Lista de Poemas

Goiás

Só te vejo, Goiás, quando me afasto
e, nas pontas dos pés, meio de banda,
jogo o perfil do tempo sobre o rasto
desse quarto-minguante na varanda.

De perto, não te vejo nem sou visto.
O amor tem destes casos de cegueira:
quanto mais perto mais se torna misto,
ouro e pó de caruncho na madeira.

De perto, as coisas vivem pelo ofício
do cotidiano — existem de passagem,
são formas de rotina, desperdício,
cintilações por fora da linguagem.

De longe, não, nem tudo está perdido.
Há contornos e sombras pelo teto.
E cada coisa encontra o seu sentido
na colcha de retalhos do alfabeto.

E, quanto mais te busco e mais me esforço,
de longe é que te vejo, em filigrana,
no clichê de algum livro ou no remorso
de uma extinta pureza drummondiana.

Só te vejo, Goiás, quando carrego
as tintas no teu mapa e, como um Jó,
um tanto encabulado e meio cego,
vou-te jogando em verso, em nome, em GO.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 36. Poema integrante da série Sombras da Terra
3 983

História

Toda história tem seu texto
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.

Tem um sujeito que a escolhe
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe
qui tollis peccata mundi.

Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.

Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
R tem a essência que muda
e permanece, calada.

Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar pelo avesso,
ler o que está subscrito.

1 679

Chá das Cinco

A Jorge Amado

chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se

(pelo sim pelo não
chá de barbatimão)

6 918

Coreografia do Mito

4. "Un pas de trois"

Houve um reino qualquer e três sereias
que afinavam seu canto na linguagem:
a virgem, a casada e a que passava
seus dias na janela.
E havia a forma
de sirene e silêncio,
essas metades,
renda de bilro, milongagem, força
oculta e sem governo,
latejantes
nas têmporas do mito.

A primeira voltou à sua estância,
leu Bandeira, fez versos,
desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
foi banhar-se num rio de água doce.

A segunda voltou-se para o mar,
tomou banho lustral de fevereiro,
fez cirandas na areia e ouviu lendas
da lira pendurada no coqueiro.

A terceira me deu esta janela
com desenho de peixe na vidraça.
E está sempre acenando
lá do fundo
do rio que não passa.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 69-70. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Poema composto de 4 partes: 1. Lorelei; 2. Iemanjá; 3. Iara; 4. Un pas de troi
1 646

Descrição

o sarro do saci
a farra do saci
o berro do saci
a guerra do saci
o birro do saci
a birra do saci
o gorro do saci
a p. do saci
o pulo do saci
a gula do saci


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 38. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 478

Caiporismo

Um dia um caipora, baixinho, gordo e nu,
montou num caititu e foi pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.

E logo todos os bichos se amoitaram e só
saíram aos cochichos, aproveitando o pó
da noite que tecia seu manto de jaó.

Mas um velho goiano (seis mortes, por aí)
arrumou seu jirau sobre um pé de pequi
e ficou escuitano jaó e juriti.

Esperava veado e só então deu fé
naquilo que a seu lado parecia de pé
e tinha o corpo todo seco que nem sapé.

Quem não teme o diabo e arreliado está
sabe bem que no cabo de sua faca só há
sangue de coisa ruim, cheiro de coisa má.

Com três golpes no umbigo matou o caipora.
Mas quando ia embora viu-se baixinho e nu
montando um caititu e indo pro mato afora
fazendo um sururu dos diabos.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 72. Poema integrante da série Sombras da Terra
1 883

Era um moinho sem vento

Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.

(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)

Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.

(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)


Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).

In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 903

Manifesto da Cozinha Goiana

A Waldomiro Bariani Ortêncio


4. O Trivial

Ah! o arroz com guariroba, o arroz maria-isabel!
o arroz-de-moça-pobre, o delícia, o casadinhos,
o arroz feito com suã, o fulvo arroz com pequi!
E o feijão frito e o pagão, feijão-caipira ou tropeiro,
tutu de arroz e feijão?
E a almôndega batida,
o angu-de-milho-e-quiabo? e o refogado-de-milho,
a cambuquira, o quibebe, o molho-pardo, a paçoca,
o escaldado-de-farinha-de-milho, a galinhada,
a frigideira-de-umbigo-de-bananeira, o cará,
a tigelada-de-queijo, de mamão verde e chuchu,
e o maxixe, o mangarito, as empadas-de-domingo,
carne-de-porco-na-lata, pamonha de todo jeito?

Tudo isso e mais a fome
da cidade e do sertão,
tudo isso e mais o gosto
da pimenta e do limão,
tudo isso, minha gente,
vai perdendo a tradição,
vai ficando na saudade,
na forma de algum refrão,

de algum discurso eficaz
que possa matar a fome
comendo apenas o nome
das comidas de Goiás.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 97. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Poema composto de 5 partes: 0. Prólogo; 1. Bichos; 2. Pássaros; 3. Peixes; 4. O Trivia
2 609

Estórias

1.

— Casião eu viajava distraído
na boquinha da noite.
O cavalo era aquele pedrês
que foi do compadre Quelemente,
que os ciganos roubaram.

Graças a Deus, nunca viajei armado.
Só o canivete solingen
de picar fumo.

Foi então que a canguçu apareceu
e logo desapareceu,
uivando fino,
já sem rabo entre as pernas.

2.

— Era no tempo da quaresma
e os cachorros latiam a noite inteira.
O homem cada dia ficava amarelo.
Não senhor, não era de medo, não.
Dizia-se que era de maleita.

Um dia a mulher encontrou ele
dormindo entre os porcos.
Era para curar a maleita,
o homem explicou.

Na sexta-feira-santa,
nem no chiqueiro estava mais.
Ainda de resguardo, a mulher foi dormir
na casa da mãe.

No caminho, surgiu um porco muito grande,
que andava em pé, feito um homem.

A mulher subiu num pé-de-pau, assustada.
O porco tentou alcançá-la com a boca,
mas só conseguiu mastigar as pontas
da flanela do menino.

No outro dia o marido voltou cedo:
tinha os dentes cheios de fiapos
de flanela vermelha.

(...)


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 74-75. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Poema composto de 4 parte
1 484

O Discurso

Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.

Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.

Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.

E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.

1 634

Comentários (3)

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Aline
Aline

Na minha também

Ana
Ana

Bom pra vc

Leonardo
Leonardo

Grande escritor,nasceu em minha cidade

Identificação e contexto básico

Gilberto Mendonça Teles é um renomado poeta, crítico literário, professor universitário e ensaísta brasileiro. Nasceu em 1931, em Barra do Garças, Mato Grosso.

Infância e formação

Sua formação acadêmica foi marcada por estudos em Direito e, posteriormente, em Letras. Obteve doutorado em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), onde também lecionou. Sua trajetória intelectual foi moldada por um profundo interesse pela poesia, pela crítica literária e pela filosofia.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária como poeta, publicando "O Prisioneiro do Espaço" em 1956. Ao longo das décadas, consolidou-se como um dos importantes nomes da poesia brasileira, explorando diferentes vertentes líricas e temáticas. Além da poesia, destacou-se como um influente crítico literário, com obras que analisaram a poesia moderna e contemporânea brasileira e portuguesa, e como professor universitário, formando inúmeros alunos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Gilberto Mendonça Teles é caracterizada por um lirismo introspectivo, pela busca da palavra exata e por uma reflexão constante sobre a passagem do tempo, a memória, a identidade e a própria condição humana. Seu estilo é marcado pela clareza, pelo rigor formal e pela inteligência, muitas vezes explorando o verso livre com grande sensibilidade. Temas como o amor, a solidão, a beleza efêmera da vida e a busca por sentido permeiam sua poesia. Ele dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo em que incorpora elementos da modernidade, sem aderir a modismos passageiros. É frequentemente associado a uma poesia que valoriza a reflexão e a profundidade. Entre suas obras poéticas mais relevantes estão "O Prisioneiro do Espaço" (1956), "Coração na Manhã" (1958), "Vigília" (1959), "Algum Movimento" (1965), "A Busca do Riso" (1975), "O Livro das Ignorâncias" (1986), "Poemas Escolhidos" (1998) e "Um Gato no Teclado" (2010). Como crítico, publicou obras fundamentais como "Breve História da Literatura Brasileira" (1957), "Estudos de Poética Brasileira" (1965) e "A Poesia de Carlos Drummond de Andrade" (1972).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sua trajetória se desenvolveu num período de efervescência cultural no Brasil, marcado por importantes movimentos literários como o Concretismo e o Pós-Concretismo, embora sua obra poética tenha seguido um caminho mais introspectivo e lírico. Como intelectual, participou de debates importantes sobre a literatura e a cultura brasileira. Sua formação e atuação acadêmica ocorreram em um período de consolidação das universidades brasileiras e de expansão dos estudos literários.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gilberto Mendonça Teles dedicou grande parte de sua vida à literatura e ao ensino. Sua vida pessoal, embora não amplamente divulgada em detalhes, é marcada pela discrição e pela profunda dedicação às suas atividades intelectuais. As suas relações afetivas e familiares, como as de qualquer indivíduo, certamente influenciaram sua visão de mundo e sua sensibilidade poética, embora ele tenha optado por um foco maior na universalidade dos temas em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É amplamente reconhecido como um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. Sua obra poética e crítica tem sido objeto de estudo em universidades e de resenhas elogiosas. Recebeu diversos prêmios e distinções ao longo de sua carreira, atestando a importância de sua contribuição para as letras brasileiras.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por grandes poetas da língua portuguesa e pela tradição literária ocidental. Seu legado reside não apenas em sua obra poética, mas também em sua atuação como crítico e professor, que ajudou a formar e a direcionar o pensamento sobre a literatura brasileira. Sua poesia continua a inspirar leitores e escritores pela sua profundidade e beleza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mendonça Teles convida a uma reflexão sobre a existência, a linguagem e a arte. Suas críticas literárias são valorizadas pela profundidade analítica e pela clareza expositiva, oferecendo interpretações perspicazes sobre os autores e as obras que aborda.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua atuação como professor universitário, especialmente na USP, teve um impacto significativo na formação de gerações de estudiosos da literatura brasileira. Sua discrição sobre a vida pessoal contrasta com a abertura lírica de sua obra poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em atividade e reconhecimento, Gilberto Mendonça Teles permanece como uma figura viva e atuante na literatura brasileira. Seu legado está consolidado em suas obras e na memória daqueles que foram por ele influenciados.