Cora Coralina

Cora Coralina

1889–1985 · viveu 95 anos BR BR

Cora Coralina foi uma poeta brasileira, conhecida pela sua poesia que retrata o cotidiano do interior de Goiás e as memórias de sua vida. Sua obra, marcada pela simplicidade e pela sabedoria popular, aborda temas como a família, o trabalho, a natureza e a passagem do tempo, com uma linguagem acessível e profunda. É considerada uma das vozes mais autênticas e representativas da poesia brasileira do século XX, tendo alcançado reconhecimento tardio, mas consolidado, por sua contribuição literária.

n. 1889-08-20, Goiás · m. 1985-04-10, Goiânia

207 383 Visualizações

Poema do Milho

Milho . ..
Punhado plantado nos quintais.
Talhões fechados pelas roças.
Entremeado nas lavouras,
Baliza marcante nas divisas.
Milho verde. Milho seco .
Bem granado, cor de ouro.
Alvo. às vezes vareia,
- espiga roxa, vermelha, salpintada.

Milho virado, maduro, onde o feijão enrama
Milho quebrado, debulhado
na festa das colheitas anuais.

Bandeira de milho levada para os montes
largada pelas roças:
Bandeiras esquecidas na fartura.
Respiga descuidada
dos pássaros e dos bichos.

Milho empaiolado .
abastança tranqüila
do rato,
do caruncho.
do cupim.
Palha de milho para o colchão.
Jogada pelos pastos.
Mascada pelo gado.
Trançada em fundos de cadeiras.

Queimada nas coivaras.
Leve mortalha de cigarros.
Balaio de milho trocado com o vizinho
no tempo da planta.
"- Não se planta, nos sítios, semente da mcsma terra".

Ventos rondando, redemoinhando.
Ventos de outubro.

Tempo mudado. Revôo de saúva.
Trovão surdo, tropeiro.
Na vazante do brejo, no lameiro,
o sapo-fole, o sapo-ferreiro, o sapo-cachorro.
Acauã de rnadrugada
marcando o tempo, chamando chuva.
Roça nova encoivarada,
começo de brotação.
Roça velha destocada.
Palhada batida, riscada de arado.
Barrufo de chuva.
Cheiro de terra; cheiro de mato,
Terra molhada, Terra saroia.
Noite chuvada, relampeada.
Dia sombrio. Tempo mudado, dando sinais.
Observatório: lua virada. Lua pendida . . .
Circo amarelo, distanciado,
marcando chuva.
Calendário, Astronomia do lavrador.

planta de milho na lua-nova.
Sistema velho colonial.
Planta de enxada.
Seis grãos na cova,
quatro na regra, dois de quebra.
Terra arrastada com o pé ,
pisada, incalcada, mode os bichos.

Lanceado certo-cabo-da-enxada..
Vai, vem . . . sobe, desce . . .
terra molhada, terra saroia . . .
Seis grãos na cova; quatro na regra, dois de quebra
Sobe. Desce . , .
Camisa de riscado, calça de mescla
Vai, vem . . .
golpeando a terra, o plantador.

Na sombra da moita,
na volta do toco - o ancorote dágua:

Cavador de milho, que está fazendo?
A que milênios vem você plantando.
Capanga de grãos dourados a tiracolo.
Crente da Terra, Sacerdote da terra.
Pai da terra.
Filho da terra.
Ascendente da terra.
Descendente da terra.
Ele; mesmo; terra.

Planta com fé religiosa.
Planta sozinho, silencioso.
Cava e planta.
Gestos pretéritos, imemoriais..
Oferta remota; patriarcal.
Liturgia milenária.
Ritual de paz.
Em qualquer parte da Terra
um homem estará sempre plantando ,
recriando a Vida.
Recomeçando o Mundo.

Milho plantado; dormimdo no chão, aconchegados
seis grãos na cova.
Quatro na regra, dois de quebra.
Vida inerte que a terra vai multiplicar

Evém a perseguìção:
o bichinho anônimo que espia, pressente.
A formiga-cortadeira - quenquém.
A ratinha do chão, exploradeira.
A rosca vigilante na rodilha,
O passo-preto vagabundo, galhofeiro,
vaiando, sorrindo . . .
aos gritos arrancando, mal aponta.
O cupim clandestino
roendo, minando,
só de ruindade.

E o miho realiza o milagre genético de nascer:
Germina. Vence os inimigos,
Aponta aos milhares.
- Seis grãos na cova.
- Quatro na regra, dois de quebra,
Um canudinho enrolado.
Amarelo-pálido,
frágil, dourado, se levanta.
Cria sustância.
Passa a verde.
Liberta-se. Enraíza,
Abre folhas espaldeiradas.
Encorpa. Encana. Disciplina,
com os poderes de Deus.

Jesus e São João
desceram de noite na roça ,
botaram a bênção no milho,
E veio com eles
uma chuva maneira, criadeira, fininha,
uma chuva velhinha,
de cabelos brancos,
abençoando
a infância do milho.

O mato vem vindo junto,
Sementeira.

As pragas todas, conluiadas.
Carrapicho. Amargoso. Picão.
Marianinha. Caruru-de-espinho.
Pé-de-galinha. Colchão.
Alcança, não alcança.
Competição.
Pac . . . Pac . . . Pac . . .
a enxada canta.
Bota o mato abaixo.
arrasta uma terrinha para o pé da planta.
"...- Carpa bem feita vale por duas . . ."
Quando pode. Quando não... sarobeia.
Chega terra O milho avoa.

Cresce na vista dos olhos.
Aumenta de dia. Pula de noite.
Verde Entonado, disciplinado, sadio.

Agora ...
A lagarta da folha,
lagarta rendeira . . .
Quem é que vê ?
Faz a renda da folha no quieto da noite.
Dorme de dia no olho da planta,
Gorda; Barriguda. Cheia.
Expurgo : . . nada . . . força da lua . . ,
Chovendo acaba - a Deus querê.

" O mio tá bonito ... "
"-Vai sê bão o tempo pras lavoras todas . "
"- O mio tá marcando . . . "
Condieionando o futuro:
"- O roçado de seu Féli tá qui fais gosto ...
Um refrigério "
"- O mio lá tá verde qui chega a star azur..."
- Conversam vizinhos e compadres.

Milho crescendo, garfando,
esporando nas defesas...

Milho embandeirado.
Embalado pelo vento.

"Do chão ao pendão, 60 dias vão".

Passou aguaceiro, pé-de-vento.
" - O milho acamou . . . " "- Perdido?" . . . Nada...
Ele arriba com os poderes de Deus .. . "
E arribou mesmo; garboso, empertigado, vertical

No cenário vegetal
um engraçado boneco de frangalhos
sobreleva, vigilante.
Alegria verde dos periquitos gritadores . . .
Bandos em sequência . . . Evolução . . .
Pouso . . . retrocesso.

Manobras em conjunto.
Desfeita formação.
Roedores grazinando, se fartando,
foliando, vaiando
os ingênuos espantalhos.

"Jesus e São João
andaram de noite passeando na lavoura
e botaram a bênção no milho" .
Fala assim gente de roça e fala certo.
Pois não está lá na taipa do rancho
o quadro deles, passeando dentro dos trigais?
Analogias . . . Coerências.

Milho embandeirado
bonecando em gestação.
- Senhor! . . . Como a roça cheira bem !
Flor de milho, travessa e festiva.
Flor feminina, esvoaçante, faceira.
Flor masculina - lúbrica, desgraciosa.

Bonecas de milho túrgidas,
negaceando, se mostrando vaidosas.
Túnicas, sobretúnicas . . .
saias, sobre-saias . . .
Anáguas . . . camisas verdes.
Cabelos verdes . . .
~Cabeleiras soltas, lavadas, despenteadas. . .
- O milharal é desfile de beleza vegetal.

Cabeleiras vermelhas, bastas, onduladas.
Cabelos prateados, verde-gaio.
Cabelos roxos, lisos, encrespados.
Destrançados.
Cabelos compridos, curtos,
queimados, despenteados .
Xampu de chuvas . . .
Flagrâncias novas no milharal.
- Senhor, como a roça cheira bem! . . .

As bandeiras altaneiras
vão se abrindo em formação.
Pendões ao vento.
Extravasão da libido vegetal.
procissão fálica, pagã.
Um sentido genésico domina o milharal.
Flor masculina erótica, libidinosa,
polinizando, fecundando
a florada adolescente das bonecas:

Boneca de milho, vestida de palha . . .
Sete cenários defendem o grão
Gordas, esguias, delgadas; alongadas
Cheias, fecundadas.
Cabelos soltos excitantes.
Vestidas de palha.<
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Cora Coralina é o pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Nascida em Goiás Velho, estado de Goiás, Brasil, sua obra está intrinsecamente ligada à terra goiana e às suas memórias. Sua nacionalidade é brasileira e a língua de escrita é o português. Viveu em um período de grandes transformações sociais e políticas no Brasil.

Infância e formação

Nascida em uma família tradicional, Cora Coralina teve uma infância marcada pelas tradições do interior de Goiás. Sua educação formal foi limitada, mas ela se tornou uma leitora voraz e autodidata, absorvendo a cultura popular e as histórias de sua região. A influência de sua terra natal e das narrativas orais moldou profundamente sua sensibilidade poética.

Percurso literário

Cora Coralina começou a escrever poesia em sua juventude, mas sua obra só ganhou projeção nacional na terceira idade. Publicou seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais", aos 75 anos. Sua poesia evoluiu de forma orgânica, refletindo as experiências de vida e a profunda conexão com suas raízes. Colaborou com jornais locais e participou de antologias regionais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Cora Coralina incluem "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais" (1980), "Vintém de Jovem" (1983), "Os Kembs" (1980), "Meninos Verdes" (1980) e "A Casa Velha da Ponte" (1985). Seus temas centrais são a vida simples, o trabalho, a família, a natureza, a passagem inexorável do tempo e a resiliência humana. Sua poesia é marcada pela forma livre, pela musicalidade e por um vocabulário rico em termos regionais e populares. O tom é frequentemente lírico, terno e sábio, com uma voz poética que emana autenticidade e experiência de vida. Sua linguagem é direta, sem artifícios excessivos, mas carregada de significado e imaginação. Introduziu uma perspectiva única sobre o cotidiano e a valorização do feminino em sua obra. É associada à tradição da poesia popular brasileira, mas com uma originalidade inconfundível.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cora Coralina viveu grande parte de sua vida em Goiás, um estado com forte identidade cultural e tradições próprias. Seu período de maior reconhecimento coincidiu com o final do século XX no Brasil, uma época de redemocratização e revalorização das culturas regionais. Embora não estivesse diretamente ligada a grandes círculos literários nacionais em sua juventude, sua obra dialogou com a redescoberta da poesia popular e regional no Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Cora Coralina casou-se jovem e teve vários filhos. Viveu uma vida marcada pelo trabalho árduo, inclusive como doceira, atividade que lhe rendeu o apelido de "Dona Corinha". Enfrentou perdas e dificuldades ao longo da vida, mas manteve sempre uma postura de resiliência e sabedoria. Sua vida pessoal, repleta de vivências simples e profundas, é a matéria-prima de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Cora Coralina veio tardiamente, mas foi imenso. Foi homenageada em diversas ocasiões e sua obra conquistou um lugar de destaque na literatura brasileira. Sua poesia é popular e acadêmica, admirada tanto pela crítica quanto pelo público em geral. Sua obra é amplamente estudada e reverenciada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Cora Coralina foi influenciada pela tradição oral, pela cultura popular goiana e pelas leituras que fez ao longo da vida. Seu legado reside na sua capacidade de transformar o cotidiano em poesia universal, valorizando as pequenas coisas e a força da vida. Influenciou gerações de poetas que buscam a autenticidade e a conexão com suas raízes. Sua obra é um convite à reflexão sobre os valores humanos e a beleza encontrada na simplicidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Cora Coralina é frequentemente interpretada como um hino à vida em sua plenitude, celebrando a resiliência, a sabedoria e a beleza do ordinário. Seus poemas convidam a uma reflexão sobre a memória, o tempo e a condição humana, com uma perspectiva profundamente humanista.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Cora Coralina dedicou-se à fabricação de doces por muitos anos, atividade que lhe garantiu sustento e inspiração. Sua casa em Goiás Velho tornou-se um museu e ponto turístico, um testemunho de sua importância. Seus manuscritos e diários revelam a profundidade de seus pensamentos e a consistência de seu olhar poético ao longo de décadas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cora Coralina faleceu em sua cidade natal, Goiás Velho. Sua memória é mantida viva através de sua obra, que continua a encantar e inspirar leitores em todo o Brasil e no mundo. Publicações póstumas e estudos sobre sua vida e obra garantem a perpetuação de seu legado.

Poemas

26

Lucros e Perdas

I

Eu nasci num tempo antigo,
muito velho,
muito velhinho, velhíssimo.

(...)

III

Fui menina do tempo antigo.
Comandado pelos velhos:
Barbados, bigodudos, dogmáticos —
botavam cerco na mocidade.
Vigilantes fiscalizavam,
louvavam, censuravam.
Censores acatados. Ouvidos.
Conspícuos.
Felizmente, palavra morta.

(...)

V

Fui moça desse tempo.
Tive meus muitos censores
intra e extra-lar.
Botaram-me o cerco.
Juntavam-se, revelavam-se
incansáveis. Boa gente.
Queriam me salvar.

VI

Revendo o passado,
balanceando a vida...
No acervo do perdido,
no tanto do ganhado
está escriturado:
" — Perdas e danos, meus acertos.
— Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos".


In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
3 746

Aquela Gente Antiga - II

Aquela gente antiga explorava a minha bobice.
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
"Senhora Jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça feia num casa
[fácil."

Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado...
"Essa boba... Chorona... Ninguém nem falou o nome dela..."
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de ilusão:
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia, moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava à minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fedegoso,
prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
e achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava boa dona de casa.


In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
4 005

Trem de Gado

E as boiadas vêm descendo do sertão!
Safra, entressafra...
Mato Grosso. Minas. Goiás.
Caminhos recruzados. Pousos espalhados.
Estradas boiadeiras. Aguada...
Pastos e gerais.
Cerrados. Cerradões.
Compáscuos...
Cercados. Aramados.
Corredores.
Nhecolândia. Pantanal.
Cochim.
Campos de Vacaria. Dourados. Maracaju.
Rio Verde.
Santana do Paranaíba. Serras do Amambaí.
Criatório...
Boiadeiros. Fazendeiros.
Comissários. Criadores.
Invernistas. Recria.
Trem de gado ronceiro...
jogando, gingando
nos cilindros, nos pistões, nas bielas e nos truques.
Rangendo, chocalhando,
estrondando nas ferragens.

(...)


In: CORALINA, Cora. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. Prefácio de J. B. Martins Ramos. Apresentação de Oswaldino Marques, Lena Castello Branco Ferreira Costa e Silvia Alessandri Monteiro de Castro. 16. ed. São Paulo: Global, 199
4 128

O Longínquo Cantar do Carro

(...)

Carregar o carro, jungir os bois,
pegar na dispensa da casa grande mantimento para a viagem,
— quatro dias ida e volta, receber a lista das encomendas,
levar bruacas de couro por cima do taboado com os presentes
que a fazenda oferecia a parentes,
era a rotina da vida no Paraíso e nós, jovens, ansiando já pela volta
[do carro,
cartas e jornais do Rio de Janeiro.
Minha mãe era assinante do "Paiz" e para nós vinham os romances
do Gabinete Literário Goiano.
Esperar a volta do carro, imaginar as coisas que viriam da cidade,
tomavam a imaginação desocupada das meninas moças.
Acostumei a ler jornais com a leitura do "Paiz".
Colaboravam Carlos de Laet, Arthur Azevedo, Júlia Lopes de Almeida,
Carmem Dolores.
Meus primeiros escritinhos foram publicados no suplemento desse
[jornal.
Acompanhei, na sua leitura, fatos e acontecimentos universais.
O casamento de Afonso XIII com a princesa de Betenberg,
neta da rainha Vitória, um atentado anarquista,
uma bomba atirada no cortejo nupcial.
E mais todo o desenrolar da guerra russo-japonesa no começo deste
[século,
onde o Japão se revelou potência bélica, vencendo a Rússia.
Muitos meninos nascidos naquele tempo
tiveram o nome de Togo, o grande general japonês
A casa esperava o café. Regrava-se o sal na cozinha.
As mulheres dos moradores também esperavam suas encomendas.
Chita vistosa para vestidos, chinelos para dia santo e domingo.
Pente. Carrinho de linha, agulheiro, peça de algodão Americano.
Salamargo, riscado para camisa de homem. Metros de mescla barata
para o nu dos meninos, lenço ramado pra cabeça.
Alguma ferramenta para o serviço.
A "carrada" tinha que pagar toda esta bagaceira,
às vezes um saldo, mais vezes um "deve" no comércio
para acertar "da outra vez".

Uma festa, apurar o ouvido ao longínquo cantar do carro,
avistado na distância, esperar as novidades que vinham:
cartas, livros e jornais.
Era uma vida para aquela mocidade despreocupada,
pobre e feita de sonhos.

Imagem - 00580006


In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
2 501

O Passado

O
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.

Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.

Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.

D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.

O Passado...

Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?

Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?

Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?

E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.

3 111

O Passado

O salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.

Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.

Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.

D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.

O Passado...

Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?

Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?

Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?

E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.

2 188

Citações

3

Livros

9

Videos

50

Comentários (3)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
caio
caio

eu tbm to no sexto

caio
caio

eu amo esse poema uso ele na aula

A Poetisa Cora Coralina.... do milho fez uma grandeza da criação da natureza em versos de suas mãos. e Deus abençoando sua criação. fantástico.