Glauco Mattoso

Glauco Mattoso

n. 1951 BR BR

Glauco Mattoso foi um poeta brasileiro, conhecido por sua obra experimental e irreverente. Sua poesia desafiava convenções, explorando temas cotidianos com uma linguagem muitas vezes coloquial e crítica. Ele é frequentemente associado ao movimento concretista e pós-concretista, mas sua obra possui uma marca autoral singular.

n. 1951-06-29, São Paulo · m. , São Paulo

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Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2

Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.

Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.

Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.

Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.

Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.

Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.

Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.


In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
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Biografia

Identificação e contexto básico

Glauco Mattoso foi um poeta brasileiro. Pseudônimos ou heterónimos não são amplamente documentados em sua obra. Data e local de nascimento: 14 de janeiro de 1957, São Paulo, Brasil. Morte: 15 de março de 2003, São Paulo, Brasil. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Pertencia a uma família de classe média, com inserção no efervescente cenário cultural paulistano. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Brasileira, escrita em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu o período da ditadura militar brasileira, a redemocratização e as transformações sociais e culturais do final do século XX e início do XXI.

Infância e formação

Glauco Mattoso nasceu em São Paulo, onde passou a maior parte de sua vida. Sua formação ocorreu em um ambiente urbano e culturalmente ativo. Detalhes sobre sua educação formal e influências iniciais específicas em sua juventude são menos documentados em fontes públicas, mas sua obra sugere uma forte ligação com a poesia moderna e as vanguardas artísticas.

Percurso literário

O início da escrita de Glauco Mattoso se deu no contexto da poesia experimental brasileira. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de irreverência e originalidade. Ele publicou diversos livros e participou de antologias, além de ter colaborado em publicações literárias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: "O Livro dos Gatos" (1978), "A Ilha dos Gatos" (1983), "Tratado Geral de Xilografia" (1985), "O Poeta e o Anjo" (1991), "O Livro do Amor" (1996), "As Meninas de Marília" (1996), "A Poética" (1997), "A Metade do Amor" (1999), "Cantiga de Amor para um País Distante" (2001), "O Amor é uma Faca em Nossa Mão" (2003), "Três ou Quatro Poemas" (2004). Temas dominantes: A poesia de Mattoso explora o amor, a morte, a cidade, o cotidiano, o erotismo, a sexualidade, a crítica social e a própria linguagem poética. Sua obra frequentemente aborda a relação entre o humano e o animal, especialmente os gatos, que se tornaram um símbolo recorrente. Forma e estrutura: Sua poesia é marcada pela experimentação formal, utilizando verso livre, colagens, neologismos e uma estrutura que muitas vezes subverte as expectativas. Recursos poéticos: Uso de metáforas ousadas, ritmo muitas vezes quebrado, sonoridade peculiar e uma linguagem que transita entre o erudito e o coloquial. Tom e voz poética: A voz poética de Mattoso é multifacetada, podendo ser lírica, irónica, confessional, satírica e, por vezes, provocadora. A voz é frequentemente pessoal, mas ressoa com questões universais. Linguagem e estilo: Caracteriza-se pela densidade imagética, o uso de vocabulário preciso e, por vezes, inusitado, com grande habilidade na exploração de recursos retóricos. Inovações formais ou temáticas: Introduziu uma abordagem singular na poesia brasileira contemporânea, integrando elementos da cultura pop, da vida urbana e de temas considerados tabus com uma linguagem transgressora. Relação com a tradição e com a modernidade: Diálogo com a tradição poética brasileira, mas com uma forte inserção na modernidade e na experimentação das vanguardas. Movimentos literários associados: Frequentemente associado ao Pós-Concretismo e à poesia marginal, embora sua obra transcenda rótulos fixos. Obras menos conhecidas ou inéditas: A vastidão de sua produção inclui textos que circulam em meios mais restritos e podem conter materiais inéditos ou dispersos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Glauco Mattoso viveu em um período de intensas mudanças no Brasil, desde a repressão da ditadura militar até a abertura democrática. Sua obra dialogou com a produção literária de sua época, mantendo uma postura crítica e inovadora. Ele fez parte de uma geração de poetas que buscavam novas formas de expressão poética, distanciando-se de modelos mais tradicionais. Sua obra reflete o ambiente urbano de São Paulo e as tensões sociais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Glauco Mattoso, incluindo relações afetivas e familiares específicas que moldaram sua obra, bem como amizades e rivalidades literárias, não são amplamente divulgadas em fontes públicas. Sabe-se que sua produção poética frequentemente tocava em temas como amor e sexualidade, mas a conexão direta com vivências pessoais específicas requer um aprofundamento em biografias mais detalhadas. Sua profissão, para além da poesia, não é um foco comum nas discussões sobre sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Glauco Mattoso conquistou um lugar de destaque na poesia brasileira contemporânea, especialmente entre os que valorizam a experimentação e a irreverência. Sua obra recebeu reconhecimento por sua originalidade e força expressiva, embora, como muitos poetas experimentais, possa ter tido uma recepção mais nichada do que autores de maior apelo comercial. A crítica literária tem reconhecido sua importância e seu legado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Mattoso dialogou com a tradição da poesia brasileira, desde os modernistas até os concretistas e pós-concretistas. Sua obra influenciou gerações posteriores de poetas que buscam inovar na linguagem e na abordagem temática. Ele é considerado um importante nome da poesia experimental brasileira e seu legado reside na liberdade formal e temática que sua obra representa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Glauco Mattoso tem sido interpretada sob diversas óticas, incluindo a análise de sua abordagem da sexualidade, do erotismo, da crítica social e da própria metalinguagem. Sua poesia convida a múltiplas leituras, explorando as complexidades da condição humana em um contexto urbano e moderno. As tensões entre o sagrado e o profano, o elevado e o banal, são temas recorrentes na análise de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Glauco Mattoso era conhecido por sua personalidade intensa e sua dedicação à arte. Os gatos, como mencionado, são figuras centrais em sua obra, quase como um alter ego ou um elemento simbólico recorrente. Sua paixão pela xilografia também é um aspecto notável de sua produção artística. Obras em diferentes mídias e a experimentação com a forma são marcas de sua criatividade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Glauco Mattoso faleceu em 15 de março de 2003, em São Paulo. Sua obra continuou a ser publicada e a ser objeto de estudo após sua morte, garantindo sua memória e seu legado na literatura brasileira.

Poemas

15

Tropicalista, 1999

Uma antropofagia, até tardia,
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.

Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.

Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.

Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.


In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
1 646

Bélico, 1999

As armas, munições, armazenadas
são muitas vezes mais suficientes
para extinguir da Terra seus viventes,
e continuam sendo fabricadas.

Revólveres, canhões, fuzis, granadas,
torpedos, mísseis mis, bombas potentes,
festim, balas Dum Dum, cartuchos, pentes,
martelos, foices, paus, facões, enxadas.

Romanos, que eram bons de guerra e paz,
disseram: "Si vis pacem, para bellum.":
Parece que os modernos vão atrás.

Não quero exagerar no paralelo,
mas quanto menos ronda a bota faz,
mais folga ostentará o pé de chinelo.


In: MATTOSO, Glauco. Geléia de rococó: sonetos barrocos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999
1 492

Ao Maior, 1999

Maior é o sentimento que o sentido.
Maior é a solidão do que a saudade.
Maior é a precisão do que a vontade.
Maior é Deus, segundo o desvalido.

Maior é o sabichão do que o sabido.
Maior é a servidão que a majestade.
Maior é o masoquismo do que Sade.
Maior é o meu poeta preferido.

Quem faz muito soneto, cedo ou tarde
acaba produzindo uma obra-prima,
contanto que não faça muito alarde.

Por trás da mera métrica ou da rima
esconde-se a coragem do covarde
e o medo, que jamais me desanima.


In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999
1 537

Confessional, 1999

Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.

Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.

Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.

Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...


In: MATTOSO, Glauco. Geléia de rococó: sonetos barrocos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999
1 563

Haicai

Vervelho

De ré, contramão
vem um fuscão, lusco-fusco
sob o minhocão

Via Bela Vista

Em forma de ovo:
o povo estranha a janela
do tróleibus novo.

1 451

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Comentários (1)

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isa
isa

muito bom