Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

n. 1963 BR BR

Cida Pedrosa é uma poeta e escritora brasileira, reconhecida pela sua obra que explora temas como a ancestralidade, a identidade, a memória e a condição feminina, com forte inspiração na cultura afro-brasileira e nas paisagens do Nordeste. Com uma linguagem rica em imagens e musicalidade, a sua poesia transita entre o pessoal e o coletivo, o mítico e o real, estabelecendo um diálogo profundo com as suas raízes. A sua obra tem sido amplamente divulgada e premiada, consolidando-a como uma voz contemporânea importante na literatura brasileira.

n. 1963-10-18, Bodocó

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Urbe

hoje na minha boca
não cabem girassóis

cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe

um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril

um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem

hoje na minha boca
cabe apenas o poema

o poema hóspede da agonia
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Biografia

Identificação e contexto básico

Cida Pedrosa é uma poetisa e escritora brasileira. Nasceu em 14 de fevereiro de 1960, em São Lourenço da Mata, Pernambuco.

Infância e formação

Cida Pedrosa cresceu em Pernambuco, numa região marcada pela riqueza cultural e pelas fortes tradições do Nordeste brasileiro. Essa vivência moldou profundamente a sua sensibilidade e a sua escrita, inspirando-a a explorar temas como a ancestralidade, a memória e a identidade.

Percurso literário

O percurso literário de Cida Pedrosa é marcado pela sua dedicação à poesia, onde aprofunda temas ligados à sua origem, à cultura afro-brasileira e à condição feminina. A sua obra tem conquistado reconhecimento em diversos concursos literários e tem sido publicada em antologias e revistas literárias, tanto no Brasil quanto no exterior.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Cida Pedrosa é caracterizada por uma forte conexão com as suas raízes culturais e a ancestralidade. Explora temas como a identidade negra, a memória coletiva, a espiritualidade e as paisagens do Nordeste brasileiro. A sua linguagem poética é rica em imagens, musicalidade e sensibilidade, evocando as tradições e a força do povo nordestino. O seu estilo é ao mesmo tempo lírico e engajado, transitando entre o pessoal, o mítico e o social. O tom da sua voz poética é forte, resiliente e profundamente conectado com a sua identidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cida Pedrosa insere-se no panorama da literatura contemporânea brasileira, especialmente aquela que se debruça sobre as questões de identidade racial, cultural e de género. A sua obra dialoga com a rica tradição literária do Nordeste e com os movimentos que celebram e reavaliam a herança africana no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Poucas informações detalhadas sobre a vida pessoal de Cida Pedrosa são de domínio público, mas a sua obra sugere uma forte ligação com a sua terra natal e com as experiências vividas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Cida Pedrosa tem recebido diversos prémios e reconhecimentos pela sua obra poética, destacando-se a sua participação em antologias importantes e a publicação dos seus livros. É considerada uma voz contemporânea relevante na poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra inspira-se nas tradições culturais e espirituais afro-brasileiras, bem como na poesia que aborda a ancestralidade e a identidade. O seu legado reside na forma como articula a memória, a identidade e a paisagem numa linguagem poética potente e singular, enriquecendo a literatura brasileira com a sua perspetiva.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Cida Pedrosa é frequentemente analisada pela sua capacidade de resgatar e celebrar a cultura afro-brasileira, a força feminina e a resiliência face às adversidades. A crítica destaca a sua habilidade em tecer narrativas poéticas que conectam o passado ao presente, o individual ao coletivo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos específicos da vida pessoal ou curiosidades menos conhecidas sobre Cida Pedrosa não são amplamente divulgados, mas a sua obra é um reflexo vivo da sua identidade e da sua herança cultural.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cida Pedrosa está viva e continua a sua produção literária, sendo uma figura ativa e respeitada no cenário literário brasileiro.

Poemas

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Urbe

hoje na minha boca
não cabem girassóis

cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe

um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril

um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem

hoje na minha boca
cabe apenas o poema

o poema hóspede da agonia
866

DIFERENÇA

meu amor ouve fado
não rodopia
apenas baila e espreita.

eu gosto de tango.

minha mãe sempre diz:
seus olhos são trágicos.
759

o sol anestesia

o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
686

O surfista

um tempo

passa kombi
passa corpo
passa poste
passa árvore
e o menino pendurado na lanterna

dois tempos

passa moto
passa morte
passa gente
passa carro
e o menino pendurado na flanela

três tempos

passa ônibus-bicicleta-caminhão
pega brisa
pega onda
pirueta — flamboaiã
flexão — fio de cobre
e o menino pendurado na banguela

passa a via
passa o vulto
passa a vida
passa o passo
paira o ar
               sangue e vidro
683

O ORIENTE DA CIDADE

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas

entre pombos e putas construí poemas

a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe

entre putas e pombos construí poemas
784

fotografia de guerra

o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema

a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema

as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
917

diáspora

abro os olhos
e a quarta-feira é cinza

as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel

é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício

diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão

sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão

abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto

a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
834

a mulher virou homem

: a mulher virou homem o trabalho
e a desigualdade por baixo da saia: trouxa
na cabeça camisa cáqui de mangas compridas
chapéu de palha quartinha de cabaça e só

calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
calça comprida por baixo da saia
815

sombreiro

sombreiro braseiro sombreiro braseiro sombreiro
eiro eiro eiro eito eito eito sombreiro braseiro
sombreiro sombrabrasil sombrabobrasil
sombrabobrasilis brasilis brasilis
brasilis brasilis brasilis
sombrasilis silis
silis silis
sil sil sil
lis
lis
lis
somsemeiranembeira
686

ladainha para alberto da cunha melo

para a alma do poeta que se foi
eu rogo ao poema que componha o silêncio

para a alma do sertanejo que se foi
eu rogo ao poema que se empalhe em chuva

para a alma da criança que se foi
eu rogo ao poema que confeite a vida

para a alma da negra que se foi
eu rogo ao poema que se emplume em pássaro

para a alma do pobre que se foi
eu rogo ao poema que petrifique o pão

para a alma do revolucionário que se foi
eu rogo ao poema que ampute o sonho

para a alma do músico que se foi
eu rogo ao poema que dedilhe o chão

para a alma do filho que se foi
eu rogo ao poema que psicografe a falta

para a alma do palhaço que se foi
eu rogo ao poema que reinvente a cor

para alma da mulher que se foi
eu rogo ao poema que alcance as asas

para a alma do poema que se foi
eu rogo à poesia que borde os sentidos

para a alma do verso que se foi
eu rogo à palavra que se parta em várias

para a alma da palavra que se foi
eu rogo ao poeta que se ajoelhe e crie
962

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