Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

1931–2024 · viveu 93 anos BR BR

Gilberto Mendonça Teles é um poeta, crítico literário e professor brasileiro, cuja obra se destaca pela inteligência, lirismo e pela profunda reflexão sobre a linguagem e a condição humana. A sua poesia transita entre o pessoal e o universal, com um rigor formal e uma clareza expressiva. Com uma vasta carreira académica e literária, é uma figura incontornável na literatura brasileira contemporânea, influenciando gerações de escritores e estudiosos.

n. 1931-01-01, Bela Vista de Goiás · m. 2024-12-04

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Goiás

Só te vejo, Goiás, quando me afasto
e, nas pontas dos pés, meio de banda,
jogo o perfil do tempo sobre o rasto
desse quarto-minguante na varanda.

De perto, não te vejo nem sou visto.
O amor tem destes casos de cegueira:
quanto mais perto mais se torna misto,
ouro e pó de caruncho na madeira.

De perto, as coisas vivem pelo ofício
do cotidiano — existem de passagem,
são formas de rotina, desperdício,
cintilações por fora da linguagem.

De longe, não, nem tudo está perdido.
Há contornos e sombras pelo teto.
E cada coisa encontra o seu sentido
na colcha de retalhos do alfabeto.

E, quanto mais te busco e mais me esforço,
de longe é que te vejo, em filigrana,
no clichê de algum livro ou no remorso
de uma extinta pureza drummondiana.

Só te vejo, Goiás, quando carrego
as tintas no teu mapa e, como um Jó,
um tanto encabulado e meio cego,
vou-te jogando em verso, em nome, em GO.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 36. Poema integrante da série Sombras da Terra
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Biografia

Identificação e contexto básico

Gilberto Mendonça Teles é um renomado poeta, crítico literário, professor universitário e ensaísta brasileiro. Nasceu em 1931, em Barra do Garças, Mato Grosso.

Infância e formação

Sua formação acadêmica foi marcada por estudos em Direito e, posteriormente, em Letras. Obteve doutorado em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), onde também lecionou. Sua trajetória intelectual foi moldada por um profundo interesse pela poesia, pela crítica literária e pela filosofia.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária como poeta, publicando "O Prisioneiro do Espaço" em 1956. Ao longo das décadas, consolidou-se como um dos importantes nomes da poesia brasileira, explorando diferentes vertentes líricas e temáticas. Além da poesia, destacou-se como um influente crítico literário, com obras que analisaram a poesia moderna e contemporânea brasileira e portuguesa, e como professor universitário, formando inúmeros alunos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Gilberto Mendonça Teles é caracterizada por um lirismo introspectivo, pela busca da palavra exata e por uma reflexão constante sobre a passagem do tempo, a memória, a identidade e a própria condição humana. Seu estilo é marcado pela clareza, pelo rigor formal e pela inteligência, muitas vezes explorando o verso livre com grande sensibilidade. Temas como o amor, a solidão, a beleza efêmera da vida e a busca por sentido permeiam sua poesia. Ele dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo em que incorpora elementos da modernidade, sem aderir a modismos passageiros. É frequentemente associado a uma poesia que valoriza a reflexão e a profundidade. Entre suas obras poéticas mais relevantes estão "O Prisioneiro do Espaço" (1956), "Coração na Manhã" (1958), "Vigília" (1959), "Algum Movimento" (1965), "A Busca do Riso" (1975), "O Livro das Ignorâncias" (1986), "Poemas Escolhidos" (1998) e "Um Gato no Teclado" (2010). Como crítico, publicou obras fundamentais como "Breve História da Literatura Brasileira" (1957), "Estudos de Poética Brasileira" (1965) e "A Poesia de Carlos Drummond de Andrade" (1972).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sua trajetória se desenvolveu num período de efervescência cultural no Brasil, marcado por importantes movimentos literários como o Concretismo e o Pós-Concretismo, embora sua obra poética tenha seguido um caminho mais introspectivo e lírico. Como intelectual, participou de debates importantes sobre a literatura e a cultura brasileira. Sua formação e atuação acadêmica ocorreram em um período de consolidação das universidades brasileiras e de expansão dos estudos literários.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gilberto Mendonça Teles dedicou grande parte de sua vida à literatura e ao ensino. Sua vida pessoal, embora não amplamente divulgada em detalhes, é marcada pela discrição e pela profunda dedicação às suas atividades intelectuais. As suas relações afetivas e familiares, como as de qualquer indivíduo, certamente influenciaram sua visão de mundo e sua sensibilidade poética, embora ele tenha optado por um foco maior na universalidade dos temas em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É amplamente reconhecido como um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. Sua obra poética e crítica tem sido objeto de estudo em universidades e de resenhas elogiosas. Recebeu diversos prêmios e distinções ao longo de sua carreira, atestando a importância de sua contribuição para as letras brasileiras.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por grandes poetas da língua portuguesa e pela tradição literária ocidental. Seu legado reside não apenas em sua obra poética, mas também em sua atuação como crítico e professor, que ajudou a formar e a direcionar o pensamento sobre a literatura brasileira. Sua poesia continua a inspirar leitores e escritores pela sua profundidade e beleza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mendonça Teles convida a uma reflexão sobre a existência, a linguagem e a arte. Suas críticas literárias são valorizadas pela profundidade analítica e pela clareza expositiva, oferecendo interpretações perspicazes sobre os autores e as obras que aborda.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua atuação como professor universitário, especialmente na USP, teve um impacto significativo na formação de gerações de estudiosos da literatura brasileira. Sua discrição sobre a vida pessoal contrasta com a abertura lírica de sua obra poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em atividade e reconhecimento, Gilberto Mendonça Teles permanece como uma figura viva e atuante na literatura brasileira. Seu legado está consolidado em suas obras e na memória daqueles que foram por ele influenciados.

Poemas

13

Estórias

1.

— Casião eu viajava distraído
na boquinha da noite.
O cavalo era aquele pedrês
que foi do compadre Quelemente,
que os ciganos roubaram.

Graças a Deus, nunca viajei armado.
Só o canivete solingen
de picar fumo.

Foi então que a canguçu apareceu
e logo desapareceu,
uivando fino,
já sem rabo entre as pernas.

2.

— Era no tempo da quaresma
e os cachorros latiam a noite inteira.
O homem cada dia ficava amarelo.
Não senhor, não era de medo, não.
Dizia-se que era de maleita.

Um dia a mulher encontrou ele
dormindo entre os porcos.
Era para curar a maleita,
o homem explicou.

Na sexta-feira-santa,
nem no chiqueiro estava mais.
Ainda de resguardo, a mulher foi dormir
na casa da mãe.

No caminho, surgiu um porco muito grande,
que andava em pé, feito um homem.

A mulher subiu num pé-de-pau, assustada.
O porco tentou alcançá-la com a boca,
mas só conseguiu mastigar as pontas
da flanela do menino.

No outro dia o marido voltou cedo:
tinha os dentes cheios de fiapos
de flanela vermelha.

(...)


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 74-75. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Poema composto de 4 parte
1 517

O Discurso

Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.

Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.

Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.

E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.

1 663

No Foz do Tejo

E todavia a trave na garganta
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima

1 693

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Aline
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Bom pra vc

Leonardo
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Grande escritor,nasceu em minha cidade