Cecília Meireles

Cecília Meireles

1901–1964 · viveu 63 anos BR BR

Cecília Meireles foi uma das mais importantes poetisas da língua portuguesa, com uma obra marcada pela musicalidade, pela delicadeza lírica e pela exploração de temas como o tempo, a efemeridade, a infância e a busca pela transcendência. A sua poesia, influenciada pelo simbolismo e pelo modernismo, caracteriza-se pela sua aparente simplicidade, mas com profunda complexidade filosófica e existencial. Com uma vasta produção literária que inclui poesia, contos, crónicas e literatura infantil, Cecília Meireles deixou um legado poético inigualável, celebrando a beleza do mundo e a fragilidade da existência com uma linguagem cristalina e imaginativa.

n. 1901-11-07, Rio de Janeiro · m. 1964-11-09, Rio de Janeiro

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Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Cecília Benevides de Carvalho Meireles, conhecida como Cecília Meireles, foi uma das mais proeminentes poetisas da literatura brasileira. Nasceu no Rio de Janeiro. A sua família tinha origens em Portugal. Foi escritora, professora, jornalista, musicista e pintora. Escreveu em português e a sua obra está intrinsecamente ligada ao contexto cultural e histórico do Brasil durante a primeira metade do século XX, um período de efervescência modernista.

Infância e formação

Cecília Meireles teve uma infância marcada pela perda precoce dos pais e pela criação pela avó, em um ambiente que estimulou o seu amor pelos livros e pela arte. Foi uma criança precoce, que aprendeu a ler aos três anos e escreveu o seu primeiro livro de poemas aos dezessete. Sua formação foi em grande parte autodidata, embora tenha tido formação em música e pedagogia. Absorveu influências da literatura simbolista francesa e da poesia brasileira de sua época.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se com a publicação de "I Juca-Pirama" (uma adaptação em verso de uma obra de Gonçalves Dias) em 1920. Contudo, o seu primeiro livro de poemas original, "O Espírito da Hora", foi publicado em 1927. A sua obra evoluiu desde um lirismo mais intimista e melancólico até uma poesia de profunda reflexão filosófica sobre o tempo e a existência. Cecília Meireles foi também professora de literatura e história da literatura, e dedicou-se a trabalhos pedagógicos e de divulgação cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais importantes estão "Viagem" (1939), "Romanceiro da Inconfidência" (1953) e "Ou Isto ou Aquilo" (1964). Os temas centrais da sua poesia incluem a transitoriedade da vida, a efemeridade do tempo, a memória, a infância, a beleza do mundo natural e a busca pela transcendência. O seu estilo é marcado pela musicalidade, pela clareza da linguagem, pela delicadeza das imagens e pela profundidade dos sentimentos. Frequentemente utilizou o verso livre, mas com um rigor formal e uma cadência que remetem à tradição. O tom da sua poesia pode variar entre o lírico e o elegíaco, o contemplativo e o narrativo. A sua linguagem é cristalina, mas rica em sugestões e simbolismos. Cecília Meireles é frequentemente associada ao Modernismo brasileiro, mas com uma voz muito própria, que soube conciliar as inovações da época com uma sensibilidade lírica atemporal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cecília Meireles viveu e produziu sua obra em um período de grande efervescência cultural no Brasil, participando ativamente do movimento modernista, embora mantendo uma individualidade poética marcante. Sua obra dialoga com o contexto social e político do país, mas sua principal preocupação sempre foi a dimensão humana e existencial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Cecília Meireles casou-se duas vezes e teve três filhas. Dedicou-se à educação, tendo sido professora de literatura e história da literatura por muitos anos. Sua vida foi marcada por uma busca constante por conhecimento e pela expressão artística, conciliando sua carreira literária com atividades pedagógicas e de pesquisa. Era uma pessoa reservada e de grande profundidade espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Cecília Meireles é amplamente reconhecida como uma das maiores poetisas da literatura brasileira e lusófona. Recebeu diversos prêmios literários ao longo de sua carreira e sua obra é estudada em universidades de todo o mundo. Sua popularidade perdura, sendo lida e apreciada por diferentes gerações de leitores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Fernando Pessoa, Cruz e Sousa e simbolistas franceses, Cecília Meireles, por sua vez, influenciou incontáveis poetas brasileiros e de língua portuguesa. Seu legado reside na sua poesia de inegável beleza formal e profunda carga existencial, que continua a encantar e a inspirar.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Cecília Meireles tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que destacam sua maestria na exploração do tempo, da memória e da efemeridade. Sua poesia é vista como um convite à contemplação da vida e à reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Cecília Meireles possuía uma memória prodigiosa e era fluente em diversas línguas. Sua paixão por livros era tão grande que ela chegou a fundar a primeira biblioteca comunitária do Brasil. Sua obra "Ou Isto ou Aquilo" é um clássico da literatura infantil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cecília Meireles faleceu em 1964, no Rio de Janeiro. Sua morte foi lamentada por toda a comunidade literária e cultural. Sua obra continua a ser publicada e celebrada, mantendo sua memória viva e seu legado poético perene.

Poemas

65

Gargalhada

Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.

8 927

Lamento do Oficial por seu Cavalo Morto

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado - melhor que nós todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...

Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...

Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!

(in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.)

8 365

O canteiro está molhado

O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.
Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.
Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."

6 897

A Pombinha da Mata

Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.

"Eu acho que ela está com fome",
disse o primeiro,
"e não tem nada para comer."

Três meninos na mata ouviram
uma pombinha carpir.

"Eu acho que ela ficou presa",
disse o segundo,
"e não sabe como fugir."

Três meninos na mata ouviram
uma pombinha gemer.

"Eu acho que ela está com saudade",
disse o terceiro,
"e com certeza vai morrer."

11 863

Herança

Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

9 034

Coliseu

Cem mil pupilas houve:
— cem mil pupilas fitas na arena.
Os olhos do Imperador, dos patrícios,
dos soldados, da plebe.

Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.

E os olhos da fera acossada,
do lado oposto.
Os olhos que ainda brilham fulvos,
agora, na eternidade igual de todos.

Cem mil pupilas:
— ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas,
vagas, severas, lânguidas . . .
Cem mil pupilas vêem-se, na poeira da pedra deserta.

Entre corredores e escadas,
o cavo abismo do úmido subsolo
exala os soturnos prazeres da antiguidade:

Um vozeiro arcaico vem saindo da sombra,
— ó duras vozes romanas! —
um quente sangue vem golfando,
— ó negro sangue das feras!
um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.
— Ó surdo nome trêmulo da morte!

(Não cairão jamais estas paredes,
pregadas com este sangue e este rugido,
a garra tensa, a goela arqueada em vácuo,
as cordas do humano pasmo sobre o último estertor . . .)

Cem mil pupilas ficam aqui,
pregadas nas pedras do tempo,
manchadas de fogo e morte,
no fim do dia trágico,
depois daquela ávida e acesa coincidência
quando convergiram nesta arena de angústia,
que hoje é pó e silêncio,
esboroada solidão.

(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.
E os sorrisos perderam-se, fúteis.
Sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma dos cosméticos?)

7 499

Presença em Pompéia

Esta conta não pagarás:
— ficará sob uma cinza que não sabes.

Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.

Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.

Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhã não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.

Tu ficarás com a chave da tua porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;
os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.

As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato dágua:
— a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.

6 968

Romance XXI ou das Idéias

A vastidão desses campos.
A alta muralha das serras.
As lavras inchadas de ouro.
Os diamantes entre as pedras.
Negros, índios e mulatos.
Almocrafes e gamelas.

Os rios todos virados.
Toda revirada, a terra.
Capitães, governadores,
padres intendentes, poetas.
Carros, liteiras douradas,
cavalos de crina aberta.
A água a transbordar das fontes.
Altares cheios de velas.
Cavalhadas. Luminárias.
Sinos, procissões, promessas.
Anjos e santos nascendo
em mãos de gangrena e lepra.
Finas músicas broslando
as alfaias das capelas.
Todos os sonhos barrocos
deslizando pelas pedras.
Pátios de seixos. Escadas.
Boticas. Pontes. Conversas.
Gente que chega e que passa.
E as idéias.

Amplas casas. Longos muros.
Vida de sombras inquietas.
Pelos cantos da alcovas,
histerias de donzelas.
Lamparinas, oratórios,
bálsamos, pílulas, rezas.
Orgulhosos sobrenomes.
Intrincada parentela.
No batuque das mulatas,
a prosápia degenera:
pelas portas dos fidalgos,
na lã das noites secretas,
meninos recém-nascidos
como mendigos esperam.
Bastardias. Desavenças.
Emboscadas pela treva.
Sesmarias, salteadores.
Emaranhadas invejas.
O clero. A nobreza. O povo.
E as idéias.

E as mobílias de cabiúna.
E as cortinas amarelas.
Dom José. Dona Maria.
Fogos. Mascaradas. Festas.
Nascimentos. Batizados.
Palavras que se interpretam
nos discursos, nas saúdes . . .
Visitas. Sermões de exéquias.
Os estudantes que partem.
Os doutores que regressam.
(Em redor das grandes luzes,
há sempre sombras perversas.
Sinistros corvos espreitam
pelas douradas janelas.)
E há mocidade! E há prestígio.
E as idéias.

As esposas preguiçosas
na rede embalando as sestas.
Negras de peitos robustos
que os claros meninos cevam.
Arapongas, papagaios,
passarinhos da floresta.
Essa lassidão do tempo
entre imbaúbas, quaresmas,
cana, milho, bananeiras
e a brisa que o riacho encrespa.
Os rumores familiares
que a lenta vida atravessam:
elefantíase; partos;
sarna; torceduras; quedas;
sezões; picadas de cobras;
sarampos e erisipelas . . .
Candombeiros. Feiticeiros.
Ungüentos. Emplastos. Ervas.
Senzalas. Tronco. Chibata.
Congos. Angolas. Benguelas.
Ó imenso tumulto humano!
E as idéias.

Banquetes. Gamão. Notícias.
Livros. Gazetas. Querelas.
Alvarás. Decretos. Cartas.
A Europa a ferver em guerras.
Portugal todo de luto:
triste Rainha o governa!
Ouro! Ouro! Pedem mais ouro!
E sugestões indiscretas:
Tão longe o trono se encontra!
Quem no Brasil o tivera!
Ah, se Dom José II
põe a coroa na testa!
Uns poucos de americanos,
por umas praias desertas,
já libertaram seu povo
da prepotente Inglaterra!
Washington. Jefferson. Franklin.
(Palpita a noite, repleta
de fantasmas, de presságios . . .)
E as idéias.

Doces invenções da Arcádia!
Delicada primavera:
pastoras, sonetos, liras,
— entre as ameaças austeras
de mais impostos e taxas
que uns protelam e outros negam.
Casamentos impossíveis.
Calúnias. Sátiras. Essa
paixão da mediocridade
que na sombra se exaspera.
E os versos de asas douradas,
que amor trazem e amor levam . . .
Anarda. Nise. Marília . . .
As verdades e as quimeras.
Outras leis, outras pessoas.
Novo mundo que começa.
Nova raça. Outro destino.
Planos de melhores eras.
E os inimigos atentos,
que, de olhos sinistros, velam.
E os aleives. E as denúncias.
E as idéias.

10 629

Por que nome chamaremos

Por que nome chamaremos
quando nos sentirmos pálidos
sobre os abismos supremos?

De que rosto, olhar, instante,
veremos brilhar as âncoras
para as mãos agonizantes?

Que salvação vai ser essa,
com tão fortes asas súbitas,
na definitiva pressa?

Ó grande urgência do aflito!
Ecos de misericórdia
procuram lágrima e grito,

– andam nas ruas do mundo,
pondo sedas de silêncio
em lábios de moribundo.

11 049

Suavíssima

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .

Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

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Comentários (27)

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gyetry

lindo

Fantástico, belo como uma solidão estrelar, pois como disse a dor é de origem divina.

Isso é a roda do mundo ... ao qual ela se equilibra, em versos muito simples; para terminar em uma asa de borboleta.

aquileus
aquileus

gostei muito dos poemas delas maravilhoso amei muito cara

duda
duda

maravilhosso