Lista de Poemas

As Andorinhas de Antônio Nobre

—Nos
—fios
—ten
sos

—da
—pauta
—de me-
tal

—as
— an/
do/
ri/
nhas
—gri-
tam

—por
—fal/
ta/
—de u-
ma
—cl'a-
ve
—de
—sol


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.66. Poema integrante da série Xilogravuras
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Serenata Sintética

Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.


Publicado no livro Um dia depois do outro, 1944/1946 (1947).

In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.27
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A Rua

Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não,
[apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da
[espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


Publicado no livro Um dia depois do outro, 1944/1946 (1947).

In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.26
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Meus Oito Anos

No tempo de pequenino
eu tinha medo da cuca
velhinha de óculos pretos
que morava atrás da porta...
Um gato a dizer currumiau
de noite na casa escura...
De manhã, por travessura,
pica-pau, pica-pau.

Quando eu era pequenino
fazia bolotas de barro
que punha ao sol pra secar.
Cada bolota daquela,
dura, redonda, amarela,
jogada com o meu certeiro
bodoque de guatambu
matava canário, rolinha,
matava inambu.

Quando eu era pequenino
vivia armando arapuca
pra caçar "vira" e urutau.
Mas de noite vinha a cuca
com o seu gato currumiau...
Como este menino é mau!

Rolinha caiu no laço...
Ia contar, não conto não.
Como batia o coração
daquele verde sanhaço
na palma da minha mão!

Ah! se eu pudesse, algum dia,
caçar a vida num poema,
em seu minuto de dor
ou de alegria suprema,
que bom que pra mim seria
ter a vida em minha mão
pererecando de susto
como um sanhaço qualquer
na grade de um alçapão!

Mas... de noite vinha a cuca
(e por sinal que a noite parecia uma arapuca
com grandes pássaros de estrelas)
vinha com o gato currumiau:
menino mau, menino mau,
meninomaumeninomau.

Na minha imaginação
ficou pra sempre o pica-pau.

Pica-pau batendo o bico
numa casca de pau.
Pica-pau, pau-pau.

Currumiau miando de noite...
Currumiau, miau-miau.


In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
3 816

Café-Expresso

1

Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.

E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...

Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.

E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.

E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...

Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...

2

Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.

Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...

Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!

Imagem - 00700005


In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
4 514

João, o Telegrafista

I

João telegrafista.
Nunca mais que isso,
estaçãozinha pobre
havia mais árvores pássaros
que pessoas.
Só tinha coração urgente.
Embora sem nenhuma
promoção.
A bater a bater sua única
tecla.

Elíptico, como todo
telegrafista.
Cortando flores preposições
para encurtar palavras,
para ser breve na necessidade.
Conheceu Dalva uma Dalva
não alva sequer matutina
mas jambo, morena.
Que um dia fugiu — único
dia em que foi matutina —
para ir morar cidade grande
cheia luzes jóias.
História viva, urgente.

Ah, inutilidade alfabeto Morse
nas mãos João telegrafista
procurar procurar Dalva
todo mundo servido telégrafo.
Ah, quando envelhece,
como é dolorosa urgência!
João telegrafista
nunca mais que isso, urgente.

II

Por suas mãos passou mundo,
mundo que o fez urgente,
elíptico, apressado, cifrado.
Passou preço do café.
Passou amor Eduardo
VIII, hoje duque Windsor.
Passou calma ingleses sob
chuva de fogo. Passou
sensação primeira bomba
voadora.
Passaram gafanhotos chineses,
flores catástrofes.
Mas, entre todas as coisas,
passou notícia casamento Dalva
com outro.

João telegrafista
o de coração urgente
não disse palavra, apenas
três andorinhas pretas
(sem a mais mínima intenção simbólica)
pousaram sobre
seu soluço telegráfico.

Um soluço sem endereço — Dalva —
e urgente.


Publicado no livro Poemas murais, 1947/1948 (1950).

In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.517-51
7 543

Sala de Espera

(Ah, os rostos sentados
numa sala de espera.
Um "Diário Oficial" sobre a mesa.
Uma jarra com flores.
A xícara de café, que o contínuo
vem, amável, servir aos que esperam a audiência
[marcada.

Os retratos em cor, na parede,
dos homens ilustres
que exerceram, já em remotas épocas,
o manso ofício
de fazer esperar com esperança.
E uma resposta, que será sempre a mesma: só amanhã.
E os quase eternos amanhãs daqueles rostos sempre
[adiados
e sentados
numa sala de espera.)

Mas eu prefiro é a rua.
A rua em seu sentido usual de "lá fora".
Em seu oceano que é ter bocas e pés
para exigir e para caminhar.
A rua onde todos se reúnem num só ninguém coletivo.
Rua do homem como deve ser:
transeunte, republicano, universal.

Onde cada um de nós é um pouco mais dos outros
do que de si mesmo.
Rua da procissão, do comício,
do desastre, do enterro.
Rua da reivindicação social, onde mora
o Acontecimento.

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.


Publicado no livro Um dia depois do outro, 1944/1946 (1947).

In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.263-26
4 477

Morte em Câmara de Gás

1

Tão certa a morte
que inútil marcar-lhe
uma hora exata.
Gosto da lei em ser
exata
não
apenas certa.

Nenhuma razão
pra tanto amor
ao relógio, ao
necrológio.
A data é que lhe põe
(felina) uma gota
de fel em cada
minuto.
E o mata com uma
lentidão de faca.

A justiça, olhos
fechados como os
da noite.
A câmara de gás
talvez
menos vil
se à noite.

Na cela em que o
condenado
dorme
sem data
olhos fechados
como os da justiça.

2

Ao carr'asco
se evitaria
o asco
do seu nome.


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras
2 361

Os Subvivos

III

Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.

Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.

E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?

E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
2 710

Ditirambo da Paz

quero paz
não
de pás
de cal
nem de pas-
maceira

quero paz
de pás
ao ombro
paz viva
paz
que mantém
o homem
em pé
na pers-
pectiva
do advir.

paz
de sempre
viva
muito viva
que cada um
de nós
cultiva
no peito
homem da
rua
ou na faina
do eito
lutando por
uma
madrugada
definitiva


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.49. Poema integrante da série Oscilação
2 213

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Identificação e contexto básico

Cassiano Ricardo (nome completo: Cassiano Ricardo Fernandes da Silva) foi um poeta, jornalista, crítico literário e professor brasileiro. Nasceu em 18 de abril de 1895 e faleceu em 7 de janeiro de 1974.

Infância e formação

Nascido em Campinas, São Paulo, Cassiano Ricardo teve uma infância marcada por uma educação formal que, no entanto, não limitou a sua curiosidade e o seu interesse pelas artes e pelas letras. A sua formação intelectual foi em grande parte autodidata e moldada pelo contexto cultural e social do Brasil no início do século XX.

Percurso literário

Cassiano Ricardo foi um dos expoentes da segunda fase do Modernismo brasileiro. Iniciou sua carreira literária publicando poemas em jornais e revistas. Foi um dos fundadores da revista "Klaxon" (1922), publicação seminal do movimento modernista em São Paulo, que divulgou as novas tendências artísticas e literárias. Sua obra evoluiu de uma poesia inicial mais lírica para uma abordagem mais engajada e crítica, refletindo as transformações sociais e políticas do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais importantes de Cassiano Ricardo incluem "Martim Cererê" (1925), "O Sangue das Horas" (1930), "Objetos e Lendas" (1931) e "Poemas de Amor e de Sonho" (1949). A sua poesia é caracterizada pela experimentação formal, com o uso do verso livre, a incorporação de coloquialismos e a exploração de temas como a identidade nacional, a paisagem brasileira, a urbanização, o progresso tecnológico e a crítica social. Buscou uma "poesia brasileira autêntica", valorizando elementos da cultura e da história do país.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cassiano Ricardo viveu e produziu durante um período de intensa efervescência cultural no Brasil, especialmente durante o Modernismo. Foi contemporâneo de outros grandes nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Participou ativamente dos debates e manifestações do movimento modernista, defendendo uma arte voltada para a realidade brasileira e rompendo com os padrões estéticos do passado.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de sua carreira literária, Cassiano Ricardo dedicou-se ao jornalismo e ao ensino. Foi professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP). Manteve relações próximas com outros intelectuais do seu tempo, participando de círculos literários e culturais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Cassiano Ricardo é reconhecido como um dos poetas mais importantes do Modernismo brasileiro. Sua obra foi fundamental para a consolidação de uma identidade poética nacional, valorizando a linguagem e os temas brasileiros. Recebeu diversas homenagens e seu trabalho é estudado em escolas e universidades.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado pelas vanguardas europeias e pela poesia brasileira anterior, Cassiano Ricardo, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas com sua proposta de uma poesia que dialogasse com a realidade social e cultural do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Cassiano Ricardo é analisada pela sua capacidade de fundir a experimentação formal com a preocupação temática sobre o Brasil. Sua poesia é vista como um reflexo das transformações da sociedade brasileira e uma busca por uma expressão autêntica da identidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Cassiano Ricardo foi um dos idealizadores do conceito de "descoberta do Brasil" no contexto modernista, propondo um olhar renovado sobre a história e a cultura do país.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cassiano Ricardo faleceu em São Paulo, deixando um legado poético e crítico de grande relevância para a literatura brasileira. Sua obra continua a ser lida e estudada, mantendo a sua importância no cânone literário do país.