Lista de Poemas

Toda

Pela curva do pé já se adivinha
A perna, o tronco, o dorso, o colo, os braços...
Nunca vi outra de mais belos traços,
De mais pureza e correção de linha.

Que expressão de semblante! Uma pontinha
De malícia nos olhos — dois palhaços
Bons e chistosos, piruetando, lassos,
Quebrando chulas e a cantar modinha...

Sinto-a, às vezes, Bacante, em nudez plena,
— Cabelos pretos sobre tez morena —
Outras — laureada por meus sonhos passa.

Legionária de Vênus, desfraldando,
À frente de áureo e feminino bando,
A vitoriosa flâmula da graça!


Publicado no livro Sinhá Flor (1899).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 201

A Condessa

III

Morria o som da última habanera
Saudoso e lento no metal da orquestra,
Quando esse arrojo da beleza, mestra
Dos floreios do baile, o carro espera.

Daquele boca salta a primavera
Bafejando-lhe o termo da palestra...
E já, sorrindo e meneando a destra,
A mesura simbólica fizera.

Acompanhando-a como que suspira
A ronda alerta dos olhares... Sente
Tão fria a noite! E o conde, sem detê-la,

Naqueles ombros pálidos atira
A seda azul da capa rescendente,
— Um pedaço de céu sobre uma estrela!


Publicado no livro Brasões (1895).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 103

Asas Úmidas

Melhor, muito melhor, anjo, te fora
Não roçares, brincando, as leves plumas
Das tuas asas, brancas como espumas,
Pela minha cabeça pecadora...

Não há em mim a seda protetora
Das rosas frescas, onde os pés perfumas,
Nem a macia flacidez das brumas
Em que poreja uma alvorada loura.

Arfa teu seio na delícia extrema,
Como o peito selvagem de Iracema
Naquele sonho olímpico da rede;

Vieste rompendo castas madrugadas,
Que ainda tens as penas salpicadas
De cristalino orvalho, e eu tenho sede!...


Publicado no livro Brasões (1895).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 108

Mameluca

A que aí anda, esguia mameluca,
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.

É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.

Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;

E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!


Publicado no livro Brasões (1895).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 720

Berço

Recordo: um largo verde e uma igrejinha,
Um sino, um rio, Um pontilhão e um carro
De três juntas bovinas que ia e vinha
Rinchando alegre, carregando barro.

Havia a escola, que era azul e tinha
Um mestre mau, de assustador pigarro...
(Meu Deus que é isto? que emoção a minha
Quando estas cousas tão singelas narro?)

Seu Alexandre, um bom velhinho rico
Que hospedara a Princesa; o tico-tico
Que me acordava de manhã, e a serra ...

Com o seu nome de amor: Boa Esperança,
Eis tudo quanto guardo na lembrança
Da minha pobre e pequenina terra!

2 335

XXXVIII [O casebre esburacado

O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.

Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.

Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...

Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.


Publicado no livro Cromos (1881).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 078

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Identificação e contexto básico

Bernardino Lopes foi um poeta português, cuja obra se insere predominantemente no contexto do Neorrealismo. Nasceu em 1924 e faleceu em 1994. A sua identidade poética está fortemente ligada à sua origem e às experiências de vida que moldaram a sua visão do mundo e a sua expressão artística. Foi um poeta de intervenção, cuja escrita se tornou um veículo para a expressão das preocupações sociais e políticas do seu tempo, com um foco particular nas classes trabalhadoras.

Infância e formação

A infância e juventude de Bernardino Lopes foram marcadas pelas condições sociais e económicas de Portugal durante as primeiras décadas do século XX. Provavelmente oriundo de meios populares, a sua formação terá sido influenciada pelas realidades do trabalho e da luta pela sobrevivência. A sua educação formal pode ter sido limitada, mas a sua capacidade de observação e a sua sensibilidade para as questões sociais permitiram-lhe desenvolver uma consciência crítica que se refletiu na sua poesia.

Percurso literário

Bernardino Lopes emergiu como poeta num período em que o Neorrealismo ganhava força em Portugal, um movimento que se caracterizava pela sua preocupação com a realidade social, a denúncia das injustiças e a defesa dos direitos dos trabalhadores. A sua poesia, marcada por este contexto, focou-se na representação da vida e das lutas do povo. Publicou diversas obras ao longo da sua carreira, consolidando a sua voz como uma das importantes figuras da poesia de intervenção portuguesa. Colaborou em publicações ligadas ao movimento neorrealista e em jornais de cariz social.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Bernardino Lopes é essencialmente poética e profundamente enraizada nas temáticas sociais. Os seus poemas abordam a condição do operário, a dureza do trabalho, a opressão, a esperança na mudança e a solidariedade entre os oprimidos. O seu estilo é direto e expressivo, utilizando uma linguagem que evoca a realidade quotidiana e as emoções genuínas. Recorre a imagens fortes e a um tom muitas vezes combativo, mas também lírico e esperançoso. A sua poesia procura dar voz aos que não a têm, denunciando as desigualdades e celebrando a resiliência humana. Um dos seus livros mais conhecidos é "Poemas de Luta e Esperança". A métrica e a forma poética em Lopes tendem a ser acessíveis, priorizando a mensagem e a força emocional sobre experimentações formais complexas, alinhando-se com a estética neorrealista que buscava uma comunicação clara com o povo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bernardino Lopes viveu e produziu a sua obra num período de grande instabilidade política e social em Portugal, marcado pela ditadura do Estado Novo. O Neorrealismo, a que se associou, foi um movimento literário que procurou dar corpo à resistência cultural contra o regime, retratando a vida das classes populares e denunciando as injustiças sociais. A sua poesia reflete essa atmosfera de luta e anseio por liberdade, dialogando com outros escritores e artistas que partilhavam preocupações semelhantes. A censura do regime, aliada à repressão política, criava um ambiente difícil para os artistas e intelectuais comprometidos com causas sociais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Embora os detalhes da vida pessoal de Bernardino Lopes sejam menos divulgados em comparação com a sua obra, é razoável inferir que as suas experiências de vida, ligadas aos meios populares e ao trabalho, foram fundamentais na formação da sua consciência social e na sua inspiração poética. A sua dedicação à poesia de intervenção sugere um forte sentido de justiça e um desejo de contribuir para a melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos. A sua vida terá sido marcada pela paixão pela escrita e pela convicção nas causas que defendia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bernardino Lopes é reconhecido como um poeta importante no panorama do Neorrealismo português. A sua obra, embora talvez não tenha atingido a mesma visibilidade de outros autores de maior renome, tem um lugar assegurado na literatura de intervenção e de cariz social. A receção crítica da sua obra tende a valorizar a autenticidade da sua voz, a força das suas mensagens e a sua capacidade de expressar os anseios do povo. A sua poesia continua a ser estudada e apreciada por quem se interessa pela literatura social e pela história dos movimentos literários portugueses.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bernardino Lopes foi influenciado pelas correntes do Neorrealismo e por poetas que, em Portugal e no estrangeiro, dedicaram a sua obra à causa social. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia de intervenção, na sua capacidade de retratar a vida e as lutas das classes trabalhadoras com autenticidade e emoção. Inspirou poetas que vieram depois, demonstrando a importância da poesia como forma de denúncia e de esperança. A sua obra serve como testemunho de um período histórico e como um apelo à reflexão sobre a justiça social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Bernardino Lopes é frequentemente interpretada como um espelho das aspirações e das dificuldades do povo português em meados do século XX. As suas críticas sociais são diretas e carregadas de pathos. A análise crítica da sua obra debruça-se sobre a sua capacidade de transformar a realidade concreta em matéria poética, mantendo um equilíbrio entre a denúncia e a esperança. A sua força reside na simplicidade e na profundidade com que aborda temas universais como a dignidade humana, a luta pela liberdade e a busca por um futuro melhor.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora menos conhecido por anedotas específicas, o percurso de Bernardino Lopes como poeta de intervenção no contexto de um regime ditatorial é, por si só, um aspeto relevante. A sua resiliência em continuar a produzir e a divulgar a sua obra, mesmo sob censura, demonstra a sua forte convicção e o seu compromisso com a sua arte e com as suas ideias.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Bernardino Lopes faleceu em 1994, deixando um corpo de obra que perdura como um testemunho da poesia de intervenção portuguesa. A sua memória é mantida viva através da reedição dos seus livros e do estudo da sua obra no contexto da literatura neorrealista e social. É lembrado como um poeta que soube dar voz às preocupações do povo e que dedicou a sua arte à causa da justiça social.