A Vida Passada a Limpo
Ó esplêndida lua, debruçada
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu não banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.
Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, lâmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.
Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,
já não destila mágoa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.
O Escritor
Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.
Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.
Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.
Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem de espera esperança.
Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.
Versos Para Ana Cecilia, do Recife
Eis que o tempo chegou de celebrar Ana Cecilia
e sua graça-clarão e seu verdor de tília.
Aqui estou, velho poeta, para quem a juventude
traz em si mesma uma promessa de beatitude,
uma continuação de antes de amanhecer, uma fonte
de sonhos e visões a colorir a linha do horizonte,
um aceno forte de vida, incitando a viver
a magnificente esperança de cada hora, diamante do ser.
Aqui estou e vejo Ana Cecilia em seu fluvial Recife
adornada de mocidade como de um paquife.
Tem sua própria e luminosa florescência,
a mesma de Sônia Maria e de Madalena, e a inefável ciência
das moças brasileiras do passado, refletidas na de 78,
dom contra o qual nada pode nem ousa o tempo afoito,
pois a moça, forma indelével, através de gerações e gerações,
sítios, histórias, alianças, amorosas combinações,
é eternidade no fluir das coisas, instante corporizado
da ânsia de vencer o efêmero e nele inscrever o traçado
de uma ponta entre o humano, o terrestre e o transcendental,
feições todas irmanadas de um fantástico ideal.
E tudo que vejo em Ana Cecilia é a imagem dessa união
profunda, como profundo é o amor, e plena de canção.
Que verso darei a Ana Cecilia, se ela é o próprio verso
a brotar, espontâneo, da música do universo?
Seis Manequins
Ully, Ully, lullaby,
vou contigo para a Lua,
luarando vais levando
uma luz leve de linho,
de trigal maduro e lã.
De passagem no Oriente,
Mailu surge de repente
e todos os véus da Ásia,
as arômatas do Egito,
as musicálias hindus
florescem na flor do ar.
Ó Zula, que noite azul
clareia na tua pele
um mistério que escurece
quando tento decifrá-lo?
Já se dilata a pupila
ante a passagem de Mila,
que, se para ou se desfila,
tantaliza a própria argila.
E Nice, que vem da neve
e da pelúcia mais suave,
incenso, anjinho de nave,
cantando na Lua Nova?
Que não me falte Beatriz,
jardim moreno de altura
para me fazer feliz
no meu reino de aventura!
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
A Semana Foi Assim
A semana? Passou que nem corisco,
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.
18/10/1969
A Lamentável História Dos Namorados
Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
Primeiro Morto
Alberto pequeno coxo
ágil endemoninhado contestador dialético,
saci que ri, óculos relumbrando
sob o circunflexo de bastas sobrancelhas
e coração ardendo de doçura
a fingir de sarcástico
— tão cedo vai Alberto: a pregar peças
em mundo novo, a amigos novos?
Lira do Amor Romântico
Ou a eterna repetição
Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.
Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.
Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.
Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.
Atirei um limão n’água,
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!
Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.
Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.
Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.
Atirei um limão n’água,
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.
Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.
Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!