Lista de Poemas

Narciso

Enquanto nos atormentam as furiosas serpentes da

solidão
Eu sei de ti, como nenhum menino sabe de si mesmo
E te salvo da sombra de todos os teus espelhos
De onde emergem intactas as imagens claras da

compaixão
E cai no fundo das águas o céu do verão
Frutas vermelhas amadurecem o peco desejo
Há um cardume de ânsias mergulhadas no peito
Estás com ar transfigurado, a insone paixão
Nunca abandona o insondável aquário
E disfarças como ontem o inevitável beijo
Anunciando a Narciso seu adiado naufrágio

1 489

VI [Quero te dar um vestido com um desenho que ainda

Quero te dar um vestido com um desenho que ainda
não sei como será
Penso frutas, dragões, sereias
Fantasias que nem ainda sei bordar
Mas quero te dar um vestido, quem sabe de areia
Quem sabe de uma linha que não se saiba coser
Penso te dar um vestido bordado de ambos os lados
do querer
Nem quero te vestir
Nem quero que o vejas nem que o queiras talvez
Quero te dar um vestido que a minha alma deseja


In: CAPINAN. Confissões de Narciso: poemas. Apresentação de Gilberto Gil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 31. Poema integrante da série Algumas Fantasia
1 353

Compreensão de Santo

Todos os santos têm o sexo amputado.

E cansados de suster a própria boca
maldizem a fome enquanto comem.

(De gula, assaz e sempre estarão salvos.)

Sabem ótimo o benefício de dar-se
mas em ânsias de céu, erram as doações pelo ar.

(Em dar assim, mais se exercem, mais se guardam.)

O santo é só um ângulo do homem.

Como só vê de um lado, enviesado
anda em círculos, se perseguindo,
doida figura que nas costas procurasse o seu sentido todo.

(Buscando o ausente, em Deus, faz-se íntegro e pouco.)

1 316

Confissões de Narciso

Que pensará meu pai de mim agora
E dele que poderei pensar
Eu que pensando nele
Tanto gostaria de saber o que pensa de mim agora?
(Não será essa a última hora da confissão
Nem a primeira hora do nascimento)
Mas que pensaria meu pai ao me ver chorar?
Que pensaria minha mãe
Me vendo agora beijar outras bocas, outros seios, a
procurá-la como alimento?
Sei que jamais saberei o que se passou naquele
momento
Como não sei quase o que se passa agora
Lá fora a noite é cheia de compromissos
E eu, omisso, gravo aqui meus sentimentos
Guardado talvez de mim, guardado talvez dos outros
E querendo estar tão absorto
Que jamais soubesse como lá fora a noite se eterniza
em nunca e jamais
Jasmins exalam
Flores crescem durante a noite e durante a noite
despetalam
Indiferentes ao fato de que pela manhã lhes
arrancarão o talo
E eu por que falo?
Por que não escrevo, por que não beijo?
Porque não caço o inexistente poema, borboleta
imaginária?
Minha mãe sempre me pareceu generosa e perdida
Sempre me pareceu absorvida e mal amada
Uma vida doada para nada
E meu pai sempre me pareceu estrangeiro
Como todos os pais
Eu sequer por furto tive dele um sorriso
Nem a mão por compromisso de andar até o outro
lado da rua
Minha vida foi sempre nua desde o primeiro dia
E sequer me alivia
E sequer eu quero que alivie
Sequer eu quero que passe a vida
Sequer eu quero que continue
Eu quero apenas despir-me
(Embora já esteja tão despido)
E quisera então quem me possuíra
Ai quisera somente dizer estas mentiras
Para quem cresse em mentiras
E pudesse vê-las mais verdadeiras que as verdades que
são ditas
Na casa ao lado há conversas mais sérias que poesia
Há um plano de recuperar as moedas, as finanças, a
pátria, deus e a família
Tudo que é falido desde o começo
Mas eu de tudo também participo
E até em meu endereço chegam as cartas e o telefone
toca
(Serão avisos?)
Deveria estar num comitê que discute o amanhã
E as outras políticas do amanhã
Mas eu sequer desejo sair da cama
Quisera somente beijos, desses que não se proclamam
Beijos talvez cruéis, que se derramam sequer da boca e
sangram
E também quisera que o meu desejo
Não escapasse enquanto fosse o meu desejo
E atendesse ele próprio ao que deseja
Não me usasse para atendê-lo (ele que tanto me
reclama)

1 935

Poema Intencional

Há em cada substância a sua negativa
e a possibilidade de processo.

Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:

A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos

vejo nos olhos tristes
um filho possível

vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete

descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:

é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,

Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência

e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:

tenho que colher a rosa
e transformá-la

tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho

tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.

1 323

De Não Ser, Sendo Constantemente

Não sou o mesmo de olhar vazio
e palavra sem conseqüência usada.
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.

No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminhante e rota.

1 400

Navegação Didática

Quis conhecer o rio, habituei-me às navegações.
(Se à curva não propões o barco, a preferência reta
vai dar em margens de flor ou pedra,
paralisando o curso.

Ao vôo se necessita consciência de muros.
Anterior a ser livre é experimentar limites
e daí ser projeto que se auto-edificasse
em corpo bomba que os destruísse

ou se descendo um rio, corpo sensível
que os evitasse) .
Viajando assim, vai surgir, limpa e forte,
a cidade, como nasce um dente: inevitável.

1 336

Poeta e Realidade

III
(Outra Didática)

Dou ao meu verso usos de clareza
de um rio coerente à sua limpeza.
Não desvirtuei a cidade que percebi,
denunciei o fruto como o recebera.

Não me veio pressa ao fazer ou adquirir.
O que fiz exigia madurar-se em corpo,
o que adquiri foi bom, sendo por carência.
Antes tive fome e sede, depois o gosto.

Como se alternaram os caminhos,
preferi aquele que ao mar se prestaria
qual raiz de acontecimento.
E alguma vez me encontrei perdido.

Ante desvio e ponte arruinados
surpreendido o verso é grave e pesa, o verso é grave.
Mas como tudo, sei, guarda um sentido
nenhuma tristeza tenho da realidade.

VI
(A viagem lúcida)

De minha certeza me organizo.
Tenho a coerência ele todo ser que vive e se elimina,
guardando a precária exatidão de seu sentido.

Ando sem possibilidades de por mim mesmo
retornar à sombra da árvore antiga.
Não uso olho e língua para criar Deus em mim,
em mim a dor humana eliminou a condição divina.

Hoje parto sem desespero, sem melancolia,
parto sem me deixar na sala dentro de qualquer lembrança.
Carrego inteira a memória
e a pouca preparação do real.

Parto como quem vê,
como quem morde fundo e distingue longe.
Assim parto sem lágrimas
para estar lúcido e compreender a viagem.

1 379

O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo

O desenvolver-se do rio é pacífico.
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.

De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.

Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
1 442

Soy Loco Por Ti, America, 1967

Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira

Imagem - 02540002


In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978

NOTA: Parceria com Gilberto Gil e Torquato Net
1 518

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Identificação e contexto básico

Capinan, cujo nome de registo é José Carlos Capinan, foi um poeta, compositor e letrista brasileiro. Foi uma figura central no movimento Tropicalista e na cena cultural brasileira das décadas de 1960 e 1970. A sua nacionalidade é brasileira e a sua língua de escrita foi o português.

Infância e formação

José Carlos Capinan nasceu e cresceu no Brasil, onde desenvolveu o seu interesse pela música e pela literatura. A sua formação foi marcada pela efervescência cultural do país nas décadas de 1960, período em que se envolveu com a música popular brasileira e a poesia. A absorção da cultura popular brasileira, aliada a influências artísticas vanguardistas, moldou a sua linguagem e a sua perspetiva.

Percurso literário

O percurso literário de Capinan está intrinsecamente ligado à sua carreira como letrista e compositor. Iniciou a sua atividade escrevendo letras para canções, muitas das quais se tornaram marcos da Música Popular Brasileira (MPB) e da Tropicália. A sua obra poética explora a linguagem de forma inovadora, mesclando o coloquial com o erudito, o regional com o universal. Colaborou intensamente com diversos músicos, contribuindo para a riqueza lírica de inúmeras canções.

Obra, estilo e características literárias

Capinan é conhecido pela sua escrita poética ousada e inovadora, frequentemente utilizada em letras de música. Temas como a crítica social, o amor, a identidade brasileira e a modernidade urbana são recorrentes. O seu estilo é caracterizado pela fusão de elementos da cultura popular, da poesia de vanguarda e da linguagem coloquial. Utiliza metáforas criativas, jogos de palavras e um ritmo marcante, que refletem a musicalidade intrínseca à sua obra. A sua voz poética, por vezes irónica e contestadora, dialoga com a realidade brasileira, propondo novas formas de expressão.

Contexto cultural e histórico

Capinan emergiu no contexto da Tropicália, um movimento cultural e musical revolucionário no Brasil que desafiou as convenções artísticas e sociais da época. Viveu num período de grandes transformações políticas e culturais no Brasil, incluindo a ditadura militar, o que influenciou a sua obra, muitas vezes carregada de críticas veladas e alegorias. A sua geração de artistas buscava reinventar a identidade cultural brasileira, misturando influências locais e estrangeiras.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Capinan, para além do seu envolvimento artístico, não são amplamente divulgadas. Sabe-se que as suas relações com outros artistas e músicos foram fundamentais para a sua carreira, colaborando com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre outros. A sua dedicação à arte e à música parece ter sido o foco principal da sua vida.

Reconhecimento e receção

Capinan obteve um reconhecimento considerável como letrista e compositor, sendo considerado um dos grandes nomes da MPB e da Tropicália. As suas letras são estudadas e admiradas pela sua qualidade poética e pela sua capacidade de retratar o Brasil moderno. Embora a sua obra possa ter tido uma receção mais restrita no meio académico tradicional da poesia, o seu impacto na música popular brasileira é inegável.

Influências e legado

Capinan foi influenciado pela poesia brasileira, pela música popular, pela cultura popular e pelas vanguardas artísticas. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da linguagem poética na música brasileira, abrindo caminho para novas experimentações. A sua obra continua a inspirar compositores e poetas, marcando a história da música e da literatura do Brasil.

Interpretação e análise crítica

A obra de Capinan convida a análises que entrelaçam poesia e música, cultura popular e vanguarda. As suas letras são vistas como expressões da identidade brasileira, da crítica social e da busca por novas formas de expressão artística. A complexidade da sua linguagem e a multiplicidade de referências culturais na sua obra abrem espaço para diversas interpretações.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Capinan é conhecido pela sua colaboração estreita com grandes nomes da música brasileira, mas a extensão da sua produção poética para além das letras de música pode ser um aspeto menos explorado. A sua habilidade em capturar a essência do Brasil através de versos concisos e impactantes é uma característica marcante.

Morte e memória

Capinan faleceu no Brasil, deixando um rico acervo de letras e poemas que continuam a ser celebrados. A sua memória é mantida viva através da sua obra musical e poética, que permanece relevante e influente na cultura brasileira.