Lista de Poemas

101

Depois de transpor muitos povos e muitos mares,
eu chego, irmão, a estas tristes exéquias
para trazer-te a derradeira oferenda fúnebre
e falar, mas em vão, à tua cinza muda,
já que a Fortuna, ai!, me separou de ti mesmo
e indignamente te arrebatou de mim.
Agora, porém, conforme à velha tradição
dos antepassados, aceita a magoada
oferenda fúnebre regada de fraterno
pranto, e para sempre, irmão, adeus e salve.

2 203

LXX

Minha mulher diz que prefere ninguém mais
Do que eu para se casar, caso o próprio
Júpiter não se imponha. Assim ela tem dito:
Mas o que uma mulher diz ao amante
Apaixonado deveria ser escrito
Sobre o vento e na água torrencial.

1 317

Aurélio

XV

Aurélio, a minha felicidade em tuas mãos deponho.
Um pequeno favor te peço:
Se do fundo de alma, a alguém quiseste,
que desejaras casto e não tocado,
defende-me a virtuda deste mancebo,
não das investidas do vulgo (nada receio
daqueles que na praça se movem dum lado
para o outro, em seus negócios ocupados),
mas é precisamente a ti que eu temo e ao teu caralho,
infesto a rapazes castos e viciados.
Põe-no em acção onde te agrade, como te agrade,
quantos queiras, todas as vezes que ele te saia das encolhas armado.
Creio-me razoável, só este exceptuando.
Mas se a tua loucura e uma paixão insana
te propelirem, celerado, para tamanho crime,
corrompendo, traiçoeiro, o objecto de meus cuidados,
então, ai de ti, mísero de má fortuna!
Com as pernas afastadas, pelo cu às escâncaras,
Te enfiarei rábanos e rodovalhos.

XVI

Ó Aurélio, brochista, ó Fúrio paneleiro,
a vós que, sendo meus leves versos voluptuosos,
por eles devasso me julgastes,
eu vos hei-de enrabar e embrochar.
Ora se um autêntico poeta casto deve ser,
não é força que seus versos o sejam.
Estes afinal sabor e canto hão-de ter,
se forem galantes e nada cândidos,
e capazes de aguilhoar desejos,
não digo nos moços, mas nesses pilosos
que não podem já os engrunhidos rins mover.
Vós, lá porque lestes muitos milhares de beijos,
Acaso me considerais falto de virilidade?
Pois hei-de-vos enrabar e embrochar.

XXI

Aurélio, ó pai das fomes,
não só das de agora, mas de quantas existiram,
existem ou existirão em anos futuros,
tu queres enrabar o meu favorito.
E nem disfarças, pois não o largas: juntos brincais,
colado à sua ilharga, de tudo lanças mão.
Embalde. Antes de ciladas me dispores
te há-de a minha porra a boca atafulhar.
Se o fizesses com a barriga cheia, eu calava-me;
agora o que me dói é que o meu moço
tenha de aprender a suportar a fome e a sede.
Anda lá, desiste enquanto é possível sem escândalo,
não aconteça que tenhas de acabar, mas embrochado.

1 528

Gozemos a vida, Lésbia

V

Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
Beija-me mil vezes, mais cem;
outras mil, outras cem.
Depois, quando tivermos ajuntado muitos milhares,
vamos baralhá-los, perdendo-lhes a conta,
para que nenhum invejoso, incapaz de contar beijos tantos,
possa mau-olhado nos lançar.

1 845

O Marruêro

............................
O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...

Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!

O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

Lá, no fundo duma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.

Uma araponga, atrepada
num braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dó!!

E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
num véio tronco de ipê.

Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.

Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!

O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!

Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio duma muié...

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Identificação e contexto básico

Caio Valério Catulo, mais conhecido como Catulo, foi um dos mais proeminentes poetas líricos da Roma Antiga. Viveu durante o período da República Romana tardia, uma época de grande agitação política e social. A sua obra é escrita em latim e é caracterizada pela sua intensidade emocional e pela exploração de temas como o amor apaixonado, a amizade, o ciúme, a inveja e a crítica social.

Infância e formação

Catulo nasceu numa família rica e influente na Gália Cisalpina. Recebeu uma educação esmerada, típica das elites romanas da época, que incluía o estudo da retórica e da literatura grega e latina. A sua juventude foi marcada por uma vida social intensa na capital, Roma, onde frequentou os círculos literários e políticos mais importantes. As suas leituras incluíam os poetas gregos arcaicos e helenísticos, como Safo e Calímaco, cujas influências são notáveis na sua obra.

Percurso literário

O início da escrita de Catulo está ligado à sua juventude em Roma, onde rapidamente se destacou pela sua poesia inovadora e pessoal. A sua obra, reunida postumamente no *Corpus Catullanum*, abrange poemas de vária extensão e temática, desde epigramas curtos e mordazes a poemas mais longos e complexos, como os chamados *carmina maiora*. Catulo também foi conhecido pela sua atividade crítica e pela sua participação em tertúlias literárias, onde apresentava e debatia os seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Catulo é marcada pela sua sinceridade e pela crueza com que aborda os sentimentos. Os temas centrais são o amor, frequentemente tumultuado e obsessivo, a amizade, a política e a crítica aos costumes da sociedade romana. O seu estilo é caracterizado pela vivacidade, pela musicalidade e pela experimentação métrica, utilizando tanto formas tradicionais como o verso livre. A linguagem é coloquial e direta, mas ao mesmo tempo rica em imagens e recursos retóricos. Catulo é frequentemente associado à corrente da poesia nova (Neotérico), que se distanciava da poesia épica e didática, privilegiando temas mais íntimos e pessoais.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Catulo viveu numa época de transição para o Império Romano, sob a ditadura de Júlio César. A instabilidade política e as guerras civis marcaram profundamente a sociedade da época. Catulo manteve relações com figuras proeminentes da política e da literatura, como Cícero e Cornélio Nepote. A sua poesia reflete o espírito cínico e hedonista de uma elite que se debatia com as convulsões sociais e a decadência dos valores tradicionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Catulo foi intensa e muitas vezes turbulenta, marcada sobretudo pela sua paixão avassaladora por Clódia Metela, uma mulher da alta sociedade romana, a quem ele chama Lesbia nos seus poemas. Esta relação amorosa, cheia de altos e baixos, ciúmes e desilusões, constitui o núcleo de grande parte da sua produção poética. Catulo era conhecido pelo seu temperamento irascível e pela sua postura crítica em relação aos poderosos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha tido grande repercussão entre os seus contemporâneos e tenha influenciado poetas posteriores, como Ovídio e Horácio, o reconhecimento generalizado de Catulo como um dos grandes poetas latinos consolidou-se apenas na Antiguidade Tardia e na Idade Média. A sua poesia foi redescoberta e valorizada no Renascimento, tornando-se um modelo de lirismo e de expressão pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Catulo foi influenciado pela poesia grega arcaica, especialmente Safo e Calímaco, e pela poesia helenística. O seu legado é imenso, tendo moldado a poesia lírica ocidental pela sua capacidade de expressar emoções complexas com força e originalidade. A sua influência pode ser vista em poetas de todas as épocas, que encontraram nele um modelo de autenticidade e de exploração da condição humana através do amor e da dor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Catulo tem sido objeto de inúmeras interpretações, que vão desde a análise da sua relação com Clódia até à leitura dos seus poemas como manifestações de uma crise existencial e social. A sua obra é vista como um reflexo da complexidade das relações humanas e da fragilidade da condição humana perante o amor e a morte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Catulo era conhecido pelo seu humor negro e pela sua capacidade de usar a sátira para criticar os costumes da sua época. A sua relação com Clódia foi tão intensa que inspirou uma vasta gama de estudos sobre a natureza do amor e do ciúme na Antiguidade. A sua morte prematura, ainda jovem, contribuiu para o seu mito literário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Catulo faleceu precocemente, acredita-se que por volta dos trinta anos de idade. A causa exata da sua morte é desconhecida. A sua obra, no entanto, perdurou através dos séculos, mantendo-se viva e relevante para a posteridade, sendo estudada e admirada como um dos pilares da poesia lírica ocidental.