Lista de Poemas

A dona que eu amo

A dona que eu amo e tenho por Senhor
amostra-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte.
2 865

Senhor Fremosa, Pois Assi Deus Quer

Senhor fremosa, pois assi Deus quer
que já eu sempre no meu coraçom
deseje de vós bem e d'alhur nom,
rogar-vos-ei, por Deus, se vos prouguer,
       que vos nom pês de vos eu muit'amar,
       pois que vos nom ouso por al rogar.

E já que eu sempr'a desejar hei
o vosso bem e nom cuid'a perder
coita, senom per vós ou per morrer,
por Deus, oíde-m': e rogar-vos-ei
       que vos nom pês de vos eu muit'amar,
       pois que vos nom ouso por al rogar.

E pois m'assi tem em poder Amor,
que me nom quer leixar per nulha rem
partir de vos já sempre querer bem,
rogar-vos quero, por Deus, mia senhor,
       que vos nom pês de vos eu muit'amar,
       pois que vos nom ouso por al rogar.
793

Amor, Bem Sei o Que M'ora Faredes

Amor, bem sei o que m'ora faredes,
pois m'em poder d'atal senhor metedes,
contra quem me depois nom valeredes,
u eu por ela tal coita levar,
a qual me nom saberei conselhar.

Por en vos rog', Amor, que me leixedes
viver, s'en bem fazer nom me queredes.
Ca eu bem sei que vós poder havedes
de mi fazerdes, se quiserdes, bem,
Amor, ou mal, quando vos prouguer en.

E pois mi bem e mal fazer podedes,
nom mi façades quanto mal sabedes
fazer; mais dereit'é que mi mostredes
o mui gram bem que podedes fazer,
Amor, pois eu som em vosso poder.
686

Ai Deus! E Quem Mi Tolherá

Ai Deus! e quem mi tolherá
gram coita do meu coraçom
no mundo, pois mia senhor nom
quer que eu perça coita já?
E direi-vos como nom quer:
leixa-me, sem seu bem, viver
coitad'; e se mi nom valer
ela, que mi pode valer,

no mund'outra cousa nom há
que me coita nulha sazom
tolha, se Deus ou morte nom,
ou mia senhor, que nom querrá
tolher-ma. E pois eu hoer
por mia senhor mort'a prender,
Deus, meu Senhor, se lhi prouguer,
mi a leix'ant'ũa vez veer.

E se mi Deus quiser fazer
este bem, que m'é mui mester,
de a veer, pois eu poder
veer o seu bom parecer,
por en gram bem mi per fará
– se m'El mostrar ũa razom,
de quantas end'eu cuid'acá
a dizer, que lhi diga entom.
792

Pero M'eu Moiro, Mia Senhor,

Pero m'eu moiro, mia senhor,
nom vos ous'eu dizer meu mal,
ca tant'hei de vós gram pavor
que nunca tam grand'houvi d'al;
e por en vos leix'a dizer
meu mal, e quer'ante morrer
por vós ca vos dizer pesar.

E por aquesto, mia senhor,
viv[o] em gram coita mortal
que nom poderia maior.
Ai, Deus! Quem soubess'ora qual
e vo-la fezess'entender,
e nom cuidass'i a perder
contra vós, por vos i falar!

E Deu'lo sabe, mia senhor,
que, se m'El contra vós nom val,
ca mi seria mui melhor
mia morte ca mia vid', em tal
que fezess'i a vós prazer,
que vos eu nom posso fazer,
nem mi o quer Deus nem vós guisar.

E com dereito, mia senhor,
peç'eu mia morte, pois mi fal
tod'o bem de vós e d'Amor.
E pois meu temp'assi me sal
amand'eu vós, dev'a querer
ante mia morte ca viver
coitad', e pois nom gradoar

de vós, que me fez Deus veer
por meu mal, pois, sem bem fazer,
vos hei já sempre desejar.
649

Senhor Fremosa, Tam Gram Coita Hei

Senhor fremosa, tam gram coita hei
por vós que bom conselho nom me sei,
       cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.

Por vós, que vi melhor doutras falar
e parecer, nom me sei conselhar,
       cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.

Nom mi queredes mia coita creer:
creer-mi-a-edes, pois que eu morrer
       cuidand'em vós, mia senhor mui fremosa.
765

Pero Me Vós Dizedes, Mia Senhor,

Pero me vós dizedes, mia senhor,
que nunca per vós perderei
a mui gram coita que eu por vós hei,
entanto com'eu vivo for,
al cuid'eu de vós e d'Amor:
       que mi haveredes mui ced'a tolher
       quanta coita me fazedes haver.

E, mia senhor, ũa rem vos direi,
[por] nom estar de vós melhor:
quant'eu houver por vós coita maior,
tanto me mais aficarei
[...........................]
       que mi haveredes mui ced'a tolher
       quanta coita me fazedes haver.
781

A Dona Que Eu Am'e Tenho Por Senhor

A dona que eu am'e tenho por senhor
amostrade-mi-a, Deus, se vos en prazer for,
       senom dade-mi a morte.

A que tenh'eu por lume destes olhos meus
e por que choram sempr', amostrade-mi-a, Deus,
       senom dade-mi a morte.

Essa que vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, ai, Deus!, fazede-mi-a veer,
       senom dade-mi a morte.

Ai Deus! que mi a fezestes mais ca mim amar,
mostrade-mi-a, u possa com ela falar,
       senom dade-mi a morte.
2 778

A Bonaval Quer'eu, Mia Senhor, Ir

A Bonaval quer'eu, mia senhor, ir
e des quand'eu ora de vós partir
       os meus olhos nom dormirám.

Ir-m'-ei, pero m'é grave de fazer;
e des quand'eu ora de vós tolher
       os meus olhos nom dormirám.

Todavia bem será de provar
de m'ir; mais des quand'eu de vós quitar
       os meus olhos nom dormirám.
742

Por Quanta Coita Me Faz Mia Senhor

Por quanta coita me faz mia senhor
haver, nunca m'eu dela queixarei,
nem é dereito, ca eu mi o busquei.
Mais dereit'hei em me queixar d'Amor,
       porque me fez gram bem querer
       quem mi o nom há de gradecer.

E nunca m'eu a mia senhor irei
queixar de quanta coita padeci
por ela, nem do dormir que perdi.
Mais d'Amor sempr'a queixar m'haverei,
       porque me fez gram bem querer
       quem mi o nom há de gradecer.

Por quanta coita por ela sofri,
nom me lhi dev'a queixar com razom,
mais queixar-m'-ei [e]no meu coraçom
d'Amor, a que nunca mal mereci,
       porque me fez gram bem querer
       quem mi o nom há de gradecer.
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Identificação e contexto básico

Bernardo Bonaval foi um trovador da Idade Média, cujas origens estão ligadas ao espaço geográfico da Galiza e Portugal, no seio da lírica galego-portuguesa. Não se sabe a data exata do seu nascimento ou morte, mas o seu período de atividade poética situa-se, provavelmente, no século XIII. A sua obra insere-se no contexto histórico da formação dos reinos de Portugal e Galiza, numa época de intensa produção literária em língua vernácula.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Bernardo Bonaval são muito limitadas. Como era comum entre os trovadores medievais, é provável que a sua formação estivesse ligada a um ambiente cortesão ou clerical, que lhe permitisse o acesso à leitura, escrita e aos conhecimentos musicais necessários para a composição de cantigas e a sua execução.

Percurso literário

Bernardo Bonaval é conhecido como autor de cantigas de amor e de amigo, gêneros líricos característicos da poesia trovadoresca galego-portuguesa. A sua obra é preservada em cancioneiros medievais e é reconhecida pela sua qualidade estética e pela profundidade dos sentimentos expressos. O seu percurso literário insere-se na tradição dos trovadores que, através das suas composições, retratavam os costumes, os valores e as emoções da sociedade da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Bernardo Bonaval é composta por cantigas de amor, onde o eu lírico expressa a sua vassalagem amorosa à dama, e cantigas de amigo, que retratam a voz feminina e os seus lamentos amorosos ou de saudade. O seu estilo é marcado pela delicadeza na expressão dos sentimentos, pela musicalidade e pela utilização de recursos poéticos próprios da tradição trovadoresca. Os temas predominantes são o amor cortês, a saudade, a natureza e os sentimentos da mulher perante o amor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bernardo Bonaval é um representante da cultura medieval na Península Ibérica, um período em que a poesia trovadoresca florescia nas cortes da Galiza e de Portugal. Esta poesia era cantada e musicada, desempenhando um papel importante na vida social e cultural da nobreza. A língua galego-portuguesa era a língua de expressão literária para a poesia lírica nesse período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Bernardo Bonaval. A identidade e o percurso de muitos trovadores medievais são, em geral, obscuros, sendo a sua obra o principal legado que nos chegou. É possível que tenha pertencido à nobreza ou a um círculo próximo da corte, o que lhe teria facilitado o acesso à prática poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Bernardo Bonaval reside na sua inclusão nos cancioneiros medievais e na valorização da sua obra por parte dos estudos de literatura medieval. A sua poesia é estudada e apreciada pela sua qualidade artística e por ser um testemunho da expressão lírica na época.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Como trovador, Bernardo Bonaval foi influenciado pela tradição poética provençal e pela própria tradição lírica galego-portuguesa. O seu legado encontra-se na preservação das suas cantigas, que enriquecem o património literário da língua portuguesa e contribuem para a compreensão da sensibilidade e dos costumes medievais.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bernardo Bonaval tem sido objeto de análise crítica no âmbito dos estudos da lírica galego-portuguesa, focando-se na interpretação das suas cantigas de amor e de amigo, na sua métrica, rima e estilo. As suas composições são valorizadas pela sua expressividade e pela sua representação do amor cortês e dos sentimentos femininos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser uma figura medieval, muitos aspetos da vida e personalidade de Bernardo Bonaval permanecem desconhecidos. A sua obra é o principal ponto de contacto com o seu mundo, e a sua persona poética é construída através das suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações concretas sobre a morte de Bernardo Bonaval. A sua memória é mantida através das suas cantigas preservadas nos cancioneiros medievais, que continuam a ser estudadas e apreciadas como parte integrante da história da literatura galego-portuguesa.