Lista de Poemas

O Tempo nos Desfolha

O tempo nos desfolha
com sua foice de murmúrios

somos o rebanho de cabras
pastando o caos

somos os tufos de relva
nas frestas da rocha
batida pelo mar

onde a nau de Ulisses
ainda ancora

somos a escória do mito
a rota em que navega
a nossa penúria.

1 093

Poema para Escrever no Asfalto

Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração
e o quanto sobra do naufrágio
das nossas utopias.

Agora eu sei o que significa a fala dos mortos
e esta parábola soterrada
que jorra das veias da pedra.

Agora eu sei o quanto custa o ouro das palavras
e este pacto de sangue
com as metáforas do tempo.

Agora eu sei o que se passa no coração de treva
e do homem que morre mendigando
a própria liberdade.

Agora eu sei que o pão da terra nunca foi repartido
com a nossa pobreza
e com a solidão de ninguém.

Agora eu sei que é preciso agarrar a vida
como se fosse a última dádiva
colocada em nossas mãos.

1 062

Gravura Nordestina

A Eduardo Campos

Este sol é um deus feroz
que dardeja e que incendeia
os esqueletos dos bois.

As redondas oiticicas
são carpideiras de luto
chorando a morte dos brutos.

Em vôos rasantes, ao léu,
os urubus mais parecem
anjos expulsos do céu.

Gaviões roçam de esguelha
as asas martirizadas
nas costelas das ovelhas.

Cigarra, ali,devaneia.
Morre de tanto cantar
em sua concha de areia.

Uma rajada de vento
sacode os gonzos das portas
como se fosse um lamento.

Os leitos secos dos rios
são tumbas de faraós
ou de monarcas fenícios.

Quando o sol chega no vértice
os mandacarus acendem
os seus fanais de quermesse.

Os bichos magros cochilam
à sombra dos juazeiros
à espera de alguma brisa.

O canto da juriti
trespassa as almas dos homens
com seu punhal de vizir.

O balido das ovelhas
assusta as aves e os ninhos
que elas fizeram nas telhas.

Entre esquivâncias e astúcias
jumenta se entrega ao macho
que entorna o vinho das núpcias.

Ao mugido de uma rês
percorre toda a paisagem
um clamor de viuvez.

Nas varandas das fazendas
as redes brancas desenham
corpos que são oferendas.

Ninguém que ouse ou que vá
toldar os sonhos de linho
das moças no copiá.

1 145

Escada do Paraíso

Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.

1 217

As Vacas

Nos currais da fazenda
as vacas paridas
acalentam os bezerros
com as suas línguas
transbordantes de oferendas
os seus gemidos de ouro
escrevem uma lenda
de desejos
no espinhaço do touro.

1 699

Sala

Ouço passos vindos
do alpendre
para dentro da sala.
Será o vento que fala
coisas da cabala?
Ou será o morto
de regresso à senzala?
O vento se cala
e um rumor de sedas
resvala
no ladrilho da sala.
No alto da cumeeira
a coruja gargalha.
De novo o mistério
se instala
em cada movimento
da sala.

991

Adágio Para um Tigre

Quando ele passeia pela floresta
os astros se escondem em seus casulos
de cristal e as ramagens genuflexas
derramam no ar gorjeios de alaúdes.

O tigre escuta o cântico das árvores
seduzidas pela flauta de Pã.
Seus olhos, dançarinos entre as flores
querem dormir ao sol de Aldebarã.

A noite arrasta o seu manto de búzios
sobre os pântanos coroados de chamas.
O tigre é um deus que sai de seus refúgios
para comer os brolhos das semanas.

O vento apaga as lâmpadas dos charcos
volta a zumbir nas veias dos cipós.
O tigre escreve a lenda de seus passos.
Em seu rumor canta secreta voz.

As horas passam, suas vestes longas
tocam de leve as harpas das clareiras.
O andar do tigre e o espírito das sombras
são dois impulsos para as profundezas.

1 064

Tríptipo

I

tudo o que possuis
a alma, o pomar da lascívia

a fome de palavras
a sede de volúpia

a sentença lavrada
na poeira dos arquivos:

tudo cabe, poeta,
dentro de uma gaveta.

II

o olho da serpente
passeia na treva
o seu fulgor breve

lambe o odor da presa
entre folhas mortas

mastiga as horas
e uma ceia de besouros.

III

somos apanhados
numa teia de mitos

nada sabemos da alma
e do logaritmo binário

entre conchas e búzios
baionetas e obuses

a esfinge nos espreita
nos decifra e devora.

990

Lavoura

As minhas mãos

já foram robustas

já plantaram

sementes de milho

nas terras dos filisteus

hoje só semeiam

as lavouras do adeus.

2 246

Aranha

Medusa
tecelã dos fios
da morte.

Seus olhos de Górgona
dilaceram
o corpo do vento.

Transformam
em rochas de sal
os filhos do nosso invento.

II

Num raio de sol
os fios da teia.
Arquitetura de vidro
com vigas de areia.

O fulgor da trama
que o vento incendeia.
Numa gota de orvalho
os olhos da teia.

Medusa acordada
a aranha passeia
nas ruas de seda
do seu devaneio.

III

Arquiteta
dos minutos
fiandeira
do tempo circular
semeadora
das messes do vazio
ceifadora
de asas e de vôos
contemporânea
dos anjos e da morte.

1 534

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Identificação e contexto básico

Francisco Carvalho é um poeta português. Poucas informações sobre pseudónimos ou heterónimos são publicamente acessíveis. A sua nacionalidade e a língua de escrita são o português.

Infância e formação

Detalhes sobre a infância e a formação educacional de Francisco Carvalho não são amplamente divulgados. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver a sua vocação literária e uma compreensão profunda da linguagem.

Percurso literário

O percurso literário de Francisco Carvalho é marcado por uma produção poética consistente. A sua obra tem vindo a ser publicada e a ganhar reconhecimento no panorama literário contemporâneo em língua portuguesa. A evolução do seu estilo poético, ao longo do tempo, reflete um aprofundamento temático e formal.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Francisco Carvalho destaca-se pela sua profunda carga lírica e introspectiva. Os temas centrais explorados incluem a memória, a passagem do tempo, a fugacidade da vida, a saudade e a própria condição humana. A linguagem poética de Carvalho é marcada pela sua elegância, pela densidade imagética e pela musicalidade, criando uma atmosfera contemplativa e emotiva. Utiliza frequentemente metáforas e símbolos para evocar estados de espírito e reflexões sobre a existência. O seu estilo pode ser associado a uma sensibilidade contemporânea, que dialoga com a tradição lírica portuguesa, mas com um toque pessoal e inovador.

Contexto cultural e histórico

Francisco Carvalho insere-se no contexto da poesia portuguesa contemporânea, um período de diversidade e experimentação. A sua obra reflete, de forma implícita ou explícita, as inquietações e sensibilidades do seu tempo, dialogando com as correntes literárias e culturais vigentes.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Francisco Carvalho, como relações familiares, afetivas, amizades literárias ou profissões paralelas, não são amplamente disponibilizadas publicamente.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Francisco Carvalho tem vindo a consolidar-se através da sua obra poética. A receção crítica tem realçado a qualidade lírica e a profundidade das suas reflexões. A sua poesia tem sido incluída em antologias e publicações literárias, sinalizando a sua importância crescente.

Influências e legado

Embora influências específicas não sejam detalhadas, a poesia de Francisco Carvalho partilha afinidades com a rica tradição lírica da literatura de língua portuguesa. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor com uma poesia que aborda a universalidade das emoções humanas de forma original e sensível.

Interpretação e análise crítica

A obra de Francisco Carvalho convida a uma análise crítica que explore as suas camadas de significado, os temas filosóficos e existenciais que aborda, e a forma como a sua linguagem poética constrói pontes entre o indivíduo e o coletivo.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Devido à sua natureza reservada, aspetos menos conhecidos da personalidade ou do processo criativo de Francisco Carvalho não são de fácil acesso, o que contribui para uma aura de discrição em torno da sua figura literária.

Morte e memória

Não existem informações públicas que indiquem a morte de Francisco Carvalho, sugerindo que o autor possa estar vivo ou que a sua trajetória não tenha sido marcada por eventos que levem a registos biográficos completos de falecimento.