Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

1888–1935 · viveu 47 anos PT PT

Fernando Pessoa foi um poeta, escritor, crítico literário, tradutor e filósofo português, considerado um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa e um dos mais relevantes poetas do século XX. A sua vasta obra, marcada pela criação de múltiplos heterónimos com personalidades e estilos distintos, explora temas como a identidade, a angústia existencial, a saudade e a busca por significado num mundo em constante transformação. Pessoa deixou um legado literário complexo e multifacetado, que continua a fascinar e a desafiar leitores e críticos.

n. 1888-06-13, Lisboa · m. 1935-11-30, Lisboa

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O amor é uma companhia

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Fernando António Nogueira Pessoa é amplamente conhecido como Fernando Pessoa. Nasceu em Lisboa, Portugal, a 13 de junho de 1888, e faleceu na mesma cidade a 30 de novembro de 1935. Veio de uma família de classe média. O seu pai, D. Luís Vaz de Jesus Correia de Sá, era funcionário público e crítico musical no jornal 'A Civilização', e a sua mãe, D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira, era filha do Coronel Pinheiro Nogueira, que administrava a Typographia da 'A Civilização'. A morte prematura do pai, quando Pessoa tinha cinco anos, e a subsequente viuvez da mãe, que se casou com o cônsul português em Durban, África do Sul, João Miguel dos Reis Quimby, influenciaram profundamente a sua infância e o seu desenvolvimento. Pessoa era português e escrevia primariamente em português, mas também demonstrava proficiência em inglês e francês, línguas que utilizou em algumas das suas obras, especialmente nas fases iniciais. Viveu num período de grandes transformações sociais, políticas e culturais em Portugal e na Europa, marcado pelo fim da Monarquia e o início da República em Portugal, e pelas I e II Guerras Mundiais.

Infância e formação

A infância de Pessoa foi marcada pela perda precoce do pai e pela mudança para a África do Sul, onde viveu até aos dezassete anos. Esta experiência transcultural proporcionou-lhe um contacto precoce com a língua e a cultura inglesas, que moldaram a sua formação intelectual e literária. Foi educado na St. Joseph's Academy e, mais tarde, no Durban High School, onde se destacou em línguas e literatura. A leitura de autores clássicos e contemporâneos em inglês, como Shakespeare, Milton, Byron, e Edgar Allan Poe, foi fundamental. O ambiente de Durban, com a sua diversidade cultural, também pode ter contribuído para o desenvolvimento da sua imaginação e da sua sensibilidade para as diferentes identidades.

Percurso literário

O início da escrita de Pessoa remonta à sua adolescência, com poemas em inglês. A transição para o português e o desenvolvimento dos seus heterónimos marcaram o seu percurso literário. A sua obra é vasta e complexa, com diferentes fases que refletem a sua evolução estilística e temática. Publicou em diversas revistas literárias portuguesas, como a 'Orpheu', que foi marco do Modernismo português, e participou em antologias. Foi também crítico literário e tradutor, demonstrando a sua versatilidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Fernando Pessoa é dominada pela exploração da fragmentação do eu, da identidade e da realidade. Temas como a dor de pensar, a saudade, a busca pela transcendência, a efemeridade do tempo e a condição humana são centrais. O seu estilo varia imensamente entre os seus heterónimos (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, entre outros), cada um com a sua própria métrica, vocabulário e visão do mundo. Caeiro representa o poeta da natureza, da simplicidade e da negação da metafísica; Reis, o neoclássico estoico, que busca a serenidade e a medida; Campos, o futurista, o poeta da modernidade, da máquina e da exaltação das sensações. Pessoa utilizou diversas formas poéticas, do soneto à forma fixa e ao verso livre, experimentando constantemente com a métrica e a estrutura. A sua linguagem é rica e complexa, com uma densidade imagética notável e um uso frequente de metáforas e símbolos. A voz poética pode ser lírica, confessional, satírica, filosófica e irónica, refletindo a multiplicidade de consciências que habitavam o seu ser.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pessoa viveu numa época de grande efervescência cultural e de profundas mudanças em Portugal. Foi um dos principais impulsionadores do Modernismo português, através da revista 'Orpheu' (1915), que propunha uma ruptura com a tradição e a introdução de novas linguagens e estéticas. A sua obra dialoga com as correntes filosóficas e literárias da sua época, como o simbolismo, o futurismo, o dadaísmo e o surrealismo, embora tenha desenvolvido uma estética singular. A sua posição perante a sociedade e a política era complexa, marcada por uma certa desilusão e distanciamento, embora tenha manifestado interesse por questões nacionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Pessoa foi marcada por uma certa reclusão e uma intensa vida interior. As suas relações afetivas foram complexas, com destaque para a sua relação com Ofélia Queiroz, que inspirou parte da sua obra. A sua amizade com Mário de Sá-Carneiro foi crucial para o seu percurso literário. Profissionalmente, trabalhou como correspondente comercial, profissão que lhe permitiu manter a sua independência e dedicar-se à escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Pessoa teve um reconhecimento limitado, publicando apenas alguns poemas e o livro 'Mensagem'. A sua obra mais vasta e complexa, especialmente a escrita em português e a dos seus heterónimos, só foi amplamente descoberta e publicada postumamente, graças ao trabalho de investigadores e editores. Atualmente, é considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa e uma figura incontornável da literatura mundial, com a sua obra a ser objeto de estudo e admiração em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Pessoa foi influenciado por autores clássicos e modernos, como Shakespeare, Camões, Edgar Allan Poe, Walt Whitman e Nietzsche. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas e escritores em Portugal e no Brasil. A sua exploração da identidade e da multiplicidade do eu revolucionou a poesia moderna e continua a ser uma referência para a literatura contemporânea. A sua obra tem sido amplamente traduzida e estudada.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pessoa é objeto de inúmeras interpretações. A questão da identidade, da fragmentação do eu, da relação entre o real e o aparente, e a busca por um sentido para a existência são temas recorrentes. Críticos debatem a sua relação com o nacionalismo, o misticismo e a psicanálise. A genialidade na criação dos heterónimos e a sua capacidade de dar voz a diferentes consciências são pontos centrais na análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Pessoa era conhecido pelo seu comportamento reservado e pela sua vida aparentemente discreta. No entanto, a sua intensa vida interior e a multiplicidade de personalidades que habitavam o seu ser são um dos aspetos mais fascinantes. Há relatos sobre os seus hábitos de escrita, a sua caligrafia peculiar e a sua relação com os manuscritos e a organização da sua vasta obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Fernando Pessoa faleceu aos 47 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de uma indisposição intestinal, possivelmente apendicite, deixando um legado literário colossal e amplamente inexplorado em vida. A publicação póstuma da sua obra, iniciada nas décadas seguintes à sua morte, desvendou a dimensão total do seu génio e consolidou o seu lugar na história da literatura mundial.

Poemas

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O véu das lágrimas não cega.

O véu das lágrimas não cega.
Vejo, a chorar,
O que essa música me entrega –
A mãe que eu tinha, o antigo lar,

A criança que fui,
O horror do tempo, porque flui,
O horror da vida, porque é só matar!
Vejo e adormeço,

Num torpor em que me esqueço
Que existo inda neste mundo que há...
Estou vendo minha mãe tocar.
E essas mãos brancas e pequenas,

Cuja carícia nunca mais me afagará –,
Tocam ao piano, cuidadosas e serenas,
(Meu Deus!)
Un soir à Lima.

Ah, vejo tudo claro!
Estou outra vez ali.
Afasto do luar exterior e raro
Os olhos com que o vi.

Mas quê? Divago e a música acabou...
Divago como sempre divaguei
Sem ter na alma certeza de quem sou,
Nem verdadeira fé ou firme lei

Divago, crio eternidades minhas
Num ópio de memória e de abandono.
Entronizo fantásticas rainhas
Sem para elas ter o trono.

Sonho porque me banho
No rio irreal da música evocada.
Minha alma é uma criança esfarrapada
Que dorme num recanto obscuro.

De meu só tenho,
Na realidade certa e acordada,
Os trapos da minha alma abandonada,
E a cabeça que sonha contra o muro.

Mas, mãe não haverá
Um Deus que me não torne tudo vão,
Um outro mundo em que isso agora está?
Divago ainda: tudo é ilusão.
Un soir à Lima

Quebra-te, coração...


17/09/1935
4 394

Tudo, menos o tédio, me faz tédio.

Tudo, menos o tédio, me faz tédio.
Quero, sem ter sossego, sossegar.
Tomar a vida todos os dias
Como um remédio,
Desses remédios que há para tomar.

Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto
De tantos tantos me fez nada em mim.
Minhas mãos ficaram frias
Só de aguardar o encanto
Daquele amor que as aquecesse enfim

Frias, vazias,
Assim.


05/09/1934
5 028

V - I conquered. Far barbarians hear my name.

I conquered. Far barbarians hear my name.
Men were dice in my game,
But to my throw myself did lesser come:
I threw dice, Fate the sum.
3 928

Quarto: AS ILHAS AFORTUNADAS

QUARTO

AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutamos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.


26/03/1934
4 326

Sim, está tudo certo.

Sim, está tudo certo.
Está tudo perfeitamente certo.
O pior é que está tudo errado.
Bem sei que esta casa é pintada de cinzento
Bem sei qual é o nome desta casa –
Não sei, mas poderei saber, como está avaliada,
Nessas oficinas de impostos que existem,
Bem sei, bem sei.
Mas o pior é que há almas aí dentro
E a Tesouraria das Finanças não conseguiu livrar
A vizinha do lado de lhe morrer o filho.
A Repartição de não sei quê não pôde evitar
Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse com a cunhada...
Mas, está claro, está tudo certo...
E, excepto estar errado, é assim mesmo, está certo...


05/03/1935
6 150

ELEGIA NA SOMBRA

ELEGIA NA SOMBRA

Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia touca a desgraça.

Pesa em nós o passado e o futuro.
Dorme em nós o presente. E o sonhar
A alma encontra sempre o mesmo muro,
E encontra o mesmo muro ao despertar.

Quem nos roubou a alma? Que bruxedo
De que magia incógnita e suprema
Nos enche as almas de dolência e medo
Nesta hora inútil, apagada e extrema?

Os heróis resplandecem à distância
Num passado impossível de se ver
Com os olhos da fé ou os da ânsia;
Lembramos névoas, sonhos a esquecer.

Que crime outrora feito, que pecado
Nos impôs esta estéril provação
Que é indistintamente nosso fado
Como o sentimos bem no coração?

Que vitória maligna conseguimos –
Em que guerras, com que armas, com que armada? –
Que assim o seu castigo irreal sentimos
Colado aos ossos desta carne errada?

Terra tão linda com heróis tão grandes,
Bom Sol universal localizado
Pelo melhor calor que aqui expandes,
Calor suave e azul só a nós dado.

Tonta beleza dada e glória ida!
Tanta esperança que, depois da glória,
Só conhecem que é fácil a descida
Das encostas anónimas da história!

Tanto, tanto! Que é feito de quem foi?
Ninguém volta? No mundo subterrâneo
Onde a sombria luz por nula dói,
Pesando sobre onde já esteve o crânio,

Não restitui Plutão sob o céu
Um herói ou o ânimo que o faz,
Como Eurídice dada à dor de Orfeu;
Ou restituiu e olhámos para trás?

Nada. Nem fé nem lei, nem mar nem porto.
Só a prolixa estagnação das mágoas,
Como nas tardes baças, no mar morto,
A dolorosa solidão das águas.

Povo sem nexo, raça sem suporte,
Que, agitada, indecisa, nem repare
Em que é raça e que aguarda a própria morte
Como a um comboio expresso que aqui pare.

Torvelinho de doidos, descrença
Da própria consciência de se a ter,
Nada há em nós que, firme e crente, vença
Nossa impossibilidade de querer.

Plagiários da sombra e do abandono,
Registramos, quietos e vazios,
Os sonhos que há antes que venha o sono
E o sono inútil que nos deixa frios.

Oh, que há-de ser de nós? Raça que foi
Como que um novo sol ocidental
Que houve por tipo o aventureiro e o herói
E outrora teve nome Portugal...

(Fala mais baixo! Deixa a tarde ser
Ao menos uma extrema quietação
Que por ser fim faça menos doer
Nosso descompassado coração.

Fala mais baixo! Somos sem remédio,
Salvo se do ermo abismo onde Deus dorme
Nos venha despertar do nosso tédio
Qualquer obscuro sentimento informe.

Silêncio quase? Nada dizes! Calas
A esperança vazia em que te acho,
Pátria. Que doença de teu ser se exala?
Tu nem sabes dormir. Fala mais baixo!)

Ó incerta manhã de nevoeiro
Em que o rei morto vivo tornará
Ao povo ignóbil e o fará inteiro –
És qualquer coisa que Deus quer ou dá?

Quando é a tua Hora e o teu Exemplo?
Quando é que vens, do fundo do que é dado,
Cumprir teu rito, reabrir teu Templo
Vendando os olhos lúcidos do Fado?

Quando é que soa, no deserto de alma
Que Portugal é hoje, sem sentir,
Tua voz, como um balouço de palma
Ao pé do oásis de que possa vir?

Quando é que esta tristeza desconforme
Verá, desfeita a tua cerração,
Surgir um vulto, no nevoeiro informe,
Que nos faço sentir o coração?

Quando? Estagnamos. A melancolia
Das horas sucessivas que a alma tem
Enche de tédio a noite e chega o dia
E o tédio aumenta porque o dia vem.

Pátria, quem te feriu e envenenou?
Quem, com suave e maligno fingimento
Teu coração suposto sossegou
Com abundante e inútil alimento?

Quem faz que durmas mais do que dormias?
Que faz que jazas mais que até aqui?
Aperto as tuas mãos: como estão frias!
Mão do meu ser que tu amas, que é de ti?

Vives, sim, vives porque não morreste...
Mas a vida que vives é um sono
Em que indistintamente o teu ser veste
Todos os sambenitos do abandono.

Dorme, ao menos de vez. O Desejado
Talvez não seja mais que um sonho louco
De quem, por muito ter, Pátria, amado,
Acha que todo o amor por ti é pouco.

Dorme, que eu durmo, só de te saber
Presa da inquietação que não tem nome
E nem revolta ou ânsia sabes ter
Nem da esperança sentes sede ou fome.

Dorme, e a teus pés teus filhos, nós que o somos,
Colheremos, inúteis e cansados,
O agasalho do amor que ainda pomos
Em ter teus pés gloriosos por amados.

Dorme, mãe Pátria, nula e postergada,
E, se um sonho de esperança te surgir,
Não creias nele, porque tudo é nada,
E nunca vem aquilo que há-de vir.

Dorme, que a tarde é finda e a noite vem.
Dorme que as pálpebras do mundo incerto
Baixam solenes, com a dor que têm,
Sobre o mortiço olhar inda desperto.

Dorme que tudo cessa, e tu com tudo,
Quererias viver eternamente,
Ficção eterna ante este espaço mudo
Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente

Nem paira mais no ar, que fora almo
Se não fora a nossa alma erma e vazia,
Que o nosso fado, vento frio e calmo
E a tarde de nós mesmos, baça e fria

Como longínquo sopro altivo e humano
Essa tarde monótona e serena
Em que, ao morrer, o imperador romano
Disse: Fui tudo, nada vale a pena.


02/06/1935
6 453

Divido o que conheço.

Divido o que conheço.
De um lado é o que sou
Do outro quanto esqueço.
Por entre os dois eu vou.

Não sou nem quem me lembro
Nem sou quem há em mim.
Se penso me desmembro.
Se creio, não há fim.

Que melhor que isto tudo
É ouvir, na ramagem
Aquele ar certo e mudo
Que estremece a folhagem.


10/09/1934
3 793

Terceiro: CALMA

TERCEIRO

CALMA

Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?


15/02/1934
4 617

Sonho sem fim nem fundo.

Sonho sem fim nem fundo.
Durmo, fruste e infecundo.
Deus dorme, e é isso o mundo.

Mas se eu dormir também
Um sono qual Deus tem
Talvez eu sonhe o Bem –

O Bem do Mal que existo.
Esse sonho, que avisto,
Em mim chamo-lhe o Cristo.

II

Agora o seu ser ausente,
Surge o que há de presente
Na ausência, eternamente.

Não foi em cruz erguida
Num calvário da vida,
Mas numa cruz vivida

Que foi crucificado
O que foi, em seu lado,
Por lança golpeado.

III

E desse coração
Água e sangue virão,
Mas a verdade não...

Só quando já, descido
De aonde foi subido
Para ser escarnecido,

Seu corpo for baixar
Onde se há-de enterrar,
O haverei de encontrar.

IV

Desde que o mundo foi
No mundo à alma dói
O que ao mundo destrói.

Desde que a vida dura
Tem a vida a amargura
De ser mortal e impura.

E assim na Cruz se fez
A vida, para que a nós
Veja o melhor de nós.

V

O túmulo fechado
Aberto foi achado
E vazio encontrado.

Meu coração também
É o túmulo do Bem,
Que a vida bem não tem.

Mas há um anjo a me ver
E a meu lado a dizer
Que tudo é outro ser.


02/07/1934
4 469

Sabes quem sou? Eu não sei.

Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.


12/04/1934
5 529

Citações

40

Obras

12

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Comentários (42)

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Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

Luis Rodrigues

cmt

Tomás Lopes

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha

O profeta dos poetas!

o tal
o tal

ignorante