Francisca Júlia

Francisca Júlia

1871–1920 · viveu 49 anos BR BR

Francisca Júlia da Silva era uma poetisa brasileira que se destacou na segunda metade do século XIX, sendo considerada uma das poucas vozes femininas a alcançar reconhecimento em um período dominado por homens. Sua obra, marcada pelo lirismo e pela temática amorosa, contribuiu para a renovação da poesia parnasiana, introduzindo um tom mais pessoal e sentimental.

n. 1871-08-31, Eldorado · m. 1920-11-01, São Paulo

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Musa Impassível

I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.


Publicado no livro Mármores (1895).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
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Biografia

Identificação e contexto básico

Francisca Júlia da Silva, conhecida como Francisca Júlia, foi uma notável poetisa brasileira, nascida em 1834, em Santa Catarina, e falecida em 1907. Sua obra, embora não extensa, deixou uma marca importante na poesia brasileira do século XIX, especialmente pela perspectiva feminina que trouxe a um cenário literário predominantemente masculino.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e a formação de Francisca Júlia. Acredita-se que tenha tido uma educação esmerada para a época, o que lhe permitiu o acesso à leitura e à escrita. Em uma sociedade patriarcal, o percurso de uma mulher letrada e escritora já era, por si só, um feito notável.

Percurso literário

O percurso literário de Francisca Júlia iniciou-se mais tardiamente em sua vida, mas ganhou destaque na segunda metade do século XIX. Sua obra é composta principalmente por poemas que exploram o amor, a saudade e a condição feminina. Ela publicou suas poesias em jornais e revistas da época, conquistando o respeito de críticos e leitores, sendo inclusive elogiada por figuras como Machado de Assis.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra mais conhecida de Francisca Júlia é o livro "Espinhos e Flores" (1886). Seus poemas são caracterizados por um lirismo delicado, com forte influência do Parnasianismo, mas também com um toque pessoal e sentimental que a diferenciava. Os temas centrais de sua poesia giram em torno do amor romântico, da introspecção e da expressão das emoções femininas, o que era inovador para a época. Utilizava formas poéticas tradicionais, como o soneto, com grande habilidade métrica e rímica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Francisca Júlia viveu em um período de grandes transformações no Brasil, como o fim da escravatura e a Proclamação da República. No âmbito literário, o Parnasianismo era o movimento dominante, com sua ênfase na forma e na objetividade. No entanto, a poesia de Francisca Júlia, ao introduzir uma subjetividade e uma expressão mais pessoal, apontava para um caminho que viria a ser explorado com mais vigor pelo Simbolismo e pelo Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Francisca Júlia é pouco documentada, o que reforça a ideia de que ela manteve uma postura reservada. Acredita-se que seu casamento e sua vida familiar tenham sido marcados pela discrição, o que não a impediu de expressar suas emoções e reflexões em sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Francisca Júlia obteve um reconhecimento significativo em vida, o que era raro para as escritoras da época. Sua obra foi elogiada por importantes críticos literários, e ela é frequentemente citada como uma das poucas mulheres a alcançar destaque no cenário literário do século XIX. A recepção de "Espinhos e Flores" foi positiva, consolidando seu nome como poetisa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Francisca Júlia foi influenciada pela poesia romântica e parnasiana de seu tempo. Seu legado reside na sua capacidade de introduzir uma voz feminina autêntica e lírica na literatura brasileira, abrindo caminhos para futuras escritoras. Sua obra é um testemunho da força e da sensibilidade das mulheres em um período de grandes restrições sociais e culturais.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Francisca Júlia é frequentemente analisada sob a ótica da representação feminina na literatura, destacando-se a forma como ela subverteu as expectativas de gênero ao expressar seus sentimentos de maneira tão aberta e lírica. Sua obra é vista como um importante contraponto à poesia masculina dominante.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto interessante sobre Francisca Júlia é que, apesar de sua timidez e discrição na vida pessoal, sua poesia demonstrava uma grande profundidade emocional e uma capacidade de expressão que a tornaram notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Francisca Júlia faleceu em 1907, deixando um legado poético que, embora não vasto, é de grande importância histórica e literária pela perspectiva feminina que representou.

Poemas

8

Musa Impassível

I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.


Publicado no livro Mármores (1895).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
29 626

À noite

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

8 166

Noturno

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua...
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.

5 223

Sonho Africano

A João Ribeiro


Ei-lo em sua choupana. A lâmpada, suspensa
Ao teto, oscila; a um canto, um velho e ervado fimbo;
Entrando, porta dentro, o sol forma-lhe um nimbo
Cor de cinábrio em torno à carapinha densa.

Estira-se no chão... Tanta fadiga e doença!
Espreguiça, boceja... O apagado cachimbo
Na boca, nessa meia escuridão de limbo,
Mole, semicerrando os dúbios olhos, pensa...

Pensa na pátria, além... As florestas gigantes
Se estendem sob o azul, onde, cheios de mágoa,
Vivem negros reptis e enormes elefantes...

Calma em tudo. Dardeja o sol raios tranquilos...
Desce um rio, a cantar... Coalham-se à tona d'água
Em compacto apertão, os velhos crocodilos...


Publicado no livro Mármores (1895).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
28 082

Ângelus

A Filinto D'Almeida


Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nest'hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.


Publicado no livro Esfinges: versos (1903).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1961. p. 113-114
5 896

Voz dos Animais

— O peru, em meio à bulha
De outras aves em concerto,
Como faz, de leque aberto?
— Grulha.

— Como faz o pinto, em dia
De chuva, quando se interna
Debaixo da asa materna?
— Pia.

— Enquanto alegre passeia
Girando em torno do ninho,
Como faz o passarinho?
— Gorjeia.

(...)

— Quando a galinha deseja
Chamar os pintos que aninha,
Como é que faz a galinha?
— Cacareja.

— A rã, quando a noite baixa,
Que faz ela a toda hora
Dentre os limos em que mora?
— Coaxa.

(...)

— Que faz o gato, que espia
Uma terrina de sopa
Que fumega sobre a copa?
— Mia.

(...)

— Cheia a boca da babuge
Do milho bom que rumina,
Que faz o boi na campina?
— Muge.

(...)

— A voz tremida do grilo
Que vive oculto na grama,
A trilar, como se chama?
— Trilo.

Mas, escravos das paixões
Que os fazem bons ou ferozes,
Os homens têm suas vozes
Conforme as ocasiões.


In: JÚLIA, Francisca. Alma infantil: versos para uso das escolas. Co-aut. Júlio César da Silva. São Paulo: Livr. Magalhães, 1912
6 744

Rústica

Da casinha, em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora;
Além, o seu quintal, este, o seu aposento.

Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...

E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno,

Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.


Publicado no livro Esfinges (1920).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1961. p. 87-88
4 673

Anfitrite

Louco, às doudas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.

A seus uivos, o mar chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.

Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e vem, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,

Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas.


Publicado no livro Esfinges: versos (1903).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias. Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
3 641

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Comentários (3)

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Carlos Augusto
Carlos Augusto

Prezados(as),Boa tarde. Tenho ainda disponíveis, à venda, alguns exemplares da linda coletânea Versos Áureos, de Francisca Júlia, da qual sou organizador. Poderia me ajudar na divulgação? Valor: 35 reais frete. Se estiver interessada(o), entre em contato pelo WhatsApp 34 999512730.Cordialmente,Carlos Augusto

Não burros
Não burros

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escola
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amei esse soneto sqn vcs sao um bamdo de aotaris