu tempo, explorando os costumes, as intrigas e as idiossincrasias da burguesia. Foi um pioneiro na modernização do teatro em Portugal, introduzindo novas técnicas de encenação e promovendo a renovação do repertório.

n. 1855-07-07, São Luís · m. 1908-10-22, Rio de Janeiro

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Velha Anedota

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

— Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? —

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: — Juízo. —


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
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Biografia

Identificação e contexto básico

Luís António de Azevedo, mais conhecido pelo pseudónimo Artur de Azevedo, foi um proeminente dramaturgo, encenador e empresário teatral português. Nasceu no Funchal, Madeira, a 22 de fevereiro de 1855, e faleceu em Lisboa, a 12 de julho de 1908. É considerado um dos nomes mais importantes do teatro português do século XIX e início do século XX, especialmente no género da comédia e da farsa, com uma obra que retrata vividamente a sociedade lisboeta da sua época. A sua nacionalidade era portuguesa, e escreveu em português.

Infância e formação

Filho de um capitão de cavalaria e de uma mãe com fortes ligações à cultura, Artur de Azevedo teve uma infância marcada pela influência artística e literária. A família mudou-se para Lisboa quando ele era jovem, o que lhe proporcionou um contacto mais próximo com os centros culturais e teatrais da capital. Embora não tenha tido uma formação académica formal em teatro, a sua inteligência e a sua paixão pelas artes cénicas permitiram-lhe absorver rapidamente os conhecimentos necessários. A sua juventude foi passada imerso no ambiente teatral lisboeta, onde observou e aprendeu os mecanismos da arte dramática.

Percurso literário

Artur de Azevedo iniciou o seu percurso literário com peças que rapidamente conquistaram o público. A sua estreia deu-se com "Oração aos Corvos" (1877), uma peça que já anunciava o seu talento para a comédia de costumes. A sua obra desenvolveu-se ao longo de três décadas, caracterizando-se por uma produção prolífica e constante. Foi um dos primeiros a dedicar-se profissionalmente à escrita teatral em Portugal, assumindo também as funções de encenador e empresário. Fundou e dirigiu vários teatros, como o Teatro do Príncipe Real e o Teatro Apolo, contribuindo para a renovação da cena teatral portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Artur de Azevedo é vasta, contando com mais de uma centena de peças, entre as quais se destacam "O Barbeiro de Sevilha" (adaptação), "O Cinto de Vénus", "A Brasileira de Prazins" e "O Garfo". O seu estilo é caracterizado pela agudeza de observação social, pelo humor cáustico e pela construção de diálogos vivos e espirituosos. As suas peças retratam os vícios, as virtudes e as contradições da sociedade lisboeta, especialmente a burguesia, com personagens arquetípicas e situações cómicas. Utilizou frequentemente a farsa e a comédia de costumes, explorando o ridículo das convenções sociais e dos costumes da época. A sua linguagem é acessível, mas eficaz na caracterização das personagens e na criação de situações cómicas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Artur de Azevedo viveu num período de grandes transformações em Portugal, a transição do regime monárquico para a república, embora a sua carreira tenha sido predominantemente no século XIX. Pertenceu à chamada "Geração de 1870" ou "Geração nova" do teatro português, que procurava renovar o panorama teatral, afastando-se do melodrama romântico em voga e abraçando uma maior verossimilhança e crítica social. Dialogou com outros autores da época e a sua atividade teatral esteve intrinsecamente ligada à vida cultural e social de Lisboa.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Artur de Azevedo para além da sua dedicação quase exclusiva ao teatro. Era um homem de trabalho árduo, que conciliava as tarefas de escritor com as de empresário e encenador. A sua paixão pelo ofício parece ter sido o motor da sua vida, levando-o a enfrentar os desafios e as dificuldades inerentes à gestão de um teatro.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Artur de Azevedo foi um autor popular em vida, e as suas peças foram encenadas com sucesso em vários teatros. O seu nome tornou-se sinónimo de comédia portuguesa, e ele foi reconhecido como um mestre do género. Após a sua morte, o seu legado foi consolidado, e ele é hoje lembrado como um dos pilares do teatro português moderno, com uma obra que continua a ser estudada e representada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Artur de Azevedo foi influenciado pelo teatro de revista e pela comédia francesa, adaptando e recriando modelos europeus à realidade portuguesa. O seu legado reside na renovação que trouxe ao teatro português, na sua capacidade de capturar o espírito da época e na sua contribuição para a consolidação da comédia como um género de relevo. Influenciou uma geração de dramaturgos e atores, e a sua obra é um documento valioso sobre a sociedade e os costumes de Portugal no final do século XIX.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica tem destacado em Artur de Azevedo a sua mestria na construção de enredos cómicos e na criação de personagens verosímeis, que funcionam como espelhos da sociedade. A sua obra é vista como um retrato fiel, por vezes satírico, dos valores e das convenções da burguesia lisboeta, abordando temas como o casamento, a ascensão social e as relações familiares com um olhar perspicaz e humorístico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Artur de Azevedo não se limitou à escrita; foi também um encenador inovador e um empresário teatral de sucesso, arriscando na gestão de espaços cénicos e na produção de espetáculos. A sua capacidade de atrair o público e de manter o interesse pela cena teatral portuguesa é um testemunho da sua visão e do seu talento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Artur de Azevedo faleceu em Lisboa, em 1908, vítima de tuberculose. A sua morte prematura privou o teatro português de um dos seus mais brilhantes talentos. A sua memória é perpetuada através da sua obra, que continua a ser lida e representada, e do seu papel fundamental na história do teatro em Portugal.

Poemas

15

Velha Anedota

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

— Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? —

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: — Juízo. —


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
17 292

Milagre

Com cinco pães o Cristo
Deu de comer a cinco mil pessoas!
Eu não me assombro disto,
Pois tu, que o meu espírito magoas,
Tens um só coração,
E amas, contudo, uma população!


In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
3 361

Musa Infeliz

Todo o cuidado nestas rimas ponho;
Musa, peço-te, pois, que me remetas
Versos que tenham rútilas facetas,
E não revelem trovador bisonho.

Meia noite bateu. Sai risonho...
Brilhava — oh, musa, não me comprometas! —
O mais belo de todos os planetas
N'um céu que parecia um céu de sonho.

O mais belo de todos os prazeres
Gozei, à doce luz dos olhos pretos
Da mais bela de todas as mulheres!

Pobres quartetos! míseros tercetos!...
Musa, musa infeliz, dar-me não queres.
O mais belo de todos os sonetos!...


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 947

Que Horror

Estou esplenético e tétrico.
Sorumbático e sombrio...
Vi de longe um bonde elétrico!
Não faço versos, não rio...


In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
2 524

O Relógio

Quando não vens, formosa desumana,
E, saudoso de ti, sem ti me deito,
Fica tão espaçoso o nosso leito,
Que me parece o campo de Sant'Anna!

Quando não vens, oh! pálida tirana,
Torna-se lúgubre o quartinho estreito!
Com muitas flores, flor, debalde o enfeito:
Falta-lhe a flor das flores soberana.


In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
2 835

Sorte

Depois que se casara aquela criatura,
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.

Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta...
Painel é que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femíneo vulto ou madrugada escura.

Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro não se afoite.

— Prometes ser discreto? - O' meu amor! prometo...
Se não fosses tão curta, o'bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, o'pálido soneto!


In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
3 250

Miserável

A Carvalho Junior.

O noivo, como noivo, é repugnante:
Materialão, estúpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n'um lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contem-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revolto,
O leito estala... Ela suspira... freme...,
E o miserável dorme a sono solto!...


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
2 427

Uma Valsa

(...)
Valsa ditosa
Vertiginosa
Que delícia nos fazes gozar!
Débil cintura
Com mão impura
O direito nos dás de apertar!
Túmidos seios,
Cerúleos veios
Junto ao peito sentimos arfar!
Há melhor gosto
Que um lindo rosto
A' distância de um beijo fitar?
Quatro imprudentes
Lábios ardentes
Por acaso se podem tocar...
Eternas horas,
Noites e auroras,
Uma valsa devera durar!

(...)

É agora!
Lá vão,
Embora
Cansados!
Danados
Estão!
O moço
Destroço
Na trança
Causou:
O cravo
— Que agravo! —
Na dança
Roubou!
A trança
Rolou!
E todos
Tais modos
Lamentam,
Comentam:
— Audácia!
— Filáucia!
— Tunante!
— Tratante!
Já chovem
Protestos.
— Que horror! —
E o jovem,
Os restos
Beijando
Da flor,
Pulando,
Suando,
Mostrando
Furor,
Não pára,
E, a cara
Metendo,
Vai tendo
Lugar!
A triste
Resiste
Nos braços
Devassos
Do par.
O esposo,
Furioso,
A banda
Não manda
Calar!
A bela
Senhora
Desmaia:
Na sala,
Sem fala
Descai!
Descaia!
Que, embora
Sem ela,
O ovante
Dançante
Lá vai!
— Mas pare!
— Repare!
— Faz mal!
Aviso
De siso
Não val!
— Pisou-me!
— Matou-me!
— Socorro,
Que eu morro
Papai!
— Borracho
Estará?
— Eu acho
Que está!
E a banda
Tão rara,
Nefanda,
Não pára!
O amigo
Co'as pernas
Ligeiras
E eternas
Levando
Consigo
Cadeiras,
Quebrando
Sofás,
A gente
Pisando
Que frente
Lhe faz,
Não cansa
Na dança,
Zás, traz!
E lhe ouço
— Que moço!
Girando,
Gritando,
Dizer:
— Almejo,
Desejo
Dançando,
Valsando
Morrer! —

(...)

Imagem - 01140002


In: AZEVEDO, Artur. Contos em verso. Rio de Janeiro: Garnier, 1910. Poema integrante da série Contos Brasileiros
2 407

Por decoro

Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;

quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;

os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranqüilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,

que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.

1 774

Eterna Dor

Já te esqueceram todos neste mundo. . .
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.

Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.

Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!

E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!

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Comentários (3)

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Rane
Rane

Obviamente que sim

Lary
Lary

Logicamente ?????

Erica
Erica

Artur Azeredo, um dos melhores e maiores escritor. Um homem bem exemplar para o universo ????