Carlos Nejar

Carlos Nejar

n. 1939 BR BR

Carlos Nejar é um poeta brasileiro de renome, cuja obra se distingue pela intensidade lírica e pela exploração de temas universais como o amor, a morte, o tempo e a identidade. A sua poesia é marcada por uma linguagem rica e expressiva, que transita entre o lirismo confessional e a reflexão filosófica. Ao longo de sua carreira, Nejar consolidou-se como uma voz importante na literatura brasileira contemporânea, reconhecido pela profundidade de sua visão e pela maestria formal.

n. 1939-01-11, Porto Alegre · m. , Londres

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Sentença

"Vistos.
Fulano de Tal, nascido
nesta cidade do reino,
em tempo desconhecido.

Nascido
sem explicação ou sentido,
como o arremesso de um disco.

Nascido
como quem diz uma palavra e pronto:
ei-lo lançado no andamento do mundo.

Nascido
como se planta um figo ou ameixa
e se planta
um grito na garganta.

Nascido e agora,
viajor por profissão,
inquilino das coisas,
armazena culpas e velos de lã.

E eu, julgador, sentencio,
considerando o réu
e o estar aqui, opresso,
dividido na noite
que se dividiu,
como mulher no cio,
resolvo condená-lo
a viver em danação,
além do fojo de seus pais,
com avarias e receios,
entre iguais.

Depois, suspendo-lhe a pena,
para que pereça como veio."


Publicado no livro Danações (1969).

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.227-228. (Poiesis
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Biografia

Identificação e contexto básico

Carlos Nejar é um renomado poeta brasileiro. Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Sua obra poética é reconhecida pela força lírica e pela profunda reflexão sobre a condição humana, abordando temas como o amor, a morte, o tempo, a identidade e a memória. Sua escrita se insere no contexto da poesia brasileira contemporânea.

Infância e formação

A infância de Carlos Nejar, assim como sua formação acadêmica e intelectual, foram moldadas pelo ambiente cultural do Rio Grande do Sul. A leitura e o contato com a arte foram importantes desde cedo, influenciando seu desenvolvimento como escritor. Sua formação universitária em Direito também marcou sua trajetória, embora a poesia tenha se consolidado como sua principal vocação.

Percurso literário

O início da carreira literária de Carlos Nejar remonta à sua juventude, com a publicação de seus primeiros poemas. Ao longo das décadas, sua obra evoluiu, consolidando um estilo próprio e reconhecível. Participou ativamente de círculos literários e publicou em diversas revistas e antologias, expandindo seu alcance e influência. Sua atividade como poeta é ininterrupta, com uma produção vasta e consistente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Carlos Nejar incluem títulos que exploram a profundidade da experiência humana. Os temas recorrentes em sua poesia são o amor, a morte, o tempo, a memória, a natureza e a busca por sentido. Seu estilo é marcado por um lirismo intenso, um vocabulário preciso e uma musicalidade singular. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um rigor formal que confere ritmo e densidade às suas composições. A voz poética é frequentemente confessional, mas transcende o individual para alcançar uma dimensão universal. Nejar é conhecido por sua capacidade de criar imagens poderosas e por sua habilidade em dialogar com a tradição literária, ao mesmo tempo que inova em forma e conteúdo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carlos Nejar construiu sua obra em diálogo com o contexto cultural e histórico do Brasil, especialmente do Rio Grande do Sul. Sua poesia reflete as transformações sociais e políticas do país, bem como as correntes literárias de seu tempo. Ele é considerado parte da geração de poetas que renovaram a poesia brasileira em meados do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Carlos Nejar são menos proeminentes em sua apresentação pública, que tende a focar em sua obra. Sabe-se que sua trajetória profissional incluiu também a advocacia, mas a poesia sempre foi sua paixão central. Suas relações pessoais e experiências de vida, no entanto, são indissociáveis da profundidade e da carga emotiva presentes em seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Carlos Nejar é amplamente reconhecido na literatura brasileira, tendo recebido diversos prémios e distinções ao longo de sua carreira. Sua obra é objeto de estudo em universidades e é popular entre leitores que buscam poesia de alta qualidade literária. Sua recepção crítica é majoritariamente positiva, destacando-se a originalidade de seu estilo e a força de sua lírica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Carlos Nejar dialoga com grandes nomes da poesia universal e brasileira. Seu legado reside na consolidação de uma voz poética autêntica e na influência que exerce sobre poetas mais jovens. Sua poesia expandiu as fronteiras da expressão lírica no Brasil e continua a ser uma referência importante na literatura nacional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Carlos Nejar é frequentemente analisada sob a ótica da sua dimensão filosófica e existencial. Críticos destacam a forma como ele aborda a fragilidade da condição humana, a passagem do tempo e a busca por transcendência. Sua obra oferece um terreno fértil para interpretações que exploram a relação entre o eu, o outro e o universo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora a obra de Nejar seja seu principal foco de divulgação, é possível que aspectos de sua personalidade e de sua rotina de escrita revelem facetas menos conhecidas de sua criação poética. A dedicação à advocacia ao lado da poesia é um exemplo de sua versatilidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em plena atividade literária, a questão da morte e da memória é um tema recorrente em sua obra, mas não se aplica à sua própria biografia, pois o autor permanece vivo e ativo.

Poemas

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Considerações sobre a Morte e seus Hábitos

I Visitante insólita


A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.

Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.

Limpa nos parece:
arroio, lebre.

O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.

Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?

Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?

Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.

O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.

E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.
Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.


Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.241-242. (Poiesis)

NOTA: Poema composto de 5 partes: II. Disciplina; III. Da roupa final; IV. Do hábito; V. Sepultament
1 048

Purificação

Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.

Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.

Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.
A alma! Que o ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!

Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!

O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.

Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!


Publicado no livro Ordenações (1969). Poema integrante da série Ordenação Primavera: Regate.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.262-263. (Poiesis
873

O Poder Está Solto

O poder está solto
É um louco nas ruas
um louco maneiroso
nos palácios
e governamental
perto da aurora
Mas esta é de jardins
impressões digitais cárceres
sujos violências
no arame de secar
e secretos rancores

América da aurora
onde colhi
o cravo de teu nome
E te guardo
em sobressalto
e corro amedrontado
pelo peito

O poder está solto
casa a casa
ou nas armas
de um reino precavido

Está no telefone
ouvindo o amor
e o suspeitoso ar
de quem vigia
pelas telhas
subornos de vontade
ou de fé silenciosa

América era um pátio
onde retive
meu amor
nos lábios

O poder nos julgou
e o desvendado mundo
em nós
Está solto o poder
— é um animal

América semeada
no relincho
de um cavalo

Como prender o mar
senão na praia?

América do mar
que me banhava

O poder só se prende
quando morde
ou alastra seu recado

América eu escavo
outra América
eu escavo
as florestas
este medo
eu escavo
os remendos
da história
escavo escavo
o escravo
que mói
a palma
de meus sonhos

eu escavo
o teu abismo

e o ritmo
do que te chama

Não há coração
igual ao teu

E te escavo

Não há poder
Apenas cúmplices


Publicado no livro Um país o coração (1980).

In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.65-6
957

Ganho

Dos deuses
não espero soldo, nem reses.
De ganho, só meus proventos;
De ganho, o que esbanjo ao vento.
De ganho o que cava a pá
De ganho o que faz a paz.
De ganho o que a morte dá,
Dia a dia, ano a ano.

Neles não ponho linhas ou malhas
como a peixes.
Ponho luz e ponho tento;
nenhum lucro lanço em dados.

Qual a réstia que os distingue?
Qual a torre? Qual o sino?
Vestem blusas, vestem nuvens?
São humanos ou divinos?
De que tempo o seu declive?
De que sarro?

Dos deuses não espero soldo, nem reses.
Só lhes ganho o não rendido,
o obscuro, o solo virgem,
onde parte deles vive
e outra parte se redime.

1 107

Os Meus Sentidos

Um dia
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.

E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.

Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,

a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.

1 523

Cantata em Rodas Plumas

O amor
armou a clava
da tarde e seu alarme.
Quer, albatroz, levar-me
onde alcançam suas asas.

Vem, ditoso, acordar-me.
Quer nos levar nas rodas
das plumas e avalanches.
Nós chegaremos antes

com jubilosas almas,
que se absorvem, alvas
e salvas, nos redutos.
De céu a céu, conceitos

são cinzas e ferrugem.
E os que se amam, pungem
de amar, e mais amando
em gozo, em gozo, em bombo

ou nos vestígios, nuvens;
nos elos desta lava.
Em mais amor solvemos
o que se faz pequeno.

E humano: abismo, abismo.
1 206

Testamento

Testamento
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.

Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.

Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.

Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.

O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.

Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.

Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.

1 124

Construção da Noite

No casulo
há um homem
Mas o fundo é o outro lado;
No casulo de seu tempo
Há um homem
Mas o fundo é o outro lado.
É o casulo
Onde o homem foi achado
Mas o fundo é o outro lado.
É o terreno
Onde o homem foi lavrado
Mas o fundo é o outro lado.
É a treva
onde o homem foi fechado
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio
De um homem soterrado
Mas o fundo é o outro lado
Mas o fundo é o outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto
É a infância que cresce sobre o morto,
É o sol que madruga no seu rosto,
É um homem que salta do sol-posto
E convoca outros homens para o sonho.
E mistura-se á terra
E mistura-se ao sonho
E o canto recomeça além do sonho,
Além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado.

Mas o fundo principia
Sem passado,
Sem os montes, sem os barcos,
Sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado,
Tua terra verdadeira é o outro lado,
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa
Tudo cessa
Tudo cessa
Mas o mundo
é o outro lado
que começa
962

Livro do Sol - 1

As coisas
existem além delas,
não padecem, nem sofrem
mas existem
e projetam a sombra nas janelas.

Penetrar a substância que as anima
como a noite as embala no seu ventre,
como a noite as concentra e precipita,
não tem asas, nem plumas,
só silêncio
sonoro como as algas,
só silêncio
de astros
na caverna.

As coisas
nos prendem
junto a elas,
nos contemplam,
nos amam
mas nos prendem
e ficamos calados
na amurada
vendo as coisas
pensarem
no que somos.
1 050

Clara Onda

Este amor em meadas e triciclos
que nunca se divide, confluindo
e torna noite, este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.

Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.

Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.

Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.
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