Há nos teus olhos
Há nos teus olhos de dominador,
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
As quadras d’ele IV
[1]
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.
[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!
[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.
Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.
[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.
Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!
[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!
[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!
[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!
Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!
Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!
[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
Idílio
Um idilio passou á minha rua
Ontem a horas mortas e caladas,
Ele e Ela passaram de mãos dadas,
Mais brancos do que a própria luz da luz
Passaram ao clarão do amor primeiro,
Olhos nos olhos cheios de luar.
E no seio da noite aquele olhar
Par’cia encher de sol o mundo inteiro!
E Deus mandou que a terra se calasse,
Que ouvisse os passos deles, que escutasse
Como o Amor caminha devagar...
Era a terra calada como um monge...
E os passos deles ao perder-se ao longe,
O coração da noite a palpitar!...
V
Dize-me, Amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.
Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!
Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,
Agonia sem fé dum moribundo,
Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, Amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!
As quadras d’ele
Em noites calmas, serenas
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...
E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!
Aos bons amigos da torre
A todos, sem exceção, muitos abramos:
Raparigas, rapazes, novos, velhos!
Que eu, de alma erguida ao alto e de joelhos,
Os tenha, um só instante, nos meus braços!
Que da nossa afeição os ténues laços
Se tornem firmes como os Evangelhos!
Que dos mais belos, dos mais feios concelhos
Deus, para a Torre, vos dirija os passos!
Até pro ano, firmes, lá na Torre!
Demos as nossas almas esse gosto!
Fica abolida a morte! Ninguém morre!
E queira Deus e mais a Virgem Santa
Que passem o ano bem... mas que em Agosto
Sofram todos dos brônquios e garganta...
Amei um dia
Amei um dia... uni dia... eu já nem sei
Há quanto tempo foi que assim amei...
E esse amor foi rir!...
Tinha talvez quinze anos, quinze apenas...
Alvorada de lírios e açucenas...
E esse amor foi rir!...
Tive então outro amor ainda aos vinte anos,
Amor de sonhos bons, amor d’enganos,
E já sorri apenas!...
Foi como quem rezasse a um altar,
Numa prece cantante a murmurar...
E já sorri apenas!...
Amo-te agora a ti, e com que amor —!
Soluço triste em turbilhões de dor!
É só chorar, chorar...
Mas afinal também os corações
não vivem só de risos e canções!
Eu antes quer’ chorar!
A luz ignóbil
A luz ignóbil, informe,
É um diamante enorme
Engastado no azul duma safira...
A ignóbil luz
Inunda toda a rua...
O Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
Á janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...
Ó Almas de grangrenas,
Almas ’slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas como ralhos
Cortantes como gritos!
Almas onde se perdem infinitos!...
Almas trágicas de feias
Que nunca acreditaram
Em beijos e noivados...
E que desperdiçaram
Quimeras aos braçados
E sonhos as mãos cheias!...
ò almas de assassinos que morreram
E riram e mataram!
Almas de garras que se esclavinharam
Em carnes virgens por sensualidade!
Almas de orgulho e de claridade
Talhadas em diamante!
Almas de gato-tigre, almas de fera!
O ébrios da quimera
O cisternas sem fundo!
Que trazeis nos olhos macerados
Seivas de Primavera...
Todo o horror do mundo!...
Ó Almas de boémios, rutilantes,
Que Não sabem que há sol,
Almas esfuziantes
Que atravessam o mar como um farol!
Ó Almas de poetas, assombradas,
Almas sagradas
De tanto adivinhar!
Almas maravilhadas
De arder em labaredas
Sem nunca se queimar!
Almas de velhas que querem agradar...
De amantes que Não cessam de enganar...
Ó Almas de ladrões
Onde passam, a rir, constelações!
Almas de vagabundos
Onde há charcos e lagos
Pântanos e lamas...
Onde se erguem chamas,
Onde se agitam mundos,
E coisas a morrer...
E sonhos... e afagos...
Almas sem Pátria,
Almas sem rei,
Sem fé nem lei!
Almas de anjos caídos,
Almas que se escondem pra gemer
Como leões feridos!
Vinde todas aqui á minha voz
Que o mundo é ermo
E estamos sós.
Vós todas que sois iguais a mim
O Almas de mentira!
Vinde á minha janela, á minha rua
Ver a ignóbil luz,
A luz informe,
O diamante enorme,
Engastado no azul duma safira...
Vai passar certamente a procissão...
Na minha rua vai um riso franco
Um riso de alvorada!
Há dentro dela tudo quanto é branco!
É urna asa de pomba, desdobrada!...
Brancos os lilases e as rosas...
Mudou-se em prata o oiro das mimosas
E há lirios as molhadas,
Aos feixes, ás braçadas...
Tudo branco, Meu Deus!
Lá vêm os anjos todos de brocado,
De olhos ingénuos e resplendor...
O ar tem o sabor
Dum grande morangal
Que nunca foi tratado...
Olhem as virgens, olhem! Que sorriso!
Vieram do Paraíso
mesmo agora...
E todo o ar
Parece acabadinho de lavar
Ao despontar da aurora...
Caem do céu miríades de penas
Leves como aves...
Dulcíssimas, suaves...
Curvam-se as açucenas...
Em mãos de prata lá vêm os Evangelhos
As casas, ao luar, são mais pequenas
Puseram-se — quem sabe?... — de joelhos...
O ar é virginal...
Um templo de cristal
Onde, rodopiando,
Passam brandas, arfando,
Como asas de pombas sobre as eiras,
O estandarte real
E pendões e bandeiras!...
Quem vem?...
Esvaiu-se num sopro a procissão...
Silencio! Nada! Ninguém!
Pasmo de coisas mortas!
Alucinação!
E o meu coração
Põe-se a bater às portas...
E não abre ninguém!
Ninguém! Ninguém! Ninguém!...
O primavera
Ó Primavera! Mocidade do ano.
Ó Mocidade! Primavera da vida.
Noite trágica
O Pavor e a Angústia andam dançando...
Um sino grita endeixas de poentes...
Na meia-noite d’hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!...
Que estais no céu... O que a minh’alma teme!
Tenho medo da noite!... Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!
<Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!...
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria Dor parece...
<Ó noite imensa, ó noite do Calvário
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ’squece!
Florbela exagerada que só ela vi
Florbela, com metro ou sem métrica tenho raiva do tempo em que nos perdemos. Não acredito em épicas declarações apesar de um dos maiores de todos. Preferia ser aquela ou quem quisesses que fosse e saciasse rua sede de infinito como amiga ou realidade à tua escolha. Essa languidez envolve-me e esse medo esse frio... Pudera estar aí para te dar uma palavra uma mão uma opinião de como és real e completamente gente, admiravelmente mulher, poetiza por decorrências irresolvidas. Beijinhos
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
POESIAS SAO CHATAS MAS SAO MUITO ESPERIENTES DE FAZER NAO SEI OQUE MAS E LEGAL KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Cada um é livre de pensar....penso que Florbela viveu a "sua vida" como ela entendeu. Os seus Sonetos sâo uma Obra prima em verso; Soneto; duas quadras e dois terceitos...neles mostra bem que conhecia e manobrava bem a lingua portuguesa. A sua Vida, mesmo no nascimento vemos que toda ela é uma procura de Amor filial e muito mais: três casamentos que falham...Amor que ela procura e procurou sem Nunca o ter encontrado, devido a ser, talvez, impossivel; pois, ela procurava um Amor perfeito, esse amor tâo desejado e Nunca conseguido....penso que viveu muito cêdo em relaçâo à sua época.
Amei os poemas a histótia dessa muher incrivel
"OS VERSOS QUE TE FIZ" ESTE È O MEU POEMA PREFERIDO!!ROMANTICO EROTIZADO....
Tomei conhecimento por um cartaz no metro de São Paulo... projeto "poesia no metrô" e li o trecho de "amiga" achei de uma sensibilidade maravilhosa. Concordo com Ruth Rossini " OLHAR TRISTE... COMO QUEM ESTA A ESPERAR ALGO,ALGO QUE NUNCA CHEGA.. E ACHO QUE PARA ELA NUNCA CHEGOU.." E quem nunca se sentiu assim ?
Só li esta biografia porque tenho de fazer um trabalho sobre ela na escola, senao, eu acho que nunca iria dar ao trabalho de ler este monte de palavras!
Florbela Espanca era um nome que eu trago desde a infância,sem ter a noçâo de quem era,sem ter a miníma idéia da importãncia dessa pessoa,do seu legado etc..Hoje movida por um sentimento de não -sei-o-que,resolvi pesquisar e matar minha curiosidade sobre ela.Diante de tudo lido visto,relido,revisto resta-me uma questão porque eu me sinto ligada a Florbela?Sempre tive uma certa atraçâo por ela,só pelo nome,agora então os sentimentos dela parecem com os meus.
Vou apenas dizer isto: Concordo com a MARIANA(02/10/2011),e RUTH ROSSINI(20/06/2011), e as pessoas não podem falar sem saber, sentir, amar, assim :´´perdidamente´´, como Ela. PONTO FINAL.
so estou aki pq tenho q fazer um trabalho sobre ella naescola
Com certeza a maior poetisa portuguesa. As pessoas deveram se informar para não ficar escrevendo tantas bobagens a respeito de uma poetisa de tamanha grandeza.
eu adorei nota 10 para FLORBELA ESPANCA.
Foi a maior poetisa portuguesa até hoje. Pelo domínio da Língua Portuguesa, pela sensibilidade. Leiam-lhe a obra e sintam-na! Infelizmente possuía uma alma sôfrega de um tipo de amor que não existe. Daí a sua tragédia. Mas, mesmo assim, foi grande, grande!
Tive uma professora de literatura q nos apresentou florbela espanca,nunca esqueci de sua palavras em relação a poetisa,soube q Fagner inspirou-se em muitas músicas sua,e ele dizia q havia um caso enter ela e o irmão q não podia ser concretizado,daí tanta angustia,solidão.....
Não conheçia a Florbela Espanca, até saber que a música FANATISMO - Cantada pelo cantor brasileiro - FAGNER, teve a letra baseada em sua poesia de mesmo nome. Gostei de algumas poesias - contudo acho-as tristes e uma pessoa que cultivava tanta tristeza, não poderia ter outro fim.
calen-se masé , a ´women é sensacional e very beutiful, but acho very bad o facto de ela ter batido a bota tão cedo , tenho very penucha de vocês , vocês têm very lucky de não ter batido a bota em vez dela, curtam a vida , fiquem bem peace and love .!
Por amor de Deus Filipa isso que dizes é pura ignorância ... Se leste bem a biografia entenderias que ela sofreu bastante ao longo da sua vida
esta mulher suisidou-se nao acho isso cotrrecto tantas crianças que vao á net e ficam assustadasjskkslklzd