Lista de Poemas

Talo, ó paneleiro

XXV

Talo, ó paneleiro, mais mole que pêlo de coelho,
que medula de ganso, que lóbulo de orelha,
que a porra flácida dum velho e que uma teia de aranha;
ó tu, que és ao mesmo tempo mais rapinante que a túrbida procela,
quando a lua os putanheiros bocejantes alumia,
restitui o manto que me roubaste
e o lenço se Sétabis e os bordados da Bitínia,
que tens o hábito de ostentar, imbecil, como bens de família.
Desgruda-mos já das tuas unhas e devolve-os,
para que chicotadas queimantes te não marquem de indignidade
o brando flancozinho e as delicadas mãozinhas,
e não estues insólito como frágil barquito
por um vento raivoso em mar grosso apanhado.

1 430

V

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos,
sem dar o mínimo valor a todos
os boatos dos velhos mais severos.
Os sóis podem pôr-se
e depois voltar,
mas para nós, uma vez que se ponha
nossa breve luz,
a noite deverá ser um perpétuo
e único sono.
Dê-me mil beijos, e em seguida cem,
e depois mil outros,
depois mais cem, e em seguida outros mil
sem interrupção, e em seguida cem.
Depois, quando tivermos completado
muitos mil, teremos
já perdido a conta
para não termos limite e nenhum
mal-intencionado
possa nos invejar por saber quantos
beijos foram dados.

2 381

1º Ato

S. Pedro
Que é isto?! Aqui? No Céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
S. Pedro
Mas na casa de Deus?!... E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a Música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa Natureza,
os versos do meu canto representam
a divina Poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!

Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnando
vaguei por toda a Terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.

1 038

99.

Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?


Surripui tibi, dum ludis, mellite Iuventi,
suaviolum dulci dulcius ambrosia.
verum id non impune tuli: namque amplius horam
suffixum in summa me memini esse cruce,
dum tibi me purgo nec possum fletibus ullis
tantillum vestrae demere saevitiae.
nam simul id factum est, multis diluta labella
guttis abstersisti omnibus articulis,
ne quicquam nostro contractum ex ore maneret,
tamquam commictae spurca saliva lupae.
praeterea infesto miserum me tradere amori
non cessasti omnique excruciare modo,
ut mi ex ambrosia mutatum iam foret illud
suaviolum tristi tristius elleboro.
quam quoniam poenam misero proponis amori,
numquam iam posthac basia surripiam.



1 343

51.

Ele me parece igual a um deus,
ele – que digo? – até supera os deuses,
que, sentado à tua frente, sem parar
te olha e te escuta

o doce riso; ai, ai, pobre de mim
que perdi a cabeça: pois assim
que te vi, Lésbia, não sobrou nenhuma
palavra em minha boca e,

a língua imóvel, pelo corpo arde
um fogo lento, os tímpanos tilintam
com a própria vibração, enquanto a noite
apaga a luz dos olhos.

O ócio, Catulo, é o teu veneno;
no ócio exultas, todo te transbordas;
o ócio reinos bem-aventurados
e reis desventurou.



Ille mi par esse deo videtur,
ille, si fas est, superare divos,
qui sedens adversus identidem te
spectat et audit

dulce ridentem, misero quod omnis
eripit sensus mihi: nam simul te,
Lesbia, aspexi, nihil est super mi
vocis in ore,

lingua sed torpet, tenuis sub artus
flamma demanat, sonitu suopte
tintinant aures, gemina teguntur
lumina nocte.

Otium, Catulle, tibi molestum est:
otio exsultas nimiumque gestis:
otium et reges prius et beatas
perdidit urbes.



3 183

Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo

Tuas delícias, Flávio, ao teu Catulo
(exceto as toscas e as deselegantes)
tu querias contar – calar por quê?
Mas sei que amas uma puta infecta
que, tão pudico, teimas em esconder.
Não sei por que o quieto quarto grita
“Flávio não passa as noites num velório”,
ardendo em flores e óleos do oriente:
um travesseiro aqui, ali e além
um som de atrito, e eis um leito trêmulo,
a ranger, que passeia pelo quarto.
Não adianta negar, fazer silêncio;
por quê? – pois não reclamarias tanto
de dor nas costas, se não fornicasses.
Diz-me o que tens de bom, e o que não presta:
que eu quero a ti, e a teus amores todos,
levar ao céu na graça do meu verso.
Flavi, delicias tuas Catullo,
ni sint illepidae atque inelegantes,
velles dicere nec tacere posses.
Verum nescio quid febriculosi
scorti diligis: hoc pudet fateri.
Nam te non viduas iacere noctes
nequiquam tacitum cubile clamat
sertis ac Syrio fragrans olivo,
pulvinusque peraeque et hic et ille
attritus, tremulique quassa lecti
argutatio inambulatioque.
Nam ibi stat. Pudet nihil tacere.
Cur? Non tam latera ecfututa pandas,
ni tu quid facias ineptiarum.
Quare, quidquid habes boni malique,
dic nobis. Volo te ac tuos amores
ad caelum lepido vocare versu.
1 022

13

13

Hás de jantar bem, Fabulo meu, em breve
na minha casa, se os deuses te ajudarem;
se contigo vier boa, farta janta e uma
jovem bonita com vinho e sal no riso.
Como se diz, meu caro amigo, isto provido,
hás de jantar bem, pois teu Catulo traz
a bolsa repleta de teias de aranha.
Em troca terás uma afeição singela
ou o que é mais suave e elegante ainda:
eu te ofertarei o perfume que à minha
jovem deram Vênus e seus Amores:
ao cheirá-lo, haverás de rogar aos deuses
que de ti façam, Fabulo, só nariz.

1 317

CARMEM 56

Mas que coisa mais ridícula e jocosa,
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.

(Tradução
de José Paulo Paes)

1 343

CARMEM 32

Eu te peço, minha doce Ipsitila,
Delícia e encanto deste meu viver:
Convida-me a passar contigo a sesta.
Caso me convidares, cuida bem
De que não ponham tranca em tua porta
E não te dê vontade de sair.
Fica em casa, tranquila, praparando-te
Para nove trepadas sucessivas.
Se preferires, vou agora mesmo:
Almocei bem e ora farto, ressupino,
Furo, de impaciência, túnica e toga.

1 728

85

Odeio e amo. Quiçá queiras saber por que:
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.

1 325

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Identificação e contexto básico

Caio Valério Catulo, mais conhecido como Catulo, foi um dos mais proeminentes poetas líricos da Roma Antiga. Viveu durante o período da República Romana tardia, uma época de grande agitação política e social. A sua obra é escrita em latim e é caracterizada pela sua intensidade emocional e pela exploração de temas como o amor apaixonado, a amizade, o ciúme, a inveja e a crítica social.

Infância e formação

Catulo nasceu numa família rica e influente na Gália Cisalpina. Recebeu uma educação esmerada, típica das elites romanas da época, que incluía o estudo da retórica e da literatura grega e latina. A sua juventude foi marcada por uma vida social intensa na capital, Roma, onde frequentou os círculos literários e políticos mais importantes. As suas leituras incluíam os poetas gregos arcaicos e helenísticos, como Safo e Calímaco, cujas influências são notáveis na sua obra.

Percurso literário

O início da escrita de Catulo está ligado à sua juventude em Roma, onde rapidamente se destacou pela sua poesia inovadora e pessoal. A sua obra, reunida postumamente no *Corpus Catullanum*, abrange poemas de vária extensão e temática, desde epigramas curtos e mordazes a poemas mais longos e complexos, como os chamados *carmina maiora*. Catulo também foi conhecido pela sua atividade crítica e pela sua participação em tertúlias literárias, onde apresentava e debatia os seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Catulo é marcada pela sua sinceridade e pela crueza com que aborda os sentimentos. Os temas centrais são o amor, frequentemente tumultuado e obsessivo, a amizade, a política e a crítica aos costumes da sociedade romana. O seu estilo é caracterizado pela vivacidade, pela musicalidade e pela experimentação métrica, utilizando tanto formas tradicionais como o verso livre. A linguagem é coloquial e direta, mas ao mesmo tempo rica em imagens e recursos retóricos. Catulo é frequentemente associado à corrente da poesia nova (Neotérico), que se distanciava da poesia épica e didática, privilegiando temas mais íntimos e pessoais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Catulo viveu numa época de transição para o Império Romano, sob a ditadura de Júlio César. A instabilidade política e as guerras civis marcaram profundamente a sociedade da época. Catulo manteve relações com figuras proeminentes da política e da literatura, como Cícero e Cornélio Nepote. A sua poesia reflete o espírito cínico e hedonista de uma elite que se debatia com as convulsões sociais e a decadência dos valores tradicionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Catulo foi intensa e muitas vezes turbulenta, marcada sobretudo pela sua paixão avassaladora por Clódia Metela, uma mulher da alta sociedade romana, a quem ele chama Lesbia nos seus poemas. Esta relação amorosa, cheia de altos e baixos, ciúmes e desilusões, constitui o núcleo de grande parte da sua produção poética. Catulo era conhecido pelo seu temperamento irascível e pela sua postura crítica em relação aos poderosos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha tido grande repercussão entre os seus contemporâneos e tenha influenciado poetas posteriores, como Ovídio e Horácio, o reconhecimento generalizado de Catulo como um dos grandes poetas latinos consolidou-se apenas na Antiguidade Tardia e na Idade Média. A sua poesia foi redescoberta e valorizada no Renascimento, tornando-se um modelo de lirismo e de expressão pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Catulo foi influenciado pela poesia grega arcaica, especialmente Safo e Calímaco, e pela poesia helenística. O seu legado é imenso, tendo moldado a poesia lírica ocidental pela sua capacidade de expressar emoções complexas com força e originalidade. A sua influência pode ser vista em poetas de todas as épocas, que encontraram nele um modelo de autenticidade e de exploração da condição humana através do amor e da dor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Catulo tem sido objeto de inúmeras interpretações, que vão desde a análise da sua relação com Clódia até à leitura dos seus poemas como manifestações de uma crise existencial e social. A sua obra é vista como um reflexo da complexidade das relações humanas e da fragilidade da condição humana perante o amor e a morte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Catulo era conhecido pelo seu humor negro e pela sua capacidade de usar a sátira para criticar os costumes da sua época. A sua relação com Clódia foi tão intensa que inspirou uma vasta gama de estudos sobre a natureza do amor e do ciúme na Antiguidade. A sua morte prematura, ainda jovem, contribuiu para o seu mito literário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Catulo faleceu precocemente, acredita-se que por volta dos trinta anos de idade. A causa exata da sua morte é desconhecida. A sua obra, no entanto, perdurou através dos séculos, mantendo-se viva e relevante para a posteridade, sendo estudada e admirada como um dos pilares da poesia lírica ocidental.