Lista de Poemas

No Foz do Tejo

E todavia a trave na garganta
e a grossa mão medrosa sem poder
interpretar sequer o que repete,
o que soletra, o que rumina há séculos,
nós, gagos de Babel, babamos versos.
Jorge de Lima

1 672

Meus Outros Anos

A Maximiano de Carvalho e Silva

Eu me lembro, eu me lembro, Casimiro,
no meu São João, no meu Goiás, na aurora
da minha vida, eu li o teu suspiro,
li teus versos de amor que leio agora.

E que meu filho lê, e todo mundo
sabe de cor, de coração, de ouvido,
desde que sinta o apelo mais profundo
de tudo que tem força e tem sentido.

Contigo comecei a ver e vi
as coisas mais comuns — o natural:
o rio, a bananeira, a juriti
e a tarde que cismava no quintal.

Contigo descobri a travessia
do tempo na manhã, no amor, no medo,
nos olhares da prima que sabia
a dimensão maior do meu brinquedo.

E até este confuso sentimento,
esta idéia de pátria, que persiste,
veio de teus poemas, no momento
em que tudo era belo e apenas triste

era pensar no exílio e ver no termo
um motivo de doença e de pecado;
triste era imaginar o poeta enfermo,
tossindo os seus silêncios no passado.

Eu me lembro, eu me lembro! e quis de perto
ver o teu rio, teu São João, teu lar;
ler a poesia desse céu aberto
que continuas a escrever no mar.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 78. Poema integrante da série Sombras da Terra.

NOTA: Referência aos poemas "Amor e Medo", "Juriti", "Meus Oito Anos", "No Lar" e "Suspiros", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
1 612

Liter-Atura

Que seria dos congressos e seminários de literatura
se não houvesse os colóquios dos dias livres,
se não houvesse as horas neutras dos intervalos,
os interstícios ocasionais, as interrupções,
quando todas as gatas são realmente pardas
e a comunicação se torna livre e tátil
como um aperto de mão?

Que seria da vida e da poesia
se não houvesse os apartes femininos
humanizando o contexto dos linguólogos,
se não houvesse na primeira fila
aquele olhar que flerta e que sonha
diante da voz que fala fala fala
tagarela
sobre os direitos e avessos
da mulher latino-americana?

Tudo o mais são penugens, conversas interrompidas,
fragmentos de sorrisos discretos na continuidade
do amor que viaja para lugares distantes
(Aquidauana
Monte Alegre
uma rua em Brás de Pina)
e deixa no ar promessas de beijos e de cartas
para serem discutidas e transcritas
nos anais do próximo congresso.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Plural de nuvens. Ed. aum. Prefácio de Telenia Hill. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1990. p. 24-25. Poema integrante da série 1a. parte: Na Contraluz
1 527

Comentários (3)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Aline
Aline

Na minha também

Ana
Ana

Bom pra vc

Leonardo
Leonardo

Grande escritor,nasceu em minha cidade

Identificação e contexto básico

Gilberto Mendonça Teles é um renomado poeta, crítico literário, professor universitário e ensaísta brasileiro. Nasceu em 1931, em Barra do Garças, Mato Grosso.

Infância e formação

Sua formação acadêmica foi marcada por estudos em Direito e, posteriormente, em Letras. Obteve doutorado em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), onde também lecionou. Sua trajetória intelectual foi moldada por um profundo interesse pela poesia, pela crítica literária e pela filosofia.

Percurso literário

Iniciou sua carreira literária como poeta, publicando "O Prisioneiro do Espaço" em 1956. Ao longo das décadas, consolidou-se como um dos importantes nomes da poesia brasileira, explorando diferentes vertentes líricas e temáticas. Além da poesia, destacou-se como um influente crítico literário, com obras que analisaram a poesia moderna e contemporânea brasileira e portuguesa, e como professor universitário, formando inúmeros alunos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Gilberto Mendonça Teles é caracterizada por um lirismo introspectivo, pela busca da palavra exata e por uma reflexão constante sobre a passagem do tempo, a memória, a identidade e a própria condição humana. Seu estilo é marcado pela clareza, pelo rigor formal e pela inteligência, muitas vezes explorando o verso livre com grande sensibilidade. Temas como o amor, a solidão, a beleza efêmera da vida e a busca por sentido permeiam sua poesia. Ele dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo em que incorpora elementos da modernidade, sem aderir a modismos passageiros. É frequentemente associado a uma poesia que valoriza a reflexão e a profundidade. Entre suas obras poéticas mais relevantes estão "O Prisioneiro do Espaço" (1956), "Coração na Manhã" (1958), "Vigília" (1959), "Algum Movimento" (1965), "A Busca do Riso" (1975), "O Livro das Ignorâncias" (1986), "Poemas Escolhidos" (1998) e "Um Gato no Teclado" (2010). Como crítico, publicou obras fundamentais como "Breve História da Literatura Brasileira" (1957), "Estudos de Poética Brasileira" (1965) e "A Poesia de Carlos Drummond de Andrade" (1972).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sua trajetória se desenvolveu num período de efervescência cultural no Brasil, marcado por importantes movimentos literários como o Concretismo e o Pós-Concretismo, embora sua obra poética tenha seguido um caminho mais introspectivo e lírico. Como intelectual, participou de debates importantes sobre a literatura e a cultura brasileira. Sua formação e atuação acadêmica ocorreram em um período de consolidação das universidades brasileiras e de expansão dos estudos literários.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gilberto Mendonça Teles dedicou grande parte de sua vida à literatura e ao ensino. Sua vida pessoal, embora não amplamente divulgada em detalhes, é marcada pela discrição e pela profunda dedicação às suas atividades intelectuais. As suas relações afetivas e familiares, como as de qualquer indivíduo, certamente influenciaram sua visão de mundo e sua sensibilidade poética, embora ele tenha optado por um foco maior na universalidade dos temas em sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção É amplamente reconhecido como um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. Sua obra poética e crítica tem sido objeto de estudo em universidades e de resenhas elogiosas. Recebeu diversos prêmios e distinções ao longo de sua carreira, atestando a importância de sua contribuição para as letras brasileiras.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por grandes poetas da língua portuguesa e pela tradição literária ocidental. Seu legado reside não apenas em sua obra poética, mas também em sua atuação como crítico e professor, que ajudou a formar e a direcionar o pensamento sobre a literatura brasileira. Sua poesia continua a inspirar leitores e escritores pela sua profundidade e beleza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mendonça Teles convida a uma reflexão sobre a existência, a linguagem e a arte. Suas críticas literárias são valorizadas pela profundidade analítica e pela clareza expositiva, oferecendo interpretações perspicazes sobre os autores e as obras que aborda.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua atuação como professor universitário, especialmente na USP, teve um impacto significativo na formação de gerações de estudiosos da literatura brasileira. Sua discrição sobre a vida pessoal contrasta com a abertura lírica de sua obra poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em atividade e reconhecimento, Gilberto Mendonça Teles permanece como uma figura viva e atuante na literatura brasileira. Seu legado está consolidado em suas obras e na memória daqueles que foram por ele influenciados.