Florbela Espanca

Florbela Espanca

1894–1930 · viveu 36 anos PT PT

Florbela Espanca foi uma poetisa portuguesa cuja obra, profundamente marcada pela paixão, pela dor e pelo sofrimento amoroso, a tornou uma das vozes femininas mais reconhecidas da literatura portuguesa. Sua poesia, intensamente lírica e confessional, explora as angústias do amor não correspondido, a efemeridade da felicidade e a força avassaladora dos sentimentos, utilizando uma linguagem rica em metáforas e em forte expressividade. Apesar de uma vida curta e atormentada, Florbela deixou um legado poético de rara intensidade e beleza, que continua a cativar leitores pela sua honestidade brutal e pela sua capacidade de expressar as mais íntimas dores e anseios da alma humana.

n. 1894-12-08, Vila Viçosa · m. 1930-12-08, Matosinhos

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Ser Poeta

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Florbela de Alma da Conceição Espanca, conhecida como Florbela Espanca, foi uma poetisa portuguesa. Nasceu em Vila Viçosa, Alentejo. Pseudónimos como "Flor" ou "Florbela de Alma" foram por ela utilizados. Pertenceu à geração do Orpheu, embora com uma obra que, por vezes, escapa às categorias estritas dos movimentos literários da época. Viveu a primeira metade do século XX, um período de grandes transformações sociais e políticas em Portugal.

Infância e formação

A infância de Florbela foi marcada pela perda da mãe, que faleceu ao dar à luz, sendo criada pelo pai e pela madrasta. Este facto, juntamente com a sua própria experiência amorosa, viria a influenciar profundamente a sua obra. Foi uma estudante dedicada, licenciando-se em Direito pela Universidade de Lisboa, uma conquista notável para uma mulher da sua época. Absorveu influências da literatura romântica, simbolista e de poetas como Camões e Antero de Quental.

Percurso literário

O seu percurso literário iniciou-se precocemente com a escrita de poemas e contos, mas a publicação do seu primeiro livro, "Isto é... Viv-e-morrer", ocorreu apenas em 1925. A sua obra, embora curta, é de uma intensidade notável, marcada por uma evolução na forma e na temática, sempre centrada na sua experiência pessoal e nos seus sentimentos. Colaborou em jornais e revistas, nomeadamente na revista "Contemporânea", onde partilhou espaço com outros vultos da literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais conhecidas incluem "Isto é... Viv-e-morrer" (1925), "Vida" (1925), "Serenidade" (1927), e as coletâneas póstumas "Fumo, Chão e Outras Poesias" e "Poemas de Florbela". Os temas dominantes na sua obra são o amor (na sua vertente mais passional, idealizada e, por vezes, sofredora), a morte, a solidão, a angústia existencial e a busca pela identidade. O seu estilo é intensamente lírico, confessional e dramático, com uma forte musicalidade e um uso expressivo da metáfora e da hipérbole. Utilizou predominantemente o soneto, com grande mestria, mas também o verso livre. A sua linguagem é apaixonada, por vezes desesperada, refletindo a intensidade dos seus sentimentos. A obra de Florbela Espanca, embora inserida no contexto do Modernismo, possui uma voz única e inconfundível, focada na exploração das profundezas do eu e da experiência amorosa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Florbela viveu numa época em que as mulheres tinham um papel social ainda muito restrito, e a sua expressão literária, especialmente a confessional e passional, era vista com desconfiança por alguns setores da sociedade. A sua obra, contudo, ecoou o desejo de liberdade e de expressão que pairava no ar, dialogando com as inquietações da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Florbela foi marcada por uma intensa busca pelo amor idealizado, com relacionamentos amorosos que frequentemente terminavam em desilusão e sofrimento. Sofreu com a perda de um filho e com os desencontros sentimentais. Casou duas vezes. Dedicou-se à docência em escolas primárias, o que lhe garantia sustento, mas a sua verdadeira vocação era a poesia. A sua vida pessoal e a sua obra estão intrinsecamente ligadas, servindo a poesia como um meio de exorcizar as suas dores e angústias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Florbela Espanca teve um reconhecimento limitado, mas a sua obra ganhou notoriedade após a sua morte. Hoje, é considerada uma das mais importantes e influentes poetisas da literatura portuguesa, com uma legião de admiradores que se identificam com a sua intensidade emocional e a sua honestidade poética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Camões, Antero de Quental e Camilo Pessanha, Florbela Espanca, por sua vez, influenciou inúmeras poetisas e poetas, especialmente aqueles que se debruçam sobre a temática do amor e da dor. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz às mais profundas angústias do coração humano, tornando a sua poesia um espelho para muitos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Florbela tem sido objeto de diversas leituras, que destacam a sua dimensão psicológica e existencial, a sua revolta contra as convenções sociais e a sua busca incessante por um amor que lhe trouxesse plenitude. A sua poesia é frequentemente analisada sob a perspetiva do desamparo e da resiliência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Florbela era conhecida pela sua beleza e pelo seu temperamento forte. A sua paixão pela escrita era tão intensa que muitos dos seus poemas foram escritos em momentos de grande sofrimento. A relação complexa com o pai e a figura idealizada do amor marcaram profundamente a sua vida e a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Florbela Espanca faleceu precocemente, vítima de tuberculose, em Espinho. A sua morte, tão jovem, deixou um vazio na literatura portuguesa. A publicação póstuma dos seus poemas permitiu que a sua voz ressoasse ao longo do tempo, garantindo a sua imortalidade literária.

Poemas

292

Navios-Fantasmas

O arabesco fantástico do fumo
Do meu cigarro traça o que disseste,
A azul, no ar; e o que me escreveste,
E tudo o que sonhaste e eu presumo.

Para a minha alma estática e sem rumo,
A lembrança de tudo o que me deste
Passa como o navio que perdeste,
No arabesco fantástico do fumo...

Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros,
Têm o brilho rutilante de astros,
Navios-fantasmas, perdem-se a distância!

Vão-me buscar, sem mastros e sem velas,
Noiva-menina, as doidas caravelas,
Ao ignoto País da minha infância...
7 669

O Meu Orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

O que eu mais amo é que mais me esquece...
E eu sonho: “Quem olvida não merece...”
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!
8 881

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso d’alto pensamento,
E puro como um ritmo d’oração!
– E sei; depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
10 222

Amor Que Morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer
E são precisos sonhos pra partir.

Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
Doutro amor impossível que há de vir!
7 380

Poetas

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
11 270

Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro,
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...
8 767

O Meu Alentejo

Meio-dia: O sol a prumo cai ardente,
Doirando tudo. Ondeiam nos trigais
D’oiro fulvo, de leve... docemente...
As papoilas sangrentas, sensuais...

Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o oiro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros...

Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador...
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: Onde há pintor,

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!
11 225

A Nossa Casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro – tão bom! – dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...
8 466

Silêncio!...

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se poisou e se perdeu!

Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...
8 476

A Uma Rapariga

À Nice

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!...
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Comentários (26)

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robertinho de roberto
robertinho de roberto

FLORBELA ESPANCA : paixão na primeira poesia! poesia que vasa sentimento pra todos os lados! sentimentos que espelham sofrimentos d'alma!

mcegonha

Alma luz! Poesia.

texto bom
texto bom

naseu en 8 de dezembro e moreu em 8 de dezembro

euskadia

.....quanto à violência mefítica daqueles que, por não se saberem sentados em palha, julgarão seus atributos na jactância da vil existência que se lhes (a eles próprios) conferem. Falar ou opinar sobre língua portuguesa e, com quem dela se serviu para redesenharem a sua alma como Deus assentiu o mundo pela geometria, sem o fervor da deferência, então nada sabe sobre o parir duma Essência

euskadia

.....começo sempre com reticências quando a minha alma não sabe o que ordenar à mão manuense....algo tangível que se lhe dedique humanamente possível atingi-la por tamanha arte de pôr na dor a poesia de sentir,, eu estive em Vila viçosa, e esta de flor só tem que ser viva