Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

1923–2005 · viveu 82 anos PT PT

Eugénio de Andrade foi um dos mais importantes poetas portugueses do século XX, conhecido pela pureza e pela musicalidade da sua linguagem, e pela sua profunda ligação à natureza, ao corpo e à experiência sensorial. A sua obra é caracterizada por um lirismo depurado, que celebra a vida, a luz e a beleza, sem ignorar as dimensões mais sombrias da existência. Com uma poesia que se distingue pela concisão, pela clareza e por uma aparente simplicidade que esconde uma grande profundidade reflexiva, Eugénio de Andrade consolidou um estilo inconfundível e uma voz única na poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1923-01-19, Fundão · m. 2005-06-13, Porto

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Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Eugénio de Andrade, nome de registo José Fontinhas da Fonseca, nasceu em 1923 e faleceu em 2005. Foi um poeta, ensaísta e tradutor português. Viveu a maior parte da sua vida no Porto. É conhecido pela sua nacionalidade portuguesa e por escrever em língua portuguesa. O contexto histórico em que viveu foi o de uma longa ditadura em Portugal, sucedida pela democracia, e as transformações culturais do século XX.

Infância e formação

Nasceu e passou a infância em Póvoa de Atalaia, Beira Baixa, uma região rural que marcou profundamente a sua sensibilidade e a sua obra, com a valorização da natureza, da terra e das tradições populares. A sua formação escolar foi feita na sua terra natal e depois em Castelo Branco. Mudou-se para o Porto em 1945, onde viveu o resto da sua vida e desenvolveu a sua carreira profissional como professor e, mais tarde, como inspetor de leitura.

Percurso literário

O seu percurso literário começou com a publicação de "As Mãos e os Frutos" em 1948, obra que já anunciava o seu estilo depurado e a sua temática. Ao longo das décadas seguintes, publicou uma obra poética extensa e coesa, dividida em ciclos temáticos que refletem a sua evolução e aprofundamento. Foi também um notável tradutor de poesia clássica e moderna, vertendo para português autores como Safo, Virgílio, Horácio e Camões, e um ativo divulgador da poesia portuguesa em antologias.

Obra, estilo e características literárias

Algumas das suas obras mais representativas incluem "As Mãos e os Frutos" (1948), "O Coração Dobrado" (1956), "Matéria Solar" (1962), "O Sal" (1965), "Escola de Mitos" (1980) e "O Outro Nome do Vento" (1982). Os temas centrais da sua poesia são a natureza (com destaque para o sol, a água, a terra), o corpo humano, a sensualidade, a morte, a memória e a própria palavra poética. A sua forma poética é marcada pela concisão, pela clareza, pela musicalidade e por um ritmo que evoca a natureza e a respiração. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um sentido de equilíbrio e harmonia. A sua linguagem é pura, luminosa e despojada de excessos, privilegiando a imagem e a sugestão. É frequentemente associado a uma poesia de matriz clássica, mas com uma modernidade inerente, celebrando a vida e a sua beleza de forma intensa e serena. A sua voz poética é lírica, contemplativa e de uma profunda humanidade.

Contexto cultural e histórico

Eugénio de Andrade viveu a maior parte da sua vida adulta sob o regime ditatorial em Portugal, mas a sua poesia manteve sempre uma dimensão de celebração da liberdade interior e da beleza, sem um engajamento político explícito. Desenvolveu uma relação forte com a cultura clássica e com a poesia universal, dialogando de forma subtil com os seus contemporâneos, mas mantendo uma autonomia estética marcante.

Vida pessoal

Natural da Beira Baixa, a sua infância no meio rural deixou uma marca indelével na sua obra. Mudou-se para o Porto, onde estabeleceu a sua vida e carreira. A sua discrição pessoal contrastava com a intensidade lírica da sua poesia. Foi conhecido pela sua dedicação à literatura e à divulgação da poesia.

Reconhecimento e receção

Eugénio de Andrade é amplamente considerado um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX. A sua obra recebeu diversos prémios e distinções importantes em Portugal e no estrangeiro. É um autor estudado e admirado tanto pelo público em geral como pela crítica especializada, sendo traduzido para várias línguas.

Influências e legado

Foi influenciado pela poesia clássica grega e latina, pela poesia provençal e por poetas como Fernando Pessoa. O seu legado reside na pureza da sua linguagem, na sua celebração da vida e da natureza, e na sua capacidade de evocar uma beleza intemporal. Inspirou e continua a inspirar gerações de leitores e poetas pela sua mestria formal e pela profundidade do seu lirismo.

Interpretação e análise crítica

A obra de Eugénio de Andrade é frequentemente interpretada como um hino à existência, à luz e à matéria, explorando a dimensão sensorial e espiritual da vida humana. A sua poesia convida à contemplação, à redescoberta do mundo através dos sentidos e à aceitação serena da condição humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade é a sua dupla atividade como poeta e tradutor de clássicos, demonstrando uma vasta cultura literária. Os seus poemas são muitas vezes descritos como tendo uma qualidade visual e tátil, refletindo a sua profunda ligação ao mundo natural e ao corpo.

Morte e memória

Eugénio de Andrade faleceu em 2005. A sua obra continua a ser editada e a circular amplamente, consolidando a sua posição como um dos pilares da poesia contemporânea em língua portuguesa e um autor de referência para a compreensão da lírica moderna.

Poemas

70

À breve, azul cantilena

À breve, azul cantilena
dos teus olhos quando anoitecem.
13 337

Ah, falemos da brisa

Eu dizia:
"Nenhuma brisa é triste"
e procurava água,lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível.
 
Mas quem sabe dessa música
cativa nos meus dedos?
E depois, como guardar um beijo.
mar doirado ou sombra
desolada?
 
Recordava um rio,
álamos,
o sabor nupcial da chuva,
tropeçava em lágrimas e soluços
e lágrimas, e procurava.
 
Como quem se despe
para amar a madrugada nas areias,
eu dizia: " Nenhuma brisa é triste,
triste", e procurava.
 
E procurava.
5 840

ARTE DE NAVEGAR

Vê como o verão 
subitamente 
se faz água no teu peito, 

e a noite se faz barco, 

e a minha mão marinheiro. 


de Obscuro Domínio
5 007

Poema à mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!

36 691

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
26 000

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas

16 178

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

25 802

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

24 416

Havia uma palavra

Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula.Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.
de Matéria Solar
13 502

O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


de O Outro Nome da Terra
29 650

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Comentários (20)

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C Crux
C Crux

eugênio?? mereçe??

MUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSO
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iufiyfuyfli:yMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSOMUITO BOOM ELE MEREÇE SER MUITO MUITO MUITO FAMOSO

euskadia

.....eis as minhas reticências....algo imperceptível à rudeza duma mão, mão que soube redigir o carácter perene do amor onírico sobre as Mulheres portuguesas. Não, não o global, uma conduta não é de todo um vazar impoluto, alguma mefítica coisa por lá vai conspurcando. Eugénio de Andrade : nunca fogo fátuo porque nós somos a língua no seu pleno devir, sempre lá no espaço etéreo onde a ele possamos recorrer para nos marulhar pelo encanto duma MULHER

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Ele é uma inspiração para todos nós eu vou fazer um trabalho sobre os poemas dele GRANDE GRANDE GRANDE HOMEM

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que grande carreira