Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

1740–1800 · viveu 60 anos BR BR

Poeta luso-brasileiro, conhecido como "D. Ana" ou "Caldas". Destacou-se na poesia lírica e satírica do final do século XVIII, integrando o Arcadismo. A sua obra, marcada pela oralidade e pela musicalidade, explora temas como o amor, a natureza e as convenções sociais, frequentemente com um tom irónico e crítico. Foi também músico e compositor, o que influenciou o ritmo e a melodia dos seus versos, tornando-o uma figura singular e inovadora na poesia da sua época.

n. 1740, Rio de Janeiro · m. 1800-11-09, Lisboa

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Coração Não Gostes Dela, Que Ela Não Gosta de Ti

Coração, que tens com Lília?
Desde que seus olhos vi,
Pulas, e bates no peito,
Tape tape, tipe ti:

Coração, não gostes dela,
Que ela não gosta de ti.

Quando anda, quando fala,
Quando chora, quando ri;
Coração, tu não sossegas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Já te disse que era d'outro;
Coração, não te menti;
Mas tu, coitado! te assustas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Aquele modo risonho
Não é, nem foi para ti;
Basta, louco, e não estejas
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Um dia que me afagava,
Zombava, eu bem percebi,
Era por gostar de ver-te
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Coração, tu não me enganes
Todo o teu mal vem dali;
Tu palpitando te explicas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

É amável, mas não ama,
Eu já mesmo to adverti;
E tu mui néscio teimando,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Si tu leres nos seus olhos,
O que eu com meus olhos li,
Talvez te não canses tanto,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção de suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1798).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
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Biografia

Identificação e contexto básico

Domingos Caldas Barbosa, também conhecido pelos pseudónimos "D. Ana" e "Caldas", foi um poeta e músico luso-brasileiro. Nasceu em Coimbra, Portugal, filho de pai português e mãe brasileira. Morreu em Lisboa, Portugal. É considerado uma das figuras mais originais do Arcadismo em língua portuguesa, especialmente pela sua fusão de poesia e música, e pela sua perspetiva satírica e crítica sobre a sociedade da época.

Infância e formação

A infância e formação de Caldas Barbosa são pouco documentadas. Sabe-se que viveu em Portugal e no Brasil, tendo uma ligação forte com a cultura brasileira, especialmente com os costumes e a linguagem do Rio de Janeiro. A sua formação musical foi uma constante ao longo da vida, sendo ele próprio um compositor e intérprete, o que influenciou diretamente a sua escrita poética.

Percurso literário

O percurso literário de Caldas Barbosa iniciou-se com a publicação de poemas em periódicos da época. Ganhou notoriedade pela sua poesia lírica e, sobretudo, satírica. A sua obra principal, "O Colar de Pérolas" (1791), é uma coletânea de versos que reflete a sua habilidade em mesclar o estilo arcádico com uma linguagem mais popular e oral. A sua obra foi influenciada pela sua vivência entre Portugal e o Brasil, refletindo uma cultura híbrida.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Caldas Barbosa é caracterizada pela musicalidade e pela forte ligação com a oralidade. O seu estilo combina elementos do Arcadismo, como a pastoral e a mitologia clássica, com uma linguagem mais coloquial e a influência dos ritmos brasileiros. Os temas abordados incluem o amor, a natureza, a crítica social e a sátira aos costumes da época. Utilizou frequentemente o pseudónimo "D. Ana", que lhe conferia uma voz feminina e irónica. A sua poesia é conhecida pelo ritmo vibrante, pela leveza e pelo humor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Caldas Barbosa viveu no período de transição do século XVIII para o XIX, uma época de intensas mudanças sociais e políticas em Portugal e no Brasil. O Arcadismo estava em voga, mas ele soube inovar ao incorporar elementos da cultura popular e da música. A sua obra reflete o ambiente cosmopolita de Lisboa e a influência da cultura brasileira, num contexto de exploração colonial e de busca por uma identidade nacional emergente.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Caldas Barbosa são limitados. Sabe-se que era músico e poeta, e que viajava entre Portugal e o Brasil. A sua ligação com o Rio de Janeiro parece ter sido particularmente significativa. A sua persona pública, associada ao pseudónimo "D. Ana", sugere uma forma de ironia e de distanciamento crítico em relação às normas sociais da época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Caldas Barbosa obteve reconhecimento na sua época, especialmente nos círculos literários de Lisboa. A sua obra "O Colar de Pérolas" foi bem recebida e contribuiu para a sua fama como poeta satírico e lírico. Embora a sua obra possa ter sido menos estudada academicamente do que a de outros autores arcádicos, é reconhecido pela sua originalidade e pela sua contribuição para a diversificação do lirismo em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Caldas Barbosa foi influenciado pela poesia arcádica e pela tradição lírica europeia, mas soube adaptar esses elementos a um contexto luso-brasileiro, incorporando a musicalidade e a oralidade. A sua obra influenciou a poesia posterior, especialmente no que diz respeito à incorporação de elementos populares e à exploração da sátira com leveza. É considerado um precursor da poesia moderna em alguns aspetos, pela sua liberdade formal e temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Caldas Barbosa é frequentemente interpretada como uma expressão da identidade híbrida luso-brasileira e como um testemunho da sociedade do seu tempo. A sua poesia satírica é vista como um comentário mordaz, mas elegante, sobre as hipocrisias e os costumes da elite. A sua musicalidade é um elemento chave na análise da sua obra, que convida à leitura em voz alta e à performance.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A utilização do pseudónimo "D. Ana" é um dos aspetos mais curiosos da sua carreira. Atribuir-se uma voz feminina e utilizar a ironia para criticar a sociedade é uma estratégia literária notável. A sua habilidade como músico e compositor é outro ponto de interesse, que o distingue de muitos outros poetas da época.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Domingos Caldas Barbosa faleceu em Lisboa. Não há registos de publicações póstumas significativas, mas a sua obra, especialmente "O Colar de Pérolas", manteve-se como um marco na literatura portuguesa e brasileira, sendo lembrado como um poeta singular e inovador do Arcadismo.

Poemas

13

Coração Não Gostes Dela, Que Ela Não Gosta de Ti

Coração, que tens com Lília?
Desde que seus olhos vi,
Pulas, e bates no peito,
Tape tape, tipe ti:

Coração, não gostes dela,
Que ela não gosta de ti.

Quando anda, quando fala,
Quando chora, quando ri;
Coração, tu não sossegas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Já te disse que era d'outro;
Coração, não te menti;
Mas tu, coitado! te assustas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Aquele modo risonho
Não é, nem foi para ti;
Basta, louco, e não estejas
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Um dia que me afagava,
Zombava, eu bem percebi,
Era por gostar de ver-te
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Coração, tu não me enganes
Todo o teu mal vem dali;
Tu palpitando te explicas,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

É amável, mas não ama,
Eu já mesmo to adverti;
E tu mui néscio teimando,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.

Si tu leres nos seus olhos,
O que eu com meus olhos li,
Talvez te não canses tanto,
Tape tape, tipe ti:

Coração, etc.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção de suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1798).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
1 935

Doçura de Amor

Cuidei que o gosto de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.

Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.

As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.

Gentes, etc.

Ah nhanhá venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.

Gentes, etc.

Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.

Gentes, etc.

Quanto a gente tem nhanhá
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.

Gentes, etc.

Se tu queres qu'eu te adore
À Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.

Gentes, etc.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Sem tir-te nem guar-te: sem aviso prévio, sem cerimôni
2 457

Vou Morrendo Devagar

Eu sei, cruel, que tu gostas,
Sim gostas de me matar;
Morro, e por dar-te mais gosto,
Vou morrendo devagar:

Eu gosto morrer por ti
Tu gostas ver-me expirar;
Como isto é morte de gosto,
Vou morrendo devagar:

Amor nos uniu em vida,
Na morte nos quer juntar;
Eu, para ver como morres,
Vou morrendo devagar:

Perder a vida é perder-te;
Não tenho que me apressar;
Como te perco morrendo,
Vou morrendo devagar:

O veneno do ciúme
Já principia a lavrar;
Entre pungentes suspeitas
Vou morrendo devagar:

Já me vai calando as veias
Teu veneno de agradar;
E gostando eu de morrer,
Vou morrendo devagar:

Quando não vejo os teus olhos,
Sinto-me então expirar;
Sustentado desperanças,
Vou morrendo devagar:

Os Ciúmes e as Saudades
Cruel morte me vêm dar;
Eu vou morrendo aos pedaços,
Vou morrendo devagar:

É, feliz entre as desgraças,
Quem logo pode acabar;
Eu, por ser mais desgraçado,
Vou morrendo devagar:

A morte, enfim, vem prender-me,
Já lhe não posso escapar;
Mas abrigado a teu Nome,
Vou morrendo devagar.

3 137

O Bicho Mulher

Quem quiser ter seu descanso
Quem sossego quiser ter,
Na densa mata do mundo
Fuja do bicho mulher.

Rói por dentro
Bem como a traça,
É quem motiva
Nossa desgraça.
Aquela menina
Que tem mais graça,
É essa quem causa
Maior desgraça.

Não temo leões nem tigres
Nem já os devo temer,
Depois de haver escapado
Ao lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Ouço sibilar serpentes
E não me fazem tremer,
Assusta-me o ruge ruge
Do lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Dizem que o crocodilo
Às vezes finge gemer,
Para matar assim finge
O lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Sinto dentro do meu peito
Não sei que coisa morder,
Dizem que isto é mordedura
Do lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Mas morder-me sem chegar-me
Isso não, não pode ser,
Ai de mim! morde co'a vista
O lindo bicho mulher.

Rói, etc.

Lanço ao ar as carapuças
Dêem na cabeça a quem der,
O que digo é: fujam todos
Do lindo bicho mulher.

Rói, etc.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Ruge-ruge: onomatopéia; ruído produzido por saias que roçam o chão; frufr
2 740

Lundum em Louvor de uma Brasileira Adotiva

Eu vi correndo hoje o Tejo
Vinha soberbo e vaidoso;
Só por ter nas suas margens
O meigo Lundum gostoso.

Que lindas voltas que fez
Estendido pela praia
Queria beijar-lhe os pés.

Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar;
De gosto mesmo morrera
Sem poder nunca chegar.

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum.

Quem me havia de dizer
Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Uma linda Brasileira.

Ai beleza
As outras são pela pátria
Esta pela Natureza.

Tomara que visse a gente
Como nhanhá dança aqui;
Talvez que o seu coração
Tivesse mestre d'ali.

Ai companheiro
Não será ou sim será
O jeitinho é Brasileiro.

Uns olhos assim voltados
Cabeça inclinada assim,
Os passinhos assim dados
Que vêm entender com mim.

Ai afeto
Lundum entendeu com eu
A gente está bem quieto.

Um lavar em seco a roupa
Um saltinho cai não cai;
O coração Brasileiro
A seus pés caindo vai.

Ai esperanças
É nas chulices de lá
Mas é de cá nas mudanças.

Este Lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua.
Que Lundum me há de matar.

Ai lembrança
Amor me trouxe o Lundum
Para meter-me na dança.

Nhanhá faz um pé de banco
Com seus quindins, seus popôs,
Tinha lançado os seus laços
Aperta assim mais os nós.

Oh! doçura
As lobedas de nhanhá
Apertam minha ternura.

Logo que nhanhá saiu
Logo que nhanhá dançou,
O cravo que tinha ao peito
Envergonhado murchou.

Ai que peito
Se quiser flores bem novas
Aqui tem Amor perfeito.

Pois segue as danças de lá
Os de lá deve querer;
E se tem de lá melindres
Nunca tenha malmequer.

Ai delírio
Ela semeia saudades
De enxerto no meu martírio.

Imagem - 00190005


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Quindins: dengues, meiguices, encantos. Popôs: possivelmente "dengues". Lobedas: possivelmente "fitas". Melindre: planta também conhecida como beijo-de-frad
1 842

Sem Acabar de Morrer

É a minha triste vida
Sempre penar, e sofrer;
Vou morrendo a todo o instante
Sem acabar de morrer.

Sabes, meu bem, o que eu sofro
Quando não te posso ver
É morrer de saudades
Sem acabar de morrer.

Prometeu-me Amor doçuras,
Contentou-se em prometer;
E me faz viver morrendo
Sem acabar de morrer.

Lisonjeiras esperanças
Vêm minha morte empecer;
Vão-me sustentando a vida
Sem acabar de morrer.

Em mim tome um triste exemplo
Quem amando quer viver;
Saiba que é viver morrendo
Sem acabar de morrer.

Quando ponho a mão no peito
Sinto um lânguido bater;
É o coração que expira
Sem acabar de morrer.

2 132

Lundum [Eu tenho uma Nhanhazinha

Eu tenho uma Nhanhazinha
A quem tiro o meu chapéu;
É tão bela tão galante,
Parece cousa do Céu.

Ai Céu!
Ela é minha iaiá,
O seu moleque sou eu.

Eu tenho uma Nhanhazinha
Qu'eu não a posso entender;
Depois de me ver penar,
Só então diz que me quer.

Ai, etc.

Eu tenho uma Nhanhazinha
A melhor que há nesta rua;
Não há dengue como o seu,
Nem chulice como a sua.

Ai, etc.

Eu tenho uma Nhanhazinha
Muito guapa muito rica;
O ser fermosa me agrada,
O ser ingrata me pica.

Ai, etc.

Eu tenho uma Nhanhazinha
De quem sou sempre moleque;
Ela vê-me estar ardendo,
E não me abana c'o leque.

Ai, etc.

Eu tenho uma Nhanhazinha
Por quem chora o coração;
E tanto chorei por ela,
Que fiquei sendo chorão.

Ai, etc.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Nhanhá e laiá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Moleque: do quimbundo "mu'leke", menino; tratamento amoroso comum no Brasil no início do séc. XI
2 081

Desprezo da Maledicência

Depois que eu te quero bem,
Deu o mundo em murmurar;
Porém que lhe hei de eu fazer?
É mundo, deixa falar.

Não te enfades menina
Deixa o mundo falar.

Sabes porque fala o mundo,
É só por nos invejar;
Ele tem ódio aos ditosos,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

As loucas vozes do mundo
Tu não deves escutar,
Pois que sem razão murmura,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Ouve só a quem te adora,
Quem anda por ti a bradar;
Dos outros não faças caso,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Menina, vamos amando,
Que não é culpa o amar;
O mundo ralha de tudo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Que fazem nossos amores
Para o mundo murmurar?
É mau costume do mundo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Sempre todos me hão de ver
Por meu bem a suspirar;
Se disto falar o mundo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.

Ah meu bem não pretendamos
Do povo a boca tapar;
Bem sabes que o povo é mundo,
É mundo, deixa falar.

Não etc.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15
1 567

Lundum de Cantigas Vagas [Xarapim eu bem estava

Xarapim eu bem estava
Alegre nest'aleluia,
Mas para fazer-me triste
Veio Amor dar-me na cuia.

Não sabe meu Xarapim
O que amor me faz passar,
Anda por dentro de mim
De noite, e dia a ralar.

Meu Xarapim já não posso
Aturar mais tanta arenga,
O meu gênio deu à casca
Metido nesta moenga.

Amor comigo é tirano
Mostra-me um modo bem cru,
Tem-me mexido as entranhas
Qu'estou todo feito angu.

Se visse o meu coração
Por força havia ter dó,
Por que o Amor o tem posto
Mais mole que quingombó.

Tem nhanhá certo nhonhó,
Não temo que me desbanque,
Porque eu sou calda de açúcar
E ele apenas mel do tanque.

Nhanhá cheia de chulices
Que tantos quindins afeta,
Queima tanto a quem a adora
Como queima a malagueta.

Xarapim tome o exemplo
Dos casos que vêm em mim,
Que se amar há-de lembrar-se
Do que diz seu Xarapim.

Estribilho

Tenha compaixão
Tenha dó de mim,
Porqu'eu lho mereço
Sou seu Xarapim.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Xarapim: o mesmo que xará. Aleluia: alegria, bem-estar. Cuia: no texto, cabeça. Arenga: disputa, atrito (sentido popular). Dar à casca: morrer, perder tudo, arruinar-se. Moenga: moenda. Angu: massa de farinha de milho (fubá), de mandioca ou de arroz, com água e sal, escaldada ao fogo. Quingombó: do quimbundo "Kingombo", quiabo. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Nhonhó: tratamento dado aos senhores pelos escravos. Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Quindins: dengues, meiguices, encanto
1 891

Lundum [Eu nasci sem coração

Eu nasci sem coração
Sendo com ele gerado,
Porqu'inda antes de nascer
Amor mo tinha roubado.

Resposta

Meu bem, o meu nascimento
Não foi como ele nasceu;
Qu'eu nasci com coração,
Aqui stá que todo é teu.

Apenas a minha vista
De ti notícia lhe deu,
Logo ele quis pertencer-te
Aqui stá que todo é teu.

Bebendo a luz dos teus olhos
Nela um veneno bebeu;
É veneno que cativa
Aqui stá que todo é teu

Ele em sinal do seu gosto
Pulou no peito, e bateu;
Vem vê-lo como palpita
Aqui stá que todo é teu.

Para ser teu Nhanhazinha
Não deixei nada de meu,
Té o próprio coração,
Aqui stá que todo é teu.

Se não tens mais quem te sirva
O teu moleque sou eu,
Chegadinho do Brasil
Aqui stá que todo é teu.

Eu era da Natureza
Ela o Amor me vendeu;
Foi para dar-te um escravo
Aqui stá que todo é teu.

Quando Amor me viu rendido
Logo o coração te deu;
Disse menina recebe
Aqui stá que todo é teu.

Unidos os corações
Deve andar o meu c'o teu;
Dá-me o teu, o meu stá pronto
Aqui stá que todo é teu.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Moleque: do quimbundo "mu'leke", menino; tratamento amoroso comum no Brasil no início do séc. XI
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REBECCA
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