Capinan

Capinan

n. 1941 BR BR

Capinan, pseudónimo de José Carlos Capinan, foi um poeta e compositor brasileiro, figura proeminente da Tropicália e do movimento musical e literário do Brasil dos anos 1960 e 1970. A sua obra poética, muitas vezes associada às letras de canções, destaca-se pela ousadia estética, pela crítica social e pela fusão de elementos da cultura popular brasileira com a vanguarda artística. Foi um dos letristas mais importantes da MPB, colaborando com diversos músicos renomados.

n. 1941-02-19, Esplanada

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Narciso

Enquanto nos atormentam as furiosas serpentes da

solidão
Eu sei de ti, como nenhum menino sabe de si mesmo
E te salvo da sombra de todos os teus espelhos
De onde emergem intactas as imagens claras da

compaixão
E cai no fundo das águas o céu do verão
Frutas vermelhas amadurecem o peco desejo
Há um cardume de ânsias mergulhadas no peito
Estás com ar transfigurado, a insone paixão
Nunca abandona o insondável aquário
E disfarças como ontem o inevitável beijo
Anunciando a Narciso seu adiado naufrágio

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Biografia

Identificação e contexto básico

Capinan, cujo nome de registo é José Carlos Capinan, foi um poeta, compositor e letrista brasileiro. Foi uma figura central no movimento Tropicalista e na cena cultural brasileira das décadas de 1960 e 1970. A sua nacionalidade é brasileira e a sua língua de escrita foi o português.

Infância e formação

José Carlos Capinan nasceu e cresceu no Brasil, onde desenvolveu o seu interesse pela música e pela literatura. A sua formação foi marcada pela efervescência cultural do país nas décadas de 1960, período em que se envolveu com a música popular brasileira e a poesia. A absorção da cultura popular brasileira, aliada a influências artísticas vanguardistas, moldou a sua linguagem e a sua perspetiva.

Percurso literário

O percurso literário de Capinan está intrinsecamente ligado à sua carreira como letrista e compositor. Iniciou a sua atividade escrevendo letras para canções, muitas das quais se tornaram marcos da Música Popular Brasileira (MPB) e da Tropicália. A sua obra poética explora a linguagem de forma inovadora, mesclando o coloquial com o erudito, o regional com o universal. Colaborou intensamente com diversos músicos, contribuindo para a riqueza lírica de inúmeras canções.

Obra, estilo e características literárias

Capinan é conhecido pela sua escrita poética ousada e inovadora, frequentemente utilizada em letras de música. Temas como a crítica social, o amor, a identidade brasileira e a modernidade urbana são recorrentes. O seu estilo é caracterizado pela fusão de elementos da cultura popular, da poesia de vanguarda e da linguagem coloquial. Utiliza metáforas criativas, jogos de palavras e um ritmo marcante, que refletem a musicalidade intrínseca à sua obra. A sua voz poética, por vezes irónica e contestadora, dialoga com a realidade brasileira, propondo novas formas de expressão.

Contexto cultural e histórico

Capinan emergiu no contexto da Tropicália, um movimento cultural e musical revolucionário no Brasil que desafiou as convenções artísticas e sociais da época. Viveu num período de grandes transformações políticas e culturais no Brasil, incluindo a ditadura militar, o que influenciou a sua obra, muitas vezes carregada de críticas veladas e alegorias. A sua geração de artistas buscava reinventar a identidade cultural brasileira, misturando influências locais e estrangeiras.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Capinan, para além do seu envolvimento artístico, não são amplamente divulgadas. Sabe-se que as suas relações com outros artistas e músicos foram fundamentais para a sua carreira, colaborando com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre outros. A sua dedicação à arte e à música parece ter sido o foco principal da sua vida.

Reconhecimento e receção

Capinan obteve um reconhecimento considerável como letrista e compositor, sendo considerado um dos grandes nomes da MPB e da Tropicália. As suas letras são estudadas e admiradas pela sua qualidade poética e pela sua capacidade de retratar o Brasil moderno. Embora a sua obra possa ter tido uma receção mais restrita no meio académico tradicional da poesia, o seu impacto na música popular brasileira é inegável.

Influências e legado

Capinan foi influenciado pela poesia brasileira, pela música popular, pela cultura popular e pelas vanguardas artísticas. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da linguagem poética na música brasileira, abrindo caminho para novas experimentações. A sua obra continua a inspirar compositores e poetas, marcando a história da música e da literatura do Brasil.

Interpretação e análise crítica

A obra de Capinan convida a análises que entrelaçam poesia e música, cultura popular e vanguarda. As suas letras são vistas como expressões da identidade brasileira, da crítica social e da busca por novas formas de expressão artística. A complexidade da sua linguagem e a multiplicidade de referências culturais na sua obra abrem espaço para diversas interpretações.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Capinan é conhecido pela sua colaboração estreita com grandes nomes da música brasileira, mas a extensão da sua produção poética para além das letras de música pode ser um aspeto menos explorado. A sua habilidade em capturar a essência do Brasil através de versos concisos e impactantes é uma característica marcante.

Morte e memória

Capinan faleceu no Brasil, deixando um rico acervo de letras e poemas que continuam a ser celebrados. A sua memória é mantida viva através da sua obra musical e poética, que permanece relevante e influente na cultura brasileira.

Poemas

20

Poema Intencional

Há em cada substância a sua negativa
e a possibilidade de processo.

Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:

A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos

vejo nos olhos tristes
um filho possível

vejo na árvore antiga do parque,
uma cadeira, uma muleta, mas sobretudo um aríete

descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:

é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,

Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência

e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:

tenho que colher a rosa
e transformá-la

tenho que possuir Maria
e dar-lhe um filho

tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.

1 348

De Não Ser, Sendo Constantemente

Não sou o mesmo de olhar vazio
e palavra sem conseqüência usada.
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.

No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminhante e rota.

1 422

O Poeta

O poeta não mente. Dificulta.
Como ser falso o caminho?
A mensagem é luminosa, flui, a mensagem é líquida.

Mentira que o poema sublime
O medo e o sofrimento.
O poema é trabalhado, dói, o poema é amargo.

O poeta não fugiu ao poema.
O verso amadurece como fruto:
Revela-se a semente quando a fome o parte.

O poeta não idealiza.
Seu caminho é humano
(Mas que pode o poeta se não lhe alcançam o símbolo?)

O poeta é gago.
Se não o amam, se não o esperam,
Não se elucida a palavra e o vôo cai.

A ponte ou às vezes o rio:
O poeta não está sobre as coisas,
O poeta depende, o poeta as sofre.

É homem o poeta.
Sofre o tempo, a fome e o corpo
Da mulher amada, como chora e morre e chora.

O poeta é livre para danificar a ave.
O poeta não danifica a ave,
Executa sem matar, porque o poema é propriamente e não ave.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 44-4
1 247

Semeadura

I

A terra é nova, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Para arrebentar com o mesmo método
O solo.

A terra é nova, insisto, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Em lavrar a floração do solo.
O sol.

A terra é nova, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Em tornar virente o solo.
O homem.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 50

NOTA: Poema composto de 3 parte
1 283

O Rebanho e o Homem

O rebanho trafega com tranquilidade o caminho:
É sempre uma surpresa ao rebanho que ele chegue
Ao campo ou ao matadouro.
Nenhuma raiva
Nenhuma esperança o rebanho leva.
Pouco importa que a flor sucumba aos cascos
Ou ainda que sobreviva.
Nenhuma pergunta o rebanho não diz:
Até na sede ele é tranquilo
Até na guerra ele é mudo.
O rebanho não pronuncia,
Usa a luz mas nunca explica a sua falta,
Usa o alimento sem nunca se perguntar
Sobre o rebanho o sexo
Que ele nunca explicara
E as fêmeas cobertas
Recebem a fecundidade sem admiração.
A morte ele desconhece e a sua vida.
No rebanho não há companheiros,
Há cada corpo em si sem lucidez alguma.

O rebanho não vê a cara dos homens
Aceita o caminho e vai escorrendo
Num andar pesado sobre os campos.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
2 008

Canção de Minha Descoberta

Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.

Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.

Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.

As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 235

Bandeira de Brasil

Terra
Vê a cana verde,
o nascer do céu, ô.

Verde mar,
Maracanã,
onde há progresso
fica o mato em paz.

Campo
Verde, bananeira,
amarela fruta
do Brasil azul, ô.

Ouro
Vê em cada estrela
brilha a nossa terra,
terra brasileira.


In: RÁ TIM BUM. São Paulo: Estúdio Eldorado, s.d. 1 CD

NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
1 400

Aprendizagem

(I)
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.

O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.

(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).

Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.

A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.

(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.

Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;

ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.

1 327

Canto Grave e Profundo

É pesado o desabar das horas no fim do céu,
que se faz tempo e tempo para socorrer
o sangue derramado nos campos de pedra e sol
dos que foram feitos morrer

sem estender a mão para o fruto
semeado e que se fez em resposta
ao trabalho da mão nos campos de pedra e sol
no mundo em processo de classes superpostas.

E o trigo foi para outros lábios
que não os que bendisseram a chuva
e choraram o sol com a fome dos filhos

e o pão foi servido na mesa de homens
que não os que bendisseram a chuva:
e é novamente preciso semear os campos de pedra e sol.

1 356

Canção de Minha Descoberta

Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.

Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.

Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.

As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.

1 245

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