Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo foi um poeta lírico romano conhecido pela intensidade e paixão das suas obras. A sua poesia explora temas como o amor, a sensualidade, a amizade e a efemeridade da vida, muitas vezes com uma abordagem pessoal e confessional. Catulo é célebre pelos seus poemas curtos, mas profundamente emocionais, que o distinguiram na literatura latina pela sua originalidade e franqueza, influenciando poetas posteriores.

n. 84ac, Verona · m. 54ac, Roma

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V

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos,
sem dar o mínimo valor a todos
os boatos dos velhos mais severos.
Os sóis podem pôr-se
e depois voltar,
mas para nós, uma vez que se ponha
nossa breve luz,
a noite deverá ser um perpétuo
e único sono.
Dê-me mil beijos, e em seguida cem,
e depois mil outros,
depois mais cem, e em seguida outros mil
sem interrupção, e em seguida cem.
Depois, quando tivermos completado
muitos mil, teremos
já perdido a conta
para não termos limite e nenhum
mal-intencionado
possa nos invejar por saber quantos
beijos foram dados.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Caio Valério Catulo, mais conhecido como Catulo, foi um dos mais proeminentes poetas líricos da Roma Antiga. Viveu durante o período da República Romana tardia, uma época de grande agitação política e social. A sua obra é escrita em latim e é caracterizada pela sua intensidade emocional e pela exploração de temas como o amor apaixonado, a amizade, o ciúme, a inveja e a crítica social.

Infância e formação

Catulo nasceu numa família rica e influente na Gália Cisalpina. Recebeu uma educação esmerada, típica das elites romanas da época, que incluía o estudo da retórica e da literatura grega e latina. A sua juventude foi marcada por uma vida social intensa na capital, Roma, onde frequentou os círculos literários e políticos mais importantes. As suas leituras incluíam os poetas gregos arcaicos e helenísticos, como Safo e Calímaco, cujas influências são notáveis na sua obra.

Percurso literário

O início da escrita de Catulo está ligado à sua juventude em Roma, onde rapidamente se destacou pela sua poesia inovadora e pessoal. A sua obra, reunida postumamente no *Corpus Catullanum*, abrange poemas de vária extensão e temática, desde epigramas curtos e mordazes a poemas mais longos e complexos, como os chamados *carmina maiora*. Catulo também foi conhecido pela sua atividade crítica e pela sua participação em tertúlias literárias, onde apresentava e debatia os seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Catulo é marcada pela sua sinceridade e pela crueza com que aborda os sentimentos. Os temas centrais são o amor, frequentemente tumultuado e obsessivo, a amizade, a política e a crítica aos costumes da sociedade romana. O seu estilo é caracterizado pela vivacidade, pela musicalidade e pela experimentação métrica, utilizando tanto formas tradicionais como o verso livre. A linguagem é coloquial e direta, mas ao mesmo tempo rica em imagens e recursos retóricos. Catulo é frequentemente associado à corrente da poesia nova (Neotérico), que se distanciava da poesia épica e didática, privilegiando temas mais íntimos e pessoais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Catulo viveu numa época de transição para o Império Romano, sob a ditadura de Júlio César. A instabilidade política e as guerras civis marcaram profundamente a sociedade da época. Catulo manteve relações com figuras proeminentes da política e da literatura, como Cícero e Cornélio Nepote. A sua poesia reflete o espírito cínico e hedonista de uma elite que se debatia com as convulsões sociais e a decadência dos valores tradicionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Catulo foi intensa e muitas vezes turbulenta, marcada sobretudo pela sua paixão avassaladora por Clódia Metela, uma mulher da alta sociedade romana, a quem ele chama Lesbia nos seus poemas. Esta relação amorosa, cheia de altos e baixos, ciúmes e desilusões, constitui o núcleo de grande parte da sua produção poética. Catulo era conhecido pelo seu temperamento irascível e pela sua postura crítica em relação aos poderosos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha tido grande repercussão entre os seus contemporâneos e tenha influenciado poetas posteriores, como Ovídio e Horácio, o reconhecimento generalizado de Catulo como um dos grandes poetas latinos consolidou-se apenas na Antiguidade Tardia e na Idade Média. A sua poesia foi redescoberta e valorizada no Renascimento, tornando-se um modelo de lirismo e de expressão pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Catulo foi influenciado pela poesia grega arcaica, especialmente Safo e Calímaco, e pela poesia helenística. O seu legado é imenso, tendo moldado a poesia lírica ocidental pela sua capacidade de expressar emoções complexas com força e originalidade. A sua influência pode ser vista em poetas de todas as épocas, que encontraram nele um modelo de autenticidade e de exploração da condição humana através do amor e da dor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Catulo tem sido objeto de inúmeras interpretações, que vão desde a análise da sua relação com Clódia até à leitura dos seus poemas como manifestações de uma crise existencial e social. A sua obra é vista como um reflexo da complexidade das relações humanas e da fragilidade da condição humana perante o amor e a morte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Catulo era conhecido pelo seu humor negro e pela sua capacidade de usar a sátira para criticar os costumes da sua época. A sua relação com Clódia foi tão intensa que inspirou uma vasta gama de estudos sobre a natureza do amor e do ciúme na Antiguidade. A sua morte prematura, ainda jovem, contribuiu para o seu mito literário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Catulo faleceu precocemente, acredita-se que por volta dos trinta anos de idade. A causa exata da sua morte é desconhecida. A sua obra, no entanto, perdurou através dos séculos, mantendo-se viva e relevante para a posteridade, sendo estudada e admirada como um dos pilares da poesia lírica ocidental.

Poemas

15

85

Odeio e amo. Quiçá queiras saber por que:
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.

1 383

CARMEM 32

Eu te peço, minha doce Ipsitila,
Delícia e encanto deste meu viver:
Convida-me a passar contigo a sesta.
Caso me convidares, cuida bem
De que não ponham tranca em tua porta
E não te dê vontade de sair.
Fica em casa, tranquila, praparando-te
Para nove trepadas sucessivas.
Se preferires, vou agora mesmo:
Almocei bem e ora farto, ressupino,
Furo, de impaciência, túnica e toga.

1 768

13

13

Hás de jantar bem, Fabulo meu, em breve
na minha casa, se os deuses te ajudarem;
se contigo vier boa, farta janta e uma
jovem bonita com vinho e sal no riso.
Como se diz, meu caro amigo, isto provido,
hás de jantar bem, pois teu Catulo traz
a bolsa repleta de teias de aranha.
Em troca terás uma afeição singela
ou o que é mais suave e elegante ainda:
eu te ofertarei o perfume que à minha
jovem deram Vênus e seus Amores:
ao cheirá-lo, haverás de rogar aos deuses
que de ti façam, Fabulo, só nariz.

1 344

Aurélio

XV

Aurélio, a minha felicidade em tuas mãos deponho.
Um pequeno favor te peço:
Se do fundo de alma, a alguém quiseste,
que desejaras casto e não tocado,
defende-me a virtuda deste mancebo,
não das investidas do vulgo (nada receio
daqueles que na praça se movem dum lado
para o outro, em seus negócios ocupados),
mas é precisamente a ti que eu temo e ao teu caralho,
infesto a rapazes castos e viciados.
Põe-no em acção onde te agrade, como te agrade,
quantos queiras, todas as vezes que ele te saia das encolhas armado.
Creio-me razoável, só este exceptuando.
Mas se a tua loucura e uma paixão insana
te propelirem, celerado, para tamanho crime,
corrompendo, traiçoeiro, o objecto de meus cuidados,
então, ai de ti, mísero de má fortuna!
Com as pernas afastadas, pelo cu às escâncaras,
Te enfiarei rábanos e rodovalhos.

XVI

Ó Aurélio, brochista, ó Fúrio paneleiro,
a vós que, sendo meus leves versos voluptuosos,
por eles devasso me julgastes,
eu vos hei-de enrabar e embrochar.
Ora se um autêntico poeta casto deve ser,
não é força que seus versos o sejam.
Estes afinal sabor e canto hão-de ter,
se forem galantes e nada cândidos,
e capazes de aguilhoar desejos,
não digo nos moços, mas nesses pilosos
que não podem já os engrunhidos rins mover.
Vós, lá porque lestes muitos milhares de beijos,
Acaso me considerais falto de virilidade?
Pois hei-de-vos enrabar e embrochar.

XXI

Aurélio, ó pai das fomes,
não só das de agora, mas de quantas existiram,
existem ou existirão em anos futuros,
tu queres enrabar o meu favorito.
E nem disfarças, pois não o largas: juntos brincais,
colado à sua ilharga, de tudo lanças mão.
Embalde. Antes de ciladas me dispores
te há-de a minha porra a boca atafulhar.
Se o fizesses com a barriga cheia, eu calava-me;
agora o que me dói é que o meu moço
tenha de aprender a suportar a fome e a sede.
Anda lá, desiste enquanto é possível sem escândalo,
não aconteça que tenhas de acabar, mas embrochado.

1 569

Gozemos a vida, Lésbia

V

Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.

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