Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

1927–2013 · viveu 85 anos BR BR

Francisco Carvalho é um poeta português cuja obra se caracteriza por uma forte veia lírica e introspectiva, explorando temas como a memória, a efemeridade do tempo e a condição humana. Com uma linguagem cuidada e uma sensibilidade aguçada, Carvalho constrói em seus versos paisagens interiores que ressoam com a experiência universal do sentir e do existir.

n. 1927-06-11, Russas · m. 2013-04-03, Langenbroich

19 872 Visualizações

Canção da Oferta

Te ofereço um búzio
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.

Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.

Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.

Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.

Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Francisco Carvalho é um poeta português. Poucas informações sobre pseudónimos ou heterónimos são publicamente acessíveis. A sua nacionalidade e a língua de escrita são o português.

Infância e formação

Detalhes sobre a infância e a formação educacional de Francisco Carvalho não são amplamente divulgados. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver a sua vocação literária e uma compreensão profunda da linguagem.

Percurso literário

O percurso literário de Francisco Carvalho é marcado por uma produção poética consistente. A sua obra tem vindo a ser publicada e a ganhar reconhecimento no panorama literário contemporâneo em língua portuguesa. A evolução do seu estilo poético, ao longo do tempo, reflete um aprofundamento temático e formal.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Francisco Carvalho destaca-se pela sua profunda carga lírica e introspectiva. Os temas centrais explorados incluem a memória, a passagem do tempo, a fugacidade da vida, a saudade e a própria condição humana. A linguagem poética de Carvalho é marcada pela sua elegância, pela densidade imagética e pela musicalidade, criando uma atmosfera contemplativa e emotiva. Utiliza frequentemente metáforas e símbolos para evocar estados de espírito e reflexões sobre a existência. O seu estilo pode ser associado a uma sensibilidade contemporânea, que dialoga com a tradição lírica portuguesa, mas com um toque pessoal e inovador.

Contexto cultural e histórico

Francisco Carvalho insere-se no contexto da poesia portuguesa contemporânea, um período de diversidade e experimentação. A sua obra reflete, de forma implícita ou explícita, as inquietações e sensibilidades do seu tempo, dialogando com as correntes literárias e culturais vigentes.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Francisco Carvalho, como relações familiares, afetivas, amizades literárias ou profissões paralelas, não são amplamente disponibilizadas publicamente.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Francisco Carvalho tem vindo a consolidar-se através da sua obra poética. A receção crítica tem realçado a qualidade lírica e a profundidade das suas reflexões. A sua poesia tem sido incluída em antologias e publicações literárias, sinalizando a sua importância crescente.

Influências e legado

Embora influências específicas não sejam detalhadas, a poesia de Francisco Carvalho partilha afinidades com a rica tradição lírica da literatura de língua portuguesa. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor com uma poesia que aborda a universalidade das emoções humanas de forma original e sensível.

Interpretação e análise crítica

A obra de Francisco Carvalho convida a uma análise crítica que explore as suas camadas de significado, os temas filosóficos e existenciais que aborda, e a forma como a sua linguagem poética constrói pontes entre o indivíduo e o coletivo.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Devido à sua natureza reservada, aspetos menos conhecidos da personalidade ou do processo criativo de Francisco Carvalho não são de fácil acesso, o que contribui para uma aura de discrição em torno da sua figura literária.

Morte e memória

Não existem informações públicas que indiquem a morte de Francisco Carvalho, sugerindo que o autor possa estar vivo ou que a sua trajetória não tenha sido marcada por eventos que levem a registos biográficos completos de falecimento.

Poemas

14

Canção da Oferta

Te ofereço um búzio
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.

Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.

Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.

Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.

Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.

1 088

Domingo

É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos

ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos

e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio

O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.

É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.

1 093

Lição de Espaço

O homem no espaço
é a sombra de Sísifo.

O espectro da esfinge
O vertigem do tísico.

O homem no espaço
é a pedra no vértice.

A folha que tomba
1no vórtice.

1 101

Testamento Real

Fui nascido rei
num pomar de luxúrias
me puseram na cabeça
o colar de chamas
dos heróis.

Conheci as rotas do mar
e suas mitologias
de concha e sal.
Minha nau de exílios
um dia ancorou
nos mares de Ulisses.

Construí palácios
de cristal no vértice
das escarpas.
Meus rebanhos pastavam
girassóis em todas
as encostas dos mapas.

Tive vassalos
e cães fiéis.
Duzentas amantes
cavalgaram meu corpo
da cabeça aos pés.

Fui íntimo das águas
e das marés
cem vezes morri
duzentas vezes ressuscitei
voltei do exílio
num esquife de pedra.

Escrevi estas palavras
no papiro
para que reste de mim
algum vestígio
e para que saibam
que um rei

vive para sempre
à sombra do herói.

1 027

O Tempo nos Desfolha

O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.

1 133

As Vacas

Nos currais da fazenda
as vacas paridas
acalentam os bezerros
com as suas línguas
transbordantes de oferendas
os seus gemidos de ouro
escrevem uma lenda
de desejos
no espinhaço do touro.

1 744

Escada do Paraíso

Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.

1 258

Sala

Ouço passos vindos
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.

1 034

Aranha

Medusa
tecelã dos fios
da morte.

Seus olhos de Górgona
dilaceram
o corpo do vento.

Transformam
em rochas de sal
os filhos do nosso invento.

II

Num raio de sol
os fios da teia.
Arquitetura de vidro
com vigas de areia.

O fulgor da trama
que o vento incendeia.
Numa gota de orvalho
os olhos da teia.

Medusa acordada
a aranha passeia
nas ruas de seda
do seu devaneio.

III

Arquiteta
dos minutos
fiandeira
do tempo circular
semeadora
das messes do vazio
ceifadora
de asas e de vôos
contemporânea
dos anjos e da morte.

1 567

Gravura Nordestina

A Eduardo Campos

Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.

As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.

Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.

Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.

Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.

Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.

Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.

Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.

Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.

O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.

O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.

Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.

Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.

Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.

Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.

1 180

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.