Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

1740–1800 · viveu 60 anos BR BR

Poeta luso-brasileiro, conhecido como "D. Ana" ou "Caldas". Destacou-se na poesia lírica e satírica do final do século XVIII, integrando o Arcadismo. A sua obra, marcada pela oralidade e pela musicalidade, explora temas como o amor, a natureza e as convenções sociais, frequentemente com um tom irónico e crítico. Foi também músico e compositor, o que influenciou o ritmo e a melodia dos seus versos, tornando-o uma figura singular e inovadora na poesia da sua época.

n. 1740, Rio de Janeiro · m. 1800-11-09, Lisboa

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Vou Morrendo Devagar

Eu sei, cruel, que tu gostas,
Sim gostas de me matar;
Morro, e por dar-te mais gosto,
Vou morrendo devagar:

Eu gosto morrer por ti
Tu gostas ver-me expirar;
Como isto é morte de gosto,
Vou morrendo devagar:

Amor nos uniu em vida,
Na morte nos quer juntar;
Eu, para ver como morres,
Vou morrendo devagar:

Perder a vida é perder-te;
Não tenho que me apressar;
Como te perco morrendo,
Vou morrendo devagar:

O veneno do ciúme
Já principia a lavrar;
Entre pungentes suspeitas
Vou morrendo devagar:

Já me vai calando as veias
Teu veneno de agradar;
E gostando eu de morrer,
Vou morrendo devagar:

Quando não vejo os teus olhos,
Sinto-me então expirar;
Sustentado desperanças,
Vou morrendo devagar:

Os Ciúmes e as Saudades
Cruel morte me vêm dar;
Eu vou morrendo aos pedaços,
Vou morrendo devagar:

É, feliz entre as desgraças,
Quem logo pode acabar;
Eu, por ser mais desgraçado,
Vou morrendo devagar:

A morte, enfim, vem prender-me,
Já lhe não posso escapar;
Mas abrigado a teu Nome,
Vou morrendo devagar.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Domingos Caldas Barbosa, também conhecido pelos pseudónimos "D. Ana" e "Caldas", foi um poeta e músico luso-brasileiro. Nasceu em Coimbra, Portugal, filho de pai português e mãe brasileira. Morreu em Lisboa, Portugal. É considerado uma das figuras mais originais do Arcadismo em língua portuguesa, especialmente pela sua fusão de poesia e música, e pela sua perspetiva satírica e crítica sobre a sociedade da época.

Infância e formação

A infância e formação de Caldas Barbosa são pouco documentadas. Sabe-se que viveu em Portugal e no Brasil, tendo uma ligação forte com a cultura brasileira, especialmente com os costumes e a linguagem do Rio de Janeiro. A sua formação musical foi uma constante ao longo da vida, sendo ele próprio um compositor e intérprete, o que influenciou diretamente a sua escrita poética.

Percurso literário

O percurso literário de Caldas Barbosa iniciou-se com a publicação de poemas em periódicos da época. Ganhou notoriedade pela sua poesia lírica e, sobretudo, satírica. A sua obra principal, "O Colar de Pérolas" (1791), é uma coletânea de versos que reflete a sua habilidade em mesclar o estilo arcádico com uma linguagem mais popular e oral. A sua obra foi influenciada pela sua vivência entre Portugal e o Brasil, refletindo uma cultura híbrida.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Caldas Barbosa é caracterizada pela musicalidade e pela forte ligação com a oralidade. O seu estilo combina elementos do Arcadismo, como a pastoral e a mitologia clássica, com uma linguagem mais coloquial e a influência dos ritmos brasileiros. Os temas abordados incluem o amor, a natureza, a crítica social e a sátira aos costumes da época. Utilizou frequentemente o pseudónimo "D. Ana", que lhe conferia uma voz feminina e irónica. A sua poesia é conhecida pelo ritmo vibrante, pela leveza e pelo humor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Caldas Barbosa viveu no período de transição do século XVIII para o XIX, uma época de intensas mudanças sociais e políticas em Portugal e no Brasil. O Arcadismo estava em voga, mas ele soube inovar ao incorporar elementos da cultura popular e da música. A sua obra reflete o ambiente cosmopolita de Lisboa e a influência da cultura brasileira, num contexto de exploração colonial e de busca por uma identidade nacional emergente.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Caldas Barbosa são limitados. Sabe-se que era músico e poeta, e que viajava entre Portugal e o Brasil. A sua ligação com o Rio de Janeiro parece ter sido particularmente significativa. A sua persona pública, associada ao pseudónimo "D. Ana", sugere uma forma de ironia e de distanciamento crítico em relação às normas sociais da época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Caldas Barbosa obteve reconhecimento na sua época, especialmente nos círculos literários de Lisboa. A sua obra "O Colar de Pérolas" foi bem recebida e contribuiu para a sua fama como poeta satírico e lírico. Embora a sua obra possa ter sido menos estudada academicamente do que a de outros autores arcádicos, é reconhecido pela sua originalidade e pela sua contribuição para a diversificação do lirismo em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Caldas Barbosa foi influenciado pela poesia arcádica e pela tradição lírica europeia, mas soube adaptar esses elementos a um contexto luso-brasileiro, incorporando a musicalidade e a oralidade. A sua obra influenciou a poesia posterior, especialmente no que diz respeito à incorporação de elementos populares e à exploração da sátira com leveza. É considerado um precursor da poesia moderna em alguns aspetos, pela sua liberdade formal e temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Caldas Barbosa é frequentemente interpretada como uma expressão da identidade híbrida luso-brasileira e como um testemunho da sociedade do seu tempo. A sua poesia satírica é vista como um comentário mordaz, mas elegante, sobre as hipocrisias e os costumes da elite. A sua musicalidade é um elemento chave na análise da sua obra, que convida à leitura em voz alta e à performance.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A utilização do pseudónimo "D. Ana" é um dos aspetos mais curiosos da sua carreira. Atribuir-se uma voz feminina e utilizar a ironia para criticar a sociedade é uma estratégia literária notável. A sua habilidade como músico e compositor é outro ponto de interesse, que o distingue de muitos outros poetas da época.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Domingos Caldas Barbosa faleceu em Lisboa. Não há registos de publicações póstumas significativas, mas a sua obra, especialmente "O Colar de Pérolas", manteve-se como um marco na literatura portuguesa e brasileira, sendo lembrado como um poeta singular e inovador do Arcadismo.

Poemas

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Lundum de Cantigas Vagas [Xarapim eu bem estava

Xarapim eu bem estava
Alegre nest'aleluia,
Mas para fazer-me triste
Veio Amor dar-me na cuia.

Não sabe meu Xarapim
O que amor me faz passar,
Anda por dentro de mim
De noite, e dia a ralar.

Meu Xarapim já não posso
Aturar mais tanta arenga,
O meu gênio deu à casca
Metido nesta moenga.

Amor comigo é tirano
Mostra-me um modo bem cru,
Tem-me mexido as entranhas
Qu'estou todo feito angu.

Se visse o meu coração
Por força havia ter dó,
Por que o Amor o tem posto
Mais mole que quingombó.

Tem nhanhá certo nhonhó,
Não temo que me desbanque,
Porque eu sou calda de açúcar
E ele apenas mel do tanque.

Nhanhá cheia de chulices
Que tantos quindins afeta,
Queima tanto a quem a adora
Como queima a malagueta.

Xarapim tome o exemplo
Dos casos que vêm em mim,
Que se amar há-de lembrar-se
Do que diz seu Xarapim.

Estribilho

Tenha compaixão
Tenha dó de mim,
Porqu'eu lho mereço
Sou seu Xarapim.


Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Xarapim: o mesmo que xará. Aleluia: alegria, bem-estar. Cuia: no texto, cabeça. Arenga: disputa, atrito (sentido popular). Dar à casca: morrer, perder tudo, arruinar-se. Moenga: moenda. Angu: massa de farinha de milho (fubá), de mandioca ou de arroz, com água e sal, escaldada ao fogo. Quingombó: do quimbundo "Kingombo", quiabo. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Nhonhó: tratamento dado aos senhores pelos escravos. Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Quindins: dengues, meiguices, encanto
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Doçura de Amor

Cuidei que o gosto de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei por que é mais doce.

Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:

Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.

Tem um mel mui saboroso,
É bem bom, é bem gostoso.

As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.

Gentes etc.

Ah nhanhá, venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.

Gentes etc.

Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.

Gentes etc.

Quando a gente tem nhanhá
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.

Gentes etc.

Se tu queres queu te adore,
A Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.

Gentes etc.

1 857

A Ternura Brasileira

Não posso negar, não posso,
Não posso por mais que queira,
Que o meu coração se abrasa
De ternura Brasileira.

Uma alma singela e rude
Sempre foi mais verdadeira,
A minha por isso é própria
De ternura Brasileira.

Lembra na última idade
A paixão lá da primeira,
Tenho nos últimos dias
A ternura Brasileira.

Vejo a carrancuda morte
Ameigar sua viseira,
Por ver que ao matar-me estraga
A ternura Brasileira.

Caronte, que chega à barca,
E que me chama à carreira,
Vê que o batel vai curvando
Coa ternura Brasileira.

Mal piso sobre os Elísios,
Outra sombra companheira
Chega, pasma, e não conhece
A ternura Brasileira.

Eu vejo a infeliz, Rainha
Que morre em ampla fogueira,
Por não achar em Enéias
A ternura Brasileira.

Do mundo a última parte
Não tem frase lisonjeira,
As três que a têm não conhecem
A ternura Brasileira.

Do mundo a última parte
Foi sempre em amar primeira
Pode às três servir de exemplo
A ternura Brasileira.

1 527

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REBECCA
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REBECCA
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GOSTEI MUITO DE ESTAR NESSE SITE

Rebecca
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ADOREI ESSE RESUMO DEMAIS.