Lista de Poemas

Terra do Brasil

Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.

Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança...

Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!

E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Produções Apócrifas: Sonetos do Exílio
7 741

VII - A Meus Netinhos Impressores de Meus Versos

Versos feitos por mim na mocidade
O mérito só tem sentimento.
Eram, pra assim dizer, um instrumento
Mais que o prazer ecoando-me a saudade.

Pospondo a fantasia sempre à verdade
Melhor encontrei nesta o ornamento
E, no estudo apurando o sentimento,
Quanto tenho a saber disse-me a idade.

É isso o que vos quero eu ensinar,
Amando-vos qual pode um terno avô,
A quem para as suas cãs engrinaldar

Melhor só poderia o que eu vou
Em carícias tão vossas procurar,
Sentindo que de vós inda mais sou.

18 de novembro de 1888.


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.

NOTA: Feito por S. M. depois de receber a primeira página desta publicaçã
1 629

V - A Vida e o Barco

Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.

Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
Té que nele encontre o último repouso.

Bordo do Gironde, 14 de Julho de 1887.


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
3 111

A Passiflora

Neste meu declinar é minha flor querida.
Chamem-na outros embora só flor da Paixão,
Eu a chamo flor da vida;
Há pois diferença? Não.
D'espinhos tem a coroa,
E escada aos céus s'elevando;
Divinas gotas escoa,
Hissope ou mel destilando.
Tem o verde da esperança;
Tem do luto o arroxado,
É alegria, ou dor que causa;
Berço ou tumba de finado.
É pois em meu declínio a minha flor querida;
Do dia que enlanguece tem o claro-escuro.
É ela a imagem da vida;
É o passado; é o futuro.


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.

NOTA: Tradução do poema "La Passiflore", da Condessa de Chambru
2 006

Ingratos

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f'licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Produções Apócrifas: Sonetos do Exílio
4 505

Soneto

Segredo d'alma, da existência arcano,
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.

Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!

Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.

Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
"Que mulher é?" Sem tê-lo compreendido.



In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.

NOTA: Tradução do poema de Félix Anver
2 291

IV - Sempre o Brasil

Nunca noite dormi tão sossegado,
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d'anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.

Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande massada.

E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,

E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.

Bordo do Gironde, 7 de Julho de 1887.


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 908

O Beija-Flor

O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d'ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.

Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.

Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!

Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.

NOTA: Tradução do poema "Le Colibri", de Leconte de Lisl
1 904

III - A Idéia Consoladora

Vendo as ondas correr para o ocidente,
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.

Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;

Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte

Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.

Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.



In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 489

I - À Morte do Príncipe D Pedro

Pode o artista pintar a imagem morta
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.

A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.

A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,

Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.

NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
1 696

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Dom Pedro II (Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim), segundo e último Imperador do Brasil, nasceu no Rio de Janeiro. Foi filho de Dom Pedro I e da Imperatriz Dona Maria Leopoldina da Áustria. Ascendeu ao trono com apenas cinco anos de idade, após a abdicação de seu pai em 1831, e seu reinado, marcado pela Regência até atingir a maioridade, durou quase 50 anos. Era conhecido por sua cultura, erudição e dedicação ao país.

Infância e formação

A infância de Dom Pedro II foi profundamente marcada pela responsabilidade que recaiu sobre seus ombros com a sucessão ao trono. Criado no ambiente da corte, recebeu uma educação esmerada, com foco em diversas áreas do conhecimento, incluindo ciências, filosofia, história, línguas e artes. Foi educado por tutores renomados e teve contato com os principais pensadores e cientistas da época, o que moldou sua vasta cultura e sua visão de mundo.

Percurso literário

Embora não seja primariamente conhecido como um autor literário no sentido tradicional, Dom Pedro II era um intelectual e um grande apreciador das artes e das letras. Sua contribuição literária reside mais em sua vasta produção de discursos, cartas, artigos e na sua atuação como mecenas das artes e das ciências. Ele incentivou a produção literária e cultural no Brasil, promovendo concursos, publicando obras e apoiando escritores e artistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias O estilo de escrita de Dom Pedro II, quando se manifestava em textos pessoais ou discursos, era caracterizado pela clareza, pela erudição e por um tom ponderado. Em seus escritos, evidenciava-se um profundo conhecimento de diversas áreas do saber e uma preocupação com o desenvolvimento e o progresso do Brasil. Ele frequentemente abordava temas como a educação, a ciência, a história e a política, sempre com uma visão voltada para o futuro do império.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Dom Pedro II reinou durante um período de profundas transformações no Brasil e no mundo. Seu governo coincidiu com a consolidação do Estado nacional brasileiro, a abolição da escravatura, o desenvolvimento da infraestrutura (ferrovias, telégrafos) e o florescimento das artes e das ciências. Ele manteve relações diplomáticas com diversas nações e navegou por complexos cenários políticos internacionais. Sua figura é central para entender o Segundo Reinado e a transição para a República.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Dom Pedro II casou-se com a Princesa Teresa Cristina das Duas Sicílias, com quem teve quatro filhos, dos quais apenas duas filhas sobreviveram: Dona Isabel e Dona Leopoldina. Sua relação com a Princesa Isabel foi marcada pela preparação desta para assumir um papel de destaque, especialmente durante as ausências do Imperador. Era conhecido por sua vida simples e austera, dedicando-se intensamente às suas responsabilidades de Estado e aos seus estudos. Sua devoção ao Brasil era notória, e ele enfrentou desafios como a Guerra do Paraguai e a crescente pressão abolicionista.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Dom Pedro II foi amplamente respeitado e admirado tanto no Brasil quanto no exterior durante seu reinado. Era visto como um monarca culto, justo e progressista. Recebeu inúmeras honrarias e títulos de diversas instituições científicas e culturais do mundo. No entanto, o fim de seu reinado, culminando na Proclamação da República em 1889, representa uma virada na sua imagem pública, embora sua figura histórica continue a ser objeto de estudo e debate.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Dom Pedro II foi influenciado pelo Iluminismo, pelo positivismo e por uma visão liberal de governo, adaptando esses ideais ao contexto brasileiro. Seu legado é imenso: a consolidação territorial e política do Brasil, a modernização do país em diversos aspectos, o incentivo à educação, às ciências e às artes. Ele é lembrado como um dos mais importantes estadistas da história brasileira, cujo reinado trouxe um período de relativa paz e prosperidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica As análises sobre Dom Pedro II variam. Alguns o veem como um monarca visionário que modernizou o Brasil e o manteve unido em tempos turbulentos. Outros apontam as limitações de seu reinado, como a lentidão na abolição da escravatura e a manutenção de um regime monárquico em um contexto republicano emergente. Seu papel na política, na sociedade e no desenvolvimento cultural do Brasil continua a ser um campo fértil para a investigação histórica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dom Pedro II era um fotógrafo amador talentoso e um entusiasta das novas tecnologias, como o telefone e o telégrafo. Possuía uma vasta biblioteca pessoal e um laboratório científico em seu palácio. Era conhecido por sua poliglota e por receber em audiência pessoas de todas as classes sociais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Dom Pedro II faleceu no exílio em Paris, em 1891, pouco mais de dois anos após a Proclamação da República. Seu corpo foi repatriado para o Brasil em 1939 e repousa no mausoléu imperial na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis. Sua memória é honrada como a de um grande estadista e um dos pilares da formação do Brasil moderno.