Lista de Poemas

VIDA E OBRA

Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.

E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,

canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.

Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
747

TUDO VAI TERMINAR BEM

Rogai por nós Mercearia Nossa Senhora das Graças
Café e Restaurante Nossa Senhora de Fátima
por nossas alegrias Padaria São Jorge
Imobiliária São Jorge Vidraçaria São Jorge

porque jamais voltaremos à casa dos nossos dias
rogai por nós Maternidade Santa Maria Clínica
Pediátrica São Boaventura Casa de Repouso
São Bartolomeu olhai por nós

Clínica Oftalmológica São Judas Tadeu
Instituto de Beleza Santa Inês imploramos
amor e cremos sempre outra vez Depósito
de Bebidas São Pedro Autoescola São Cristóvão

quando estivermos sós, e só, ó cidade de São Paulo
tende piedade de nós na hora de nossa morte
rogai por nós Cristo Redentor Avenida
Nossa Senhora de Copacabana.
558

INTERVALO

É o que lhe digo: a medida.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?

A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você

e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:

que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,

as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto

entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
792

TERCETO

Não há matéria para se fazer a tristeza
nessa manhã, manhã perfeita
se a mão que me deu maio fosse a tua.
784

A BELA E A FERA I

Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta

o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas

sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta

o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave

um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
620

VINHETA

Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa

e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.

Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
706

PEDIDO

Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:

o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije

todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída

da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
775

A BELA E A FERA II

Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro
de sua couraça
o besouro

absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se

atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha

o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto

ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
622

VALSA PARA GRAÇA

Abra-se tudo
em grande-angular:

alas a ela, abra-se tudo
em salas que se abram

em salas abertas, salões,
e o que se fechara

antes desabroche
numa sucessão de estrelas

em pleno dia claro.
Abra-se o teto

do planetário, abra-se
o coração de fogo

e nele toda dor
torne a nada e

nada lhe resista e
por onde passe alastre

sua leveza. Alas a ela,
e que ela me leve.

Porque nela tudo parece
mover-se sobre salto

alto, sobretudo a alma,
a alma que parece calçar

a mesma sandália que
as palavras e os gestos

dela, alas
a ela, que assim

alta,
como que vai

descalça e dançasse
sobre-além dos alarmes

e do medo, largando
na sua valsa

um rasto só de beleza.
Alas a ela.
877

TRAÇO

Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.

No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.

Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.

Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.

Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
745

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Identificação e contexto básico

Eucanaã Ferraz é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Nasceu em 1956. É reconhecido como um dos importantes nomes da poesia brasileira contemporânea, com uma obra marcada pela erudição, pela inteligência e por uma profunda reflexão sobre a linguagem, a memória e a história.

Infância e formação

Cresceu num ambiente que valorizava a cultura e a leitura. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também fez mestrado e doutorado em Teoria da Literatura. A sua formação académica sólida é um dos pilares da sua produção intelectual e poética.

Percurso literário

Começou a publicar poesia na década de 1980. A sua obra tem vindo a consolidar-se ao longo do tempo, com a publicação de diversos livros que foram recebidos com aclamação pela crítica e pelo público. Para além da poesia, dedica-se à escrita de ensaios e à tradução literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras poéticas, como "A Forma da Morte" (2004), "O Banquete" (2009) e "Via Ápia" (2017), exploram a relação entre a palavra e o mundo, a memória individual e coletiva, a cidade como espaço de vivência e de história. A sua poesia é caracterizada pela precisão vocabular, pela inteligência irónica e pela capacidade de transitar entre o registo coloquial e o erudito. Os temas recorrentes incluem a passagem do tempo, a fragilidade da existência, a reflexão sobre a própria poesia e a sua relação com a vida. O verso livre é a sua forma predominante, mas com um grande cuidado na sonoridade e no ritmo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Eucanaã Ferraz insere-se no panorama da literatura brasileira pós-modernista, dialogando com autores de diferentes gerações e correntes. A sua obra reflete uma consciência do presente, mas também um diálogo profundo com o passado, a história e a tradição literária. A cidade de São Paulo é um espaço recorrente e significativo na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade como poeta e ensaísta, Ferraz tem uma longa carreira académica, tendo sido professor universitário, e dedica-se ativamente à tradução literária, tendo traduzido obras importantes de autores como Shakespeare, John Milton e John Donne.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Eucanaã Ferraz é amplamente reconhecido pela crítica especializada como um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade. Recebeu diversos prémios literários e a sua obra é objeto de estudo em universidades no Brasil e no estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As suas influências literárias são vastas, abrangendo desde a poesia clássica até aos autores modernos e contemporâneos. O seu legado reside na capacidade de renovar a linguagem poética, de integrar a reflexão intelectual na experiência lírica e de abordar temas complexos com clareza e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ferraz convida à reflexão sobre a natureza da linguagem, a construção da identidade em face da história e da memória, e a própria condição humana. A sua poesia é um convite à meditação sobre o sentido da vida e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos É conhecido pela sua agudeza intelectual e pelo seu humor subtil, que frequentemente transparecem na sua escrita. A sua faceta de tradutor de poesia inglesa é igualmente destacada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, Eucanaã Ferraz permanece ativo na produção literária.