Lista de Poemas

Cabeças-de-frade

...sócios incomparáveis neste habitat,
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.

1 120

O Tygre

tyger! tyger! burning bright
in the forests of the night.
what immortal hand or eye
cd frame thy fearful symmetry?

tygre! tygre! brilho, brasa
que à furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
em que asas veio a chamma?
que mão colheu essa flamma?

que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
e o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

teu cérebro, quem o malha?
que martelo? que fornalha
o moldou? que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
quem fez a ovelha te fez?

tyger! tyger! burning bright
in the forests of the night.
what immortal hand or eye
cd frame thy fearful symmetry?

tygre! tygre! brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?


Publicado em O Tygre, de William Blake (1977).Tradução do poema The Tyger, da série Songs of Experience, do livro Songs of Innocence and Experience, de William Blake.

In: CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia, 1949/1979. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 221-229
2 302

O atirador

Viam-no, outra vez, cair de bruços,
baleado.
Mas viam outra vez erguer-se, invulnerável,
assombroso, terrível, abatendo-se
e aprumando-se, o atirador fantástico.

1 494

Dodecassílabos

Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.
O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.
Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.
Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.

1 379

Rodeio

De repente
estruge ao lado um
estrídulo tropel de cascos sobre pedras,
um
estrépito de galhos estralando,
tufa nos ares, em novelos,
uma nuvem de pó;
rompe, a súbitas, na clareira,
embolada,
uma ponta de gado e logo após,
sobre o cavalo que estaca esbarrado,
o vaqueiro,
teso nos estribos...

1 347

Os crentes

Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA

Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.

1 238

Canudos-Iduméia

"Je tapporte lenfant dune nuit dIdumé." Mallarmé
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre

1 122

Soldado

I
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.

II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...

1 620

A igreja nova

A antiga capela não bastava.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.

1 652

O monstro

Todo o exército repousava...
Nisto,
despontam, cautos, emergindo à ourela
do matagal rasteiro e trançado
de arbustos em esgalhos,
na clareira, no alto,
onde estaciona a artilharia,
doze rostos inquietos,
olhares
felinos, rápidos,
percorrendo todos os pontos.
Doze rostos apenas
de homens ainda jacentes,
de rastro,
nos tufos das bromélias.
Surgem lentamente.
Ninguém os vê; ninguém os pode ver.
Dão-lhes as costas
com indiferença soberana
vinte batalhões tranqüilos.
Adiante divisam a presa cobiçada.
Como um animal fantástico,
prestes a um bote repentino,
o canhão Withworth,
a matadeira,
empina-se
no reparo sólido.
Volta
para Belo Monte
a boca truculenta e rugidora
que tantas granadas revessou já
sobre as igrejas sacrossantas.
Caem-lhe sobre o dorso luzidio e negro os
raios do Sol,
ajaezando-a de lampejos.
Os
fanáticos
contemplam-na algum tempo.
Aprumam-se depois à borda da clareira.
Arrojam-se sobre o monstro.
Assaltam-no; aferram-no; jugulam-no.
Um traz uma alavanca rígida.
Ergue-a num gesto ameaçador e rápido...
E a pancada bate, estrídula e alta, retinindo...
E um brado de alarma
estala na mudez universal das coisas;
multiplica-se nas quebradas;
enche o espaço todo;
e detona em ecos
que atroando os vales
ressaltam pelos morros numa vibração
triunfal e estrugidora,
sacudindo num repelão violento
o acampamento inteiro...

1 711

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Identificação e contexto básico

Augusto de Campos é um poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e editor brasileiro. É um dos fundadores do concretismo no Brasil. Nascido na cidade de São Paulo, teve uma ligação intrínseca com o desenvolvimento cultural e artístico da cidade e do país. Viveu e produziu em um contexto de grandes transformações sociais, políticas e tecnológicas.

Infância e formação

Augusto de Campos cresceu em São Paulo, onde teve acesso a uma formação cultural e educacional que lhe permitiu desenvolver seu interesse pelas artes e pela literatura. Sua juventude foi marcada pela leitura e pela imersão em diversas correntes estéticas e filosóficas. A convivência e a colaboração com seu irmão, Haroldo de Campos, e com Décio Pignatari foram cruciais para a formação do grupo que viria a fundar o concretismo.

Percurso literário

O percurso literário de Augusto de Campos é indissociável do movimento concretista, do qual foi um dos principais arquitetos. Desde o início de sua carreira, demonstrou um forte ímpeto experimental, buscando romper com as formas poéticas tradicionais. Fundou, juntamente com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, a revista 'Noigandres', que se tornou o principal veículo de divulgação das ideias e obras concretistas. Sua atividade como poeta, tradutor e crítico abrangeu décadas, mantendo uma constante busca por inovações.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Augusto de Campos é vasta e diversificada, com poemas emblemáticos como "Ovo", "Linguagem", "Pulsar" e "Caçador de Palavras". Sua produção se destaca pela exploração da dimensão visual e sonora da palavra, rompendo com a linearidade do verso e a estrutura tradicional do poema. Utilizou o verso livre, a fragmentação, a disposição espacial das palavras na página (poema-objeto), e a exploração de recursos gráficos e sonoros. Os temas abordados incluem o cotidiano urbano, a tecnologia, a crítica social, o amor e a própria linguagem poética. Sua linguagem é ao mesmo tempo precisa e inventiva, com um vocabulário que transita entre o coloquial e o erudito. O concretismo, movimento ao qual se filia, buscava uma "poesia de corpo inteiro", onde o visual, o espacial e o sonoro se integravam ao verbal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Augusto de Campos é uma figura central do modernismo brasileiro, especialmente da segunda geração, que culminou no concretismo. Viveu e produziu em um período de intensa modernização do Brasil e de efervescência artística e intelectual. Sua obra dialoga com as vanguardas internacionais, como o futurismo, o dadaísmo e o surrealismo, mas forja uma identidade poética genuinamente brasileira. O concretismo, por ele liderado, propôs uma renovação radical da arte e da literatura, com forte impacto nas artes visuais e no design.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Augusto de Campos, ao lado de Haroldo de Campos, constituiu uma parceria intelectual fundamental. Sua dedicação à poesia e à crítica literária foi uma constante em sua vida. Manteve relações com diversos artistas e intelectuais, tanto no Brasil quanto no exterior, o que contribuiu para a difusão de seu trabalho e do concretismo. Sua postura intelectual sempre foi marcada pela radicalidade e pela busca por novas formas de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Augusto de Campos é vasto, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Como um dos principais expoentes do concretismo, sua obra é estudada em universidades e reconhecida por sua importância histórica e estética. Recebeu diversos prêmios e honrarias ao longo de sua carreira. Sua influência se estende para além da poesia, impactando o design gráfico, as artes visuais e a música.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Augusto de Campos incluem as vanguardas europeias do início do século XX, especialmente o futurismo e o cubismo, além da poesia de Oswald de Andrade e da tradição modernista brasileira. Seu legado é imenso: a revolução concretista abriu novos caminhos para a poesia, e sua obra continua a inspirar gerações de poetas, artistas e designers pela sua ousadia formal e pela sua profunda reflexão sobre a linguagem e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Augusto de Campos é amplamente analisada sob a ótica da experimentação linguística e da relação entre palavra e imagem. Críticos destacam a sua capacidade de criar poemas que desafiam a leitura tradicional, promovendo uma experiência estética multissensorial. Temas como a crítica à sociedade de consumo e à massificação da informação são frequentemente discutidos em relação aos seus poemas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Augusto de Campos é sua habilidade em transitar entre a criação poética de vanguarda e a acessibilidade, alcançando um público amplo com poemas que, apesar de sua complexidade estrutural, possuem uma forte ressonância. Sua atividade como tradutor de poetas como Ezra Pound e Mallarmé também é um aspeto relevante de sua produção.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Augusto de Campos, ainda em plena atividade criativa e intelectual, representa um marco vivo na história da literatura brasileira e mundial. Sua memória é celebrada através de sua vasta obra, que continua a ser objeto de estudo, admiração e inspiração.