Noite Trágica
O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
Noites da Minha Terra
Anda o luar espalhando fios de prata
Pelos campos fora... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!
As estrelas cadentes vão ’spalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pro altar, além na serra...
É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar
As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!...
As Quadras D’Ele I
[1]
Andam sonhos cor do mar
Nas minhas quadras, imersos,
Se queres comigo sonhar,
Canta baixinho os meus versos.
[2]
Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.
Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.
[3]
Se é um pecado sonhar
Tenho um pecado na vida,
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.
Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vá encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.
[4]
Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?
Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.
[5]
Tens um coração de pedra
Dentro dum peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia ou quem te ama.
Por uma que te despreza,
Teu coração endoidece,
E a pobre que te quer bem
Só teus desprezos merece!
[6]
Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspectos de lousas!
Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemitério...
[7]
Teus olhos têm uma cor
Duma expressão tão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.
É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.
Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa
Se a mágoa tivesse cor!
[8]
Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,
Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.
[9]
Levanta os olhos do chão,
Olha de frente pra mim
Fingindo tanto desprezo,
Que podes ganhar assim?
Não andes tão distraído,
Contando as pedras da rua,
Não sei pra que finges tanto...
Tu és meu e eu sou tua...
Levanta os olhos do chão.
Que podes ganhar assim?
Se Deus nos fez um pro outro,
Para que foges de mim?!
[10]
Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar minha dor
Quero enterrar-me assim nova.
Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.
[11]
Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m’odeia
E adoro quem me quer bem.
[12]
Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.
[13]
Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.
[14]
Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!
[15]
Quando fito o teu olhar
Tão frio e tão indiferente,
Fico a chorar um amor
Que o teu coração não sente.
[16]
O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida p’los olhos teus.
[17]
Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer,
Mas ao sentir os teus passos,
Põe-se a bater... a bater...
[18]
Andam pombas assustadas
No teu olhar, adejando,
Mal sentem os meus olhos,
Batem as asas, voando.
[19]
Há sonhos que ao enterrar-se,
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços de coração!
Poder da Graça
Altiva e perfumada em cetinoso trem
Passeia uma mundana à luz da tarde quente,
O seu olhar gelado onde se lê desdém
Passeia pela rua, altivo e insolente.
Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.
Nem o rir da criança ou o sorrir da luz
Dão vida àquela sombra altiva que seduz
A multidão absorta em roda, a murmurar...
Uma mendiga passa. É ’ma beleza ideal!
Nasceu do seu olhar o céu de Portugal!
...............................................................
Abaixa então a rica o luminoso olhar!
Súplica
Digo pra mim
Quando ele passa:
Ave-Maria
Cheia de graça!
E quando ainda
Mal posso vê-lo:
Bendito Deus
Como ele é belo!
Embalada num sonho aurifulgente
Sei apenas que sonho vagamente,
Ao avistar, amor, teus olhos belos,
Em castelãs altivas, medievais,
Que choram às janelas ogivais,
Perdidas em românticos castelos!
As Quadras D’Ele Iv
[1]
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.
[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!
[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.
Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.
[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.
Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!
[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!
[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!
[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!
Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!
Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!
[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
Outono
Outono vem em fulvas claridades...
Vamos os dois esp’rá-lo de mãos dadas:
Tu, desfolhando as rosas das estradas,
E eu, escutando o choro das saudades...
Outono vem em doces suavidades...
E a acender fogueiras apagadas
Andam almas no céu, ajoelhadas...
E a terra reza a prece das Trindades.
Choram no bosque os musgos e os fetos.
Vogam nos lagos pálidos e quietos,
Como gôndolas d’oiro, as borboletas.
Meu Amor! Meu Amor! Outono vem...
Beija os meus-olhos roxos, beija-os bem!
Desfolha essas primeiras violetas!...
Sem Palavras
Brancas, suaves, doces mãos de irmã
Que são mais doces do que as das rainhas,
Hão-de poisar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.
E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há-de poisar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.
Meus olhos hão-de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!
E nunca se amará ninguém melhor:
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!...
Cegueira Bendita
Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
Às Mães de Portugal
Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
Florbela exagerada que só ela vi
Florbela, com metro ou sem métrica tenho raiva do tempo em que nos perdemos. Não acredito em épicas declarações apesar de um dos maiores de todos. Preferia ser aquela ou quem quisesses que fosse e saciasse rua sede de infinito como amiga ou realidade à tua escolha. Essa languidez envolve-me e esse medo esse frio... Pudera estar aí para te dar uma palavra uma mão uma opinião de como és real e completamente gente, admiravelmente mulher, poetiza por decorrências irresolvidas. Beijinhos
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
POESIAS SAO CHATAS MAS SAO MUITO ESPERIENTES DE FAZER NAO SEI OQUE MAS E LEGAL KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Cada um é livre de pensar....penso que Florbela viveu a "sua vida" como ela entendeu. Os seus Sonetos sâo uma Obra prima em verso; Soneto; duas quadras e dois terceitos...neles mostra bem que conhecia e manobrava bem a lingua portuguesa. A sua Vida, mesmo no nascimento vemos que toda ela é uma procura de Amor filial e muito mais: três casamentos que falham...Amor que ela procura e procurou sem Nunca o ter encontrado, devido a ser, talvez, impossivel; pois, ela procurava um Amor perfeito, esse amor tâo desejado e Nunca conseguido....penso que viveu muito cêdo em relaçâo à sua época.
Amei os poemas a histótia dessa muher incrivel
"OS VERSOS QUE TE FIZ" ESTE È O MEU POEMA PREFERIDO!!ROMANTICO EROTIZADO....
Tomei conhecimento por um cartaz no metro de São Paulo... projeto "poesia no metrô" e li o trecho de "amiga" achei de uma sensibilidade maravilhosa. Concordo com Ruth Rossini " OLHAR TRISTE... COMO QUEM ESTA A ESPERAR ALGO,ALGO QUE NUNCA CHEGA.. E ACHO QUE PARA ELA NUNCA CHEGOU.." E quem nunca se sentiu assim ?
Só li esta biografia porque tenho de fazer um trabalho sobre ela na escola, senao, eu acho que nunca iria dar ao trabalho de ler este monte de palavras!
Florbela Espanca era um nome que eu trago desde a infância,sem ter a noçâo de quem era,sem ter a miníma idéia da importãncia dessa pessoa,do seu legado etc..Hoje movida por um sentimento de não -sei-o-que,resolvi pesquisar e matar minha curiosidade sobre ela.Diante de tudo lido visto,relido,revisto resta-me uma questão porque eu me sinto ligada a Florbela?Sempre tive uma certa atraçâo por ela,só pelo nome,agora então os sentimentos dela parecem com os meus.
Vou apenas dizer isto: Concordo com a MARIANA(02/10/2011),e RUTH ROSSINI(20/06/2011), e as pessoas não podem falar sem saber, sentir, amar, assim :´´perdidamente´´, como Ela. PONTO FINAL.
so estou aki pq tenho q fazer um trabalho sobre ella naescola
Com certeza a maior poetisa portuguesa. As pessoas deveram se informar para não ficar escrevendo tantas bobagens a respeito de uma poetisa de tamanha grandeza.
eu adorei nota 10 para FLORBELA ESPANCA.
Foi a maior poetisa portuguesa até hoje. Pelo domínio da Língua Portuguesa, pela sensibilidade. Leiam-lhe a obra e sintam-na! Infelizmente possuía uma alma sôfrega de um tipo de amor que não existe. Daí a sua tragédia. Mas, mesmo assim, foi grande, grande!
OLHAR TRISTE... COMO QUEM ESTA A ESPERAR ALGO,ALGO QUE NUNCA CHEGA.. E ACHO QUE PARA ELA NUNCA CHEGOU..
Tive uma professora de literatura q nos apresentou florbela espanca,nunca esqueci de sua palavras em relação a poetisa,soube q Fagner inspirou-se em muitas músicas sua,e ele dizia q havia um caso enter ela e o irmão q não podia ser concretizado,daí tanta angustia,solidão.....
Não conheçia a Florbela Espanca, até saber que a música FANATISMO - Cantada pelo cantor brasileiro - FAGNER, teve a letra baseada em sua poesia de mesmo nome. Gostei de algumas poesias - contudo acho-as tristes e uma pessoa que cultivava tanta tristeza, não poderia ter outro fim.
calen-se masé , a ´women é sensacional e very beutiful, but acho very bad o facto de ela ter batido a bota tão cedo , tenho very penucha de vocês , vocês têm very lucky de não ter batido a bota em vez dela, curtam a vida , fiquem bem peace and love .!
Por amor de Deus Filipa isso que dizes é pura ignorância ... Se leste bem a biografia entenderias que ela sofreu bastante ao longo da sua vida
esta mulher suisidou-se nao acho isso cotrrecto tantas crianças que vao á net e ficam assustadasjskkslklzd