Sem Você
nenhuma metáfora
traduz a falta
nenhuma imagem
exata
faca encravada
nesse silêncio
dia sem dia
piada sem graça
acordar sem você
me mata
In: BARBOSA, Frederico. Nada feito nada. São Paulo: Perspectiva, 1993. (Signos, 15). Poema integrante da série 1 - Ocasionais
Noite Branca
insônia sem seu corpo
desejo no vazio
frio e chuvoso
hora tanta larga e lenta
sem sono sem movimento
só um som se inicia nesse suspiro
imagem insidiosa e incendiária
esses "ésses" se insinuando
na memória das suas curvas
no sonho silêncio dos seus seios
1986
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. p. 81. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimento
Effort F For Fake, 1981
não sendo muitos, eu
não vejo possibilidade de
escape.
nego.
possibilidade de
escape.
não sendo muitos, eu
nego.
não vejo
possibilidade de
não sendo muitos, eu
escape.
não vejo
nego.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero
All or Nothing at All
Tudo ou todo nada,
pedra ou furo d'água,
feito cada palavra,
lança, dardo, ferida,
em cheio nada.
De nada em nada,
o se-dizer do tudo,
feito risco na água,
onda, contorno,
reflexo de nada.
Nada feito nada,
no poema
não há termo meio,
meio-amor, meia-palavra.
Do sem
sentido intenso
se faz
um tudo atento,
feito a palavra
em
cantada,
nada
feito
nada.
In: BARBOSA, Frederico. Nada feito nada. São Paulo: Perspectiva, 1993. (Signos, 15). Poema integrante da série 5 - Repertório
Certa Biblioteca Pessoal 1978
I
se é corvo
oh! nevermore!
diz: ovo! e
humpty dumpty
cai o mundo
movendo e
vamos indo
findo finnegan
rindo e... oh!
nevermore!
II
eliot pagando
em pound
a sandice dantes
no inferno:
wall street.
III
centauro cartesiano
cantor careca de
cadeiras, cogumelos
cogumelos?
meudeus! cogumelos!
fede a fresco
seis personagens
à cata do dog god
morcego cego
godot
ditando heitor
três voltas em fuga
... parou.
filhos de príamo
double dublin
moscou
IV
no mais nemirovich
gaivotas no cerejal
como queria tchecov
maiakóvski soprando
gorki lembrando
estudem, estudem!
dostoievski ou tolstoi?
tanto faz
tanto fez que
stanislavski
rouxinol seria cotovia?
mesmo mero, melhor homero
(tolstoi xingando)
morreu romeu e
marlowe comeu
manuscritos
na tumba.
In: BARBOSA, Frederico. Nada feito nada. São Paulo: Perspectiva, 1993. (Signos, 15). Poema integrante da série 4 - Certa Biblioteca Pessoal.
NOTA: Poema composto de 7 parte
Na Mira: Quartetos, 1989
I
Em vão jogar dados contaminados
sempre esperando, caso sobre caso,
acidente branco em campo minado,
uma certa explosão em cada passo.
Apostar em conta-gotas viciado:
certeza de fratura exposta em aço,
círculo só rabisco nos quadrados,
isca disfarçada em frágil acaso.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 1 - A Consciência do Zero.
NOTA: Poema composto de 10 partes, com 2 quadras cad
A Reconstituição de um Poema, 1986
Traços de tinta no papel cortado:
pedaços de uma mesma declaração
reiterada a cada palavra vaga,
mesmo a mais errônea e emocionada.
Esse seu soneto (ainda mais um)
minha mão insegura, tola e tonta,
pronta a tramar sua própria destruição,
em momento algum logrou rasgar
Pois mesmo cega faca e inconstante,
sendo incapaz de se saber feliz,
confiar na felicidade que há,
sabe e sente que ser é diferente,
nesse mundo de triste imperfeição,
quando se ama de forma tão exata.
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 4 - Aos Mesmos Sentimentos
Av Brasil, SP, 1987
flor de farol
colhida às pressas
entre o tédio maquinal da marcha lenta
sinal
de diferença
em meio à indiferença metálica
desses corpos impessoais
na agonia
da imobilidade densa
semáforo
signo insano
ensaio de abalo sísmico
lente de aumento
no amor e na impaciência
In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 2 - Geografias
Na mira
quartetos
(fragmentos)
I
Em vão jogar dados contaminados:sempre esperando, caso sobre caso,acidente branco em campo minado,uma certa explosão em cada passo.
Apostar em conta-gotas viciado:certeza de fratura exposta em aço,circulo só rabisco nos quadrados,isca disfarçada em frágil acaso.
V
Escapo por pura sorte.O criminoso se enrola.A noite fere e explode,nenhuma estrela me chora.
Quando acordo pela morte,que falha, cala e consola,vislumbro o lume que foge,perfeita pedra por fora.
Poema em espanhol
Rarefato
Outra trilogia do tédio
I
Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor
amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha
odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água
tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa
II
Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:
III
Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.
Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.
Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.
Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.
Poema em espanhol