Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

n. 1961 BR BR

Eucanaã Ferraz é um poeta, tradutor e ensaísta brasileiro. A sua obra poética destaca-se pela inteligência, pela capacidade de articulação entre o erudito e o popular, e pela exploração de temas como a memória, a história, a cidade e a própria linguagem. É um dos nomes importantes da poesia brasileira contemporânea, reconhecido pela sua voz original e pela qualidade formal.

n. 1961-05-18, Rio de Janeiro

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VIDA E OBRA

Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.

E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,

canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.

Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Eucanaã Ferraz é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Nasceu em 1956. É reconhecido como um dos importantes nomes da poesia brasileira contemporânea, com uma obra marcada pela erudição, pela inteligência e por uma profunda reflexão sobre a linguagem, a memória e a história.

Infância e formação

Cresceu num ambiente que valorizava a cultura e a leitura. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também fez mestrado e doutorado em Teoria da Literatura. A sua formação académica sólida é um dos pilares da sua produção intelectual e poética.

Percurso literário

Começou a publicar poesia na década de 1980. A sua obra tem vindo a consolidar-se ao longo do tempo, com a publicação de diversos livros que foram recebidos com aclamação pela crítica e pelo público. Para além da poesia, dedica-se à escrita de ensaios e à tradução literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras poéticas, como "A Forma da Morte" (2004), "O Banquete" (2009) e "Via Ápia" (2017), exploram a relação entre a palavra e o mundo, a memória individual e coletiva, a cidade como espaço de vivência e de história. A sua poesia é caracterizada pela precisão vocabular, pela inteligência irónica e pela capacidade de transitar entre o registo coloquial e o erudito. Os temas recorrentes incluem a passagem do tempo, a fragilidade da existência, a reflexão sobre a própria poesia e a sua relação com a vida. O verso livre é a sua forma predominante, mas com um grande cuidado na sonoridade e no ritmo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Eucanaã Ferraz insere-se no panorama da literatura brasileira pós-modernista, dialogando com autores de diferentes gerações e correntes. A sua obra reflete uma consciência do presente, mas também um diálogo profundo com o passado, a história e a tradição literária. A cidade de São Paulo é um espaço recorrente e significativo na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade como poeta e ensaísta, Ferraz tem uma longa carreira académica, tendo sido professor universitário, e dedica-se ativamente à tradução literária, tendo traduzido obras importantes de autores como Shakespeare, John Milton e John Donne.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Eucanaã Ferraz é amplamente reconhecido pela crítica especializada como um dos mais importantes poetas brasileiros da atualidade. Recebeu diversos prémios literários e a sua obra é objeto de estudo em universidades no Brasil e no estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As suas influências literárias são vastas, abrangendo desde a poesia clássica até aos autores modernos e contemporâneos. O seu legado reside na capacidade de renovar a linguagem poética, de integrar a reflexão intelectual na experiência lírica e de abordar temas complexos com clareza e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ferraz convida à reflexão sobre a natureza da linguagem, a construção da identidade em face da história e da memória, e a própria condição humana. A sua poesia é um convite à meditação sobre o sentido da vida e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos É conhecido pela sua agudeza intelectual e pelo seu humor subtil, que frequentemente transparecem na sua escrita. A sua faceta de tradutor de poesia inglesa é igualmente destacada.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até ao momento, Eucanaã Ferraz permanece ativo na produção literária.

Poemas

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VIDA E OBRA

Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.

E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,

canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.

Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
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PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA

O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
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O ATOR

Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,

embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:

nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza

que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos

em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,

sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.

Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
723

A BELA E A FERA II

Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro
de sua couraça
o besouro

absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se

atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha

o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto

ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
644

O SÓ

Na longa alameda a luz aos pedaços cai
mole do alto dos postes. Ele olha.

Para que não doa, apenas olha.
E não dói.
785

VERDE-CLARO

Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.

Minúsculo,
só, nenhum exército.

Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.

Não sei que nome tem,
insigne inseto,

senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
674

A LEITORA

Ali está ela, atenta.
Mas, repara: lê

como se levitasse.
O escrito pouco importa.

É como se não lesse. Imagine:
uma língua tão estrangeira

que ela não reconhecesse,
não soubesse qual e,

serena, não dá por isso.
Ou mais que:

não lê. Vê
as páginas,

como se da janela
a paisagem

e pousasse os olhos
na orla das páginas

sem saber
onde vão as palavras.

Frui, tão-só,
a pele, o almíscar,

a árvore
que o livro foi um dia.
696

A BELA E A FERA I

Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta

o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas

sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta

o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave

um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
647

TRAÇO

Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.

No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.

Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.

Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.

Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
784

O MÁGICO

De mim o que trará em sua capa
enigmática o mágico? De mim
o que haverá em sua urna aguda
e bem guardada? O que se mudará

de mim para o fundo falso e fundo
de seus olhos sem que eu perceba
nem queira dar por isso? Depois
do espanto, depois do óbvio

sob o fingimento das mangas e de
quantas ciências ocultas em suas
mãos abertas (hora de ir embora)
o que seremos? O que serei de

mim quando sair de cena o mágico?
Que restará do encanto? Há de ficar
comigo a música de agora? Algum
espinho? Um ás? O espanto?
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